Crítica | Madame (2017)

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Um conto de fadas moderno, iniciado com um casal muito rico que acabou de chegar a Paris e que resolve dar um jantar, numa espécie de “última ceia”, despedindo-se de um quadro de Caravaggio, que vai para autenticação e futura venda. Este é o resumo imediato de Madame (2017), uma ‘dramédia‘ romântica dirigida por Amanda Sthers, aqui, em seu segundo longa-metragem; e escrita por ela em parceria com Matthew Robbins, roteirista que começou em longas ao lado de Spielberg, no frenético Louca Escapada (1974).

Alguns dos pontos interessantes que o problemático enredo nos traz é a recontagem do conto de Cinderela fora da fantasia, tendo em cena uma relação de trabalho, um amor entre indivíduos de classes sociais diferentes, uma traição de confiança e, já caindo para um lado nada interessante, pequenas discussões paralelas que acabam nos levando para lugar nenhum. Evidente que a temática de “Cinderela moderna” não é nova sob nenhum aspecto (já tivemos até uma Cinderela Baiana, vejam só!) e que a sobreposição de clichês dizem bastante sobre o filme em si. Tudo isso é verdade. Mas vejam, clichês não necessariamente são sinônimos de um produto ruim. Algo clichê pode ser muito bem feito, com um texto bem amarrado, personagens bem construídos e narrativa com um número pequeno de falhas, tudo isso sendo clichê. Aí reside o incômodo de Madame. O filme é clichê, bastante bagunçado e cheio de momentos soltos, uma combinação fatal para qualquer obra.

Inicialmente, quando o personagem Steven (Tom Hughes) entra em cena, tomamos a deixa do roteiro para uma participação problemática do jovem. Isso até que se concretiza, mas não de uma maneira capaz de tornar o personagem relevante. Aqui, ele vive um escritor do tipo “vampiro social”, forçando situações extremas e até constrangedoras entre os que estão à sua volta e escrevendo sobre os seus dissabores; tudo isso sem o texto de Sthers e Robbins lançar um olhar mais criterioso sobre essa prática. Ao contrário. Steven é “o escritor misterioso”, que transforma o mundo em livro. O final, inclusive, romantiza a atitude, assim como dá um gancho para o desfecho aberto que em si, não é ruim, mas que vem em uma linha de tropeços impossíveis de se ignorar.

SPOILERS!

A mesma coisa acontece com o casal Anne (Toni Collette) e Bob Fredericks (Harvey Keitel) que jamais conseguem uma boa exposição, fazendo com que permaneçam “estranhos ao lado”, minando toda a simpatia que poderia vir de um encontro entre atores tão bons. Com o bloco do filho interferindo sem nada acrescentar à história, sobra para o casal guiar a narrativa, mas a única sequência em que realmente conseguem manter algo até o fim, é no jantar, onde o foco do roteiro é desviado para Maria (Rossy de Palma) e David (Michael Smiley), protagonistas do conto de fadas ao contrário. Entre conversas sobre práticas sociais, casamento, adultério e questões financeiras, vemos os encontros dos pombinhos erguerem algo que o final do filme simplesmente abandona. Não ouvimos a conversa de Anne com David e também não entendemos a motivação da sequência final, visto que o personagem ficou totalmente indiferente em relação a Maria servindo chá, Anne não falou nada para humilhá-la e sua saída da casa ficou por por isso mesmo.

O bom do desenvolvimento da fita é que Rossy de Palma traz a comédia sacana dos filmes de Almodóvar na alma, logo, sua persona espanhola, aliada a uma boa mentira, faz um tipo de comédia dos erros situacionais simplesmente encantadora — até a “página dois”. Smiley faz um par muito interessante com ela e as cenas com os dois são as melhores da obra. A fotografia cria todo um mundo de esperança para os dois, logo mergulhando-os em escuridão e cores frias. Funciona. Mas o mesmo não podemos dizer da trilha sonora, um dos pontos técnicos mais deslocados de toda a obra, não pela escolha das faixas, mas pelo momento em que são colocadas e pela duração em cena, gerando coisas absolutamente incompreensíveis, como na cena de Asereje (Ragatanga). Fosse apenas uma cena solta, o impacto seria pequeno. Mas essas situações não param de acontecer, seja porque a montagem estende demais uma situação, seja porque verdadeiras sobras sem sentido passaram pelo corte final, como a cena na piscina à noite, por exemplo, que só existe para mostrar a rejeição de Anne, mesmo isso sendo algo que já havia ficado claro em uma cena também na piscina, mais cedo naquele mesmo dia.

Madame diverte por contar alguns momentos inusitados e tem um começo cheio de boas promessas que acabam não se cumprindo. O velho e incômodo caso de filme que começa bem e termina mal.

Madame (França, 2017)
Direção: Amanda Sthers
Roteiro: Amanda Sthers, Matthew Robbins
Elenco: Toni Collette, Harvey Keitel, Rossy de Palma, Michael Smiley, Tom Hughes, Violaine Gillibert, Stanislas Merhar, Sue Cann, Ariane Séguillon, Amélie Grace Zhurkin, James Foley, Brendan Patricks, Tim Fellingham, Joséphine de La Baume, Sonia Rolland
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.