Crítica | Madame Satã (2002)

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Glória do Goitá é um município da Zona da Mata de Pernambuco, local onde nasceu João Francisco dos Santos, em 25 de fevereiro de 1900. Em sua vida adulta, já residente na Lapa, Rio de Janeiro, ele seria conhecido como Madame Satã, a icônica drag queen brasileira cuja vida serviu de base para o filme A Rainha Diaba (dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, em 1974) e que se tornou o objeto de estudo para o primeiro longa-metragem de Karim Aïnouz, que a despeito das polêmicas em muitas sessões onde foi exibido (com direito a jornalistas, críticos e outros espectadores deixando a sessão durante as cenas de sexo ou outros “pontos incômodos” da fita), abocanhou dezenas de prêmios em Festivais e Mostras ao redor do mundo.

Escrito a oito mãos, o roteiro de Madame Satã (2002) faz um recorte com as devidas modificações, para melhor adequação dramática, da vida deste personagem histórico, interpretado de maneira brilhante por Lázaro Ramos. Aïnouz e seus parceiros de roteiro resistem à tentação comum das cinebiografias, que é a “necessidade” de expor o personagem principal a partir de uma linha cronológica de acontecimentos, normalmente da tenra idade até a morte ou até um momento icônico de sua carreira ou façanhas. Claro que isso não necessariamente é algo ruim, se for um clichê narrativo bem realizado, mas é sempre muito bom quando encontramos algo que segue por uma trilha oposta, a esse respeito. Não temos em Madame Satã a infância do protagonista, nem sua adolescência ou juventude. A obra começa com a leitura de um relatório policial, na prisão da Madame. Após um corte indicativo para mudança de tempo e espaço, estacionamos em uma linha de eventos anteriores à leitura do relatório, um Universo de prostitutas, bêbados, artistas, boêmios, suburbanos, gays e enrustidos, capoeira como método de defesa e uma verdadeira sensação de comunidade, capitaneada pelo personagem principal, um indivíduo de difícil trato, mas que sempre queria o bem e defendia a todo custo aqueles com quem se importava.

Historicamente falando, a obra tem um imenso valor de ambientação urbana e social, através dos excelentes figurinos e também da maquiagem. O filme merece igualmente todos os louros pela direção de arte e desenho de produção num campo mais amplo, especialmente quando consideramos a oposição de classes nos indivíduos (vista por sua linguagem e guarda-roupa) ou na arquitetura da cidade, vista através das ótimas locações. Sob a fotografia de Walter Carvalho, este cenário do Rio de Janeiro (então capital do Brasil) na década de 1930, é uma verdadeira mistura de cores, amores e dores, caminho visual que ajuda a explicar uma porção de vícios e preconceitos étnicos, de sexualidade, religião ou classe social que já então atormentavam a sociedade.

A direção de Aïnouz também muda constantemente de exposição, dependendo do tipo de cena que vai mostrar. Notem os primeiríssimos planos e movimentos dançantes da câmera toda vez que temos uma apresentação artística, seja no início, com a personagem da ótima Renata Sorrah, seja no desenvolvimento da fita, quando temos os primeiros shows de drag do protagonista, ponto de partida para a tragédia que justifica a cena de abertura, na tal leitura do relatório policial. A consequência deste ponto trágico, com a saída da Madame Satã da prisão, vem no explosivo final, em uma excelente exibição de filmagens da verdadeira Madame, num baile de Carnaval, com a fantasia que lhe firmaria o seu nome de guerra, vestimenta inspirada no filme Madame Satã (Madam Satan, 1930), de Cecil B. DeMille.

A montagem entre alguns blocos funciona com base no choque de imagens ou de contradição temática, algo que segue bem nas primeiras ocorrências, mas depois perde um tantinho o peso, inclusive deixando espaços na trama que não deveriam existir. Esse tropeço na organicidade tem bem pouco a ver com o roteiro ou com a direção, porque as cenas, isoladamente, funcionam bem, assim como a noção de progressão que entendemos delas, de modo que fica nas mãos da montagem esses obstáculos de andamento. Mas a vida do biografado é mostrada de maneira tão interessante e o elenco está tão bem em cena, que o espectador dificilmente se sente afastado da história. Em adição, a trilha sonora com canções que marcaram a cena brasileira são cantadas ou representadas em momentos importantes, criando um outro laço com o público através da memória musical. E a partir daí, somos mais um nesta horda em torno da Madame, sensação de pertencimento que faz toda diferença no intenso e incrível recorte na vida do “Filho de Iansã e Ogum, devoto de Josephine Baker“.

Madame Satã (Brasil – 2002)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, Sérgio Machado, Mauricio Zacharias
Elenco: Lázaro Ramos, Marcelia Cartaxo, Flavio Bauraqui, Fellipe Marques, Renata Sorrah, Emiliano Queiroz, Giovana Barbosa, Ricardo Blat, Guilherme Piva.
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.