Crítica | Madame Bovary, de Gustave Flaubert

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estrelas 4

Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu): foi com esta afirmação que Gustave Flaubert enfrentou a Suprema Corte em pleno século XIX, acusado de ferir a moral com um romance abusivo e sem escrúpulos. O leitor, neste momento, deve estar ciente que Madame Bovary, obra considerada ponto de partida para o realismo como vanguarda literária, não foi apenas uma obra literária, mas um “acontecimento”. Antes de adentrar na seara analítica, vamos aos fatos?

Segundo denúncia do Ministério Público francês, a obra continha “ofensa moral pública e religiosa aos bons costumes”. No tribunal, o escritor precisou comprovar que não aprovava o comportamento de Emma, mas condenava. Processado juntamente com o editor Laurent Pichat, da revista Revue de Paris, espaço onde a obra foi inicialmente publicada em capítulos, os famosos folhetins, Flaubert teve a sorte. A corte o absolveu, mas a crítica cultural da época, puritana e tradicionalista, não o poupou, dando-lhe a alcunha de imoral. Na época pode até ter sido ruim, mas como todos os escritores “imortais” do seletivo cânone literário mundial, Flaubert ficou para a posteridade e até hoje é uma referência, além de ter vendido bastante, uma prova de que “babados” midiáticos não aquecem apenas a sociedade contemporânea, mas já é fruto da humanidade há séculos.

Segundo o crítico literário Otto Maria Carpeaux, “o verdadeiro personagem desse romance é a estupidez humana”. Devo concordar com a opinião do crítico, responsável também por outra afirmação bastante contundente sobre Madame Bovary, alegando ser uma obra de “perfeição da prosa e na maestria absoluta da arte de narrar”. Inspirada no suicídio da mulher de um oficial da Normandia, a obra que levou cinco anos para ser produzida nos faz adentrar pelo mundo de Emma, uma mulher burguesa de postura sonhadora.

Criada no campo e cheia de influências religiosas em sua formação, a moça aprendeu a ver a vida, durante determinado tempo, através da literatura sentimental. Descrita como bonita e recatada, Emma tem a chance de realizar o sonho de quase toda mulher da época, principalmente as domadas pela cartilha dos romances oriundos do movimento romântico: casar. No entanto, o que era para ser felicidade e realização, acaba por se tornar um transtorno, pois ao seguir a linha “eu não obrigada”, a personagem vai mergulhar no caos e cometer um dos maiores pecados para a época: o adultério.

Ela se casa com o atraente e dedicado Charles, um médico dedicado e apaixonado, mas bastante entediante. Nem mesmo o nascimento da filha lhe traz a felicidade prometida, pois ao se sentir presa ao casamento e aos ditames da cartilha moralista da época, Emma sucumbe cotidianamente. Abatida, encontra uma “felicidade clandestina” no adultério e no consumismo. O que faz a situação piorar é o constante estado de insatisfação: ela nunca consegue se sentir satisfeita, pois está constantemente em busca de algo mais.

Personagem alegórica das críticas de Flaubert ao “mal-estar da sociedade” francesa no século XIX, Emma é a heroína que trafega entre o idealismo romântico e a austeridade realista. Nascida e criada no campo, a moça transforma-se após o casamento, instituição também criticada por Flaubert. Frustrada, irritada e sedenta por aventuras, Emma percebe que viver ao lado do marido é algo entediante e distante do que imaginou para a sua vida. Esférica, a personagem muda ao passo que a narrativa avança, mas infelizmente, não encontra a felicidade almejada, optando por suicídio, uma estratégia de acabar com a sua vida miserável.

Ao seu lado vive o contraponto da personagem: Carlos Bovary, antagonista que sequer supõe o seu papel negativo na vida da esposa, pois ele é o oposto de todos os ideais da moça. Um homem conformado e acomodado com as oportunidades da vida. A filha do casal, Berta Bovary, é o fruto de um lar repleto de tensões psicológicas. Seu futuro, no entanto, demonstra ser o contrário da mãe, uma espécie de promessa para uma vida melhor e menos agonizante, mesmo que dentro de determinado paradigmas pré-estabelecidos. A garota, ao invés de trazer felicidade para o casamento, soa como mais um problema para a mãe “eternamente” insatisfeita.

Entre os personagens secundários temos alguns tipos que ajudam a compor o quadro narrativo e dar o tom realista e crítico do romance: Sr. Carlos Bartolomeu Diniz, pai de Carlos Bovary, é o representante dos ideais da antiga nobreza, pois mesmo sem dinheiro, gostava de viver das aparências, personagem estático, tal como Sr. Rouault, pai de Emma, homem do campo abastado, mas sem tato para os negócios, oportunista, que vê no casamento da filha com um homem igualmente abastado, a chance de se livrar da moça impetuosa sem dispender muito dinheiro.

Nastásia e Felicidade representam a classe serviçal de Emma. A primeira, empregada de Carlos há anos, é demitida por Emma depois que desobedece algumas ordens, dando espaço para Felicidade, moça que metaforiza a nova fase de Emma, personagem em busca de “felicidade” em algo que ela ainda não sabe do que se trata (e nem saberá, como veremos até o final do romance). Há ainda Léon, responsável por nutrir sentimentos não correspondidos por Emma, Sr. Binet, representante do militarismo e da resistência aos avanços tecnológicos promovidos pelas revoluções industriais, entre outros tipos que gravitam em torno dos personagens centrais para os delinearem ainda melhor.

Dividida em três partes, a obra consta de 09 capítulos na primeira, 15 na segunda e 11 na terceira. Ao empregar o tempo cronológico linear, tendo como acréscimo narrativo alguns rompantes psicológicos de Emma e presença de flashbacks, Madame Bovary traz uma técnica interessante, o narrador testemunha, bem próximo dos acontecimentos, tornando-se onisciente e prevendo ações ao passo que o enredo se desenvolve.

Com trama que circula entre o ambiente urbano burguês e o campo, a obra é a típica produção onde o espaço exerce influência no comportamento dos personagens. Em A Histeria em Freud e Flaubert, o especialista Sergio Scotti resgata excertos da obra, em especial da personagem Emma, talvez a maior “influenciada” pelo espaço, apontando-a como “uma histérica com propensão a inventar histórias e a criar um mundo imaginário encarnando personagens romanescas”, isto é, “variação entusiasta das mulheres ilustres e infelizes”.

Assim como quase todos os clássicos, a obra ganhou ressonâncias em outros suportes narrativos. Em Vale Abraão, a escritora argentina Agustina Bessa-Luís retoma a obra como referência absoluta para o desenvolvimento de sua narrativa, tal como no século XIX, Luísa, de O Primo Basílio, obra prima do lisboeta Eça de Queirós. O cineasta Manoel de Oliveira fez a sua versão em 1993; anteriormente, Vincente Minnelli (1949) e Claude Chabrol (1991) também entregaram os seus olhares, além da versão de 2014, olhar feminino conduzido por Sophie Barthes.

Em 1892, no artigo “Le Bovarysme, la psychologie dans l’ouvre de Flaubert”, o filósofo francês Jules de Gaultier cunhara o termo bovarismo. Assim, Madame Bovary ganhou ressonância não apenas nas artes, mas em outros campos da sociedade, sendo a psicologia um deles. Para esta área, o bovarismo é a forma como a pessoa enxerga a realidade a sua volta, deturpada, encontrando para si, grandiosas e admiráveis qualidades, geralmente distantes do que ela é na “realidade”. De maneira mais ampla, o bovarismo faz referência ao estado de insatisfação crônica do ser humano, numa espécie de contraste entre o que se é e o que realmente pode ser.

Complexo, não? Tal como o romance, os personagens e a realidade que nos mostra que as mulheres ainda precisam driblar grandiosos desafios para encontrar satisfação em um mundo demarcado por estratégias patriarcais seculares.

Madame Bovary (França, 1856)
Autor: Gustave Flaubert.
Editora no Brasil: Martin Claret
Tradução: Herculano Villas-Boas
Páginas: 405.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.