Crítica | Madame Satã

estrelas 4,5

Lapa, 1932. Nas ruas escuras, sujas e mal-cuidadas vive João Francisco dos Santos (Lázaro Ramos), um homem cujo sonho é se tornar um artista de palco. Vive às sombras, nos bastidores, do espetáculo 1001 Noites e ali, por trás das cortinas, repete silenciosamente cada uma das palavras que a atriz profere. Karim Aïnouz, em seu primeiro longa metragem, nos transporta para a turbulenta vida desse sujeito que posteriormente viria a ser chamado de Madame Satã.

Desde os momentos iniciais do filme já nos fica claro a loucura do personagem principal. Sua personalidade explosiva é ainda mais ressaltada pelos ótimos diálogos que conferem à João Francisco um ar de teatralidade. Tal fator definitivamente seria um grande problema dentro do longa, não fosse à quase hipnótica atuação de Lázaro Ramos, que rouba a atenção em todos os segundos da projeção. Embora, em diversos momentos, sintamos um estranhamento à ele, não conseguimos deixar de nos convencer seja pela suas expressões, seja pelo seu controle do tom de voz.

João, porém, ganha grande parte de sua força através da interação com sua família desconjuntada – Laurita (Marcelia Cartaxo), sua filha ainda bebê e Tabu (Flávio Bauraqui). São nesses momentos que enxergamos o fluxo emocional dentro do personagem principal, seus contrastes: por um lado é um malandro, bacano (como ele próprio diz) e, por outro, um homem que genuinamente se importa com a família (mesmo que esta seja de consideração), como fica claro no cuidado que tem com a pequena bebê. Por mais que  sua personalidade instável chegue a assustar, é impossível não sentir uma aproximação com João e entender seu lado. Dessa forma, Karim, constrói a jornada de seu personagem nos fazendo torcer pela sua merecida chegada ao palco – aos poucos ele mostra que João, de fato é talentoso e o roteiro trabalha em cima disso para chegar de maneira efetiva ao seu clímax.

Essa dicotomia de João acaba levando a um certo tom de caótico no filme que é ainda intensificada pelos closes, tomadas escuras e montagem repleta de jump-cuts. Aïnouz consegue nos passar um grande desconforto na sua retratação da Lapa de 1930 e sua evidente boêmia. As poucas cenas fora do bairro são mostradas de forma quase onírica, com uma luz forte e montagem mais dinâmica. No fim sentimos o mesmo sufocamento que o personagem principal, que tem algo dentro de si que o impede de ficar calmo.

Não seria possível falar desse longa, porém, sem ao menos citar sua coragem. Em 2013 louvamos Azul é a Cor Mais Quente pela forma que retrata a homossexualidade feminina, trazendo uma verdadeira paixão entre duas meninas e, uma polêmica cena de sexo lésbico. Onze anos antes, em 2002, Karim nos mostra um filme não focado na paixão (somente à arte), mas cenas tão marcantes quanto – o ponto, ainda, mais interessante é a época em que se passa, anos 30, onde o preconceito era ainda mais forte, como podemos ver na parte final da projeção.

Madame Satã é uma prova do poder de direção e escrita de Karim Aïnouz. Através de seu drama biográfico, o diretor nos traz personagens inesquecíveis (em atuações memoráveis) e diferentes sensações ao espectador que vão desde o riso até o desconforto. Ele nos faz sentir de volta à Lapa de 1930 e aos poucos nos faz torcer por João Francisco e seus diversos contos das 1001 Noites.

Madame Satã (idem, Brasil – 2002)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, Sérgio Machado, Mauricio Zacharias
Elenco: Lázaro Ramos, Marcelia Cartaxo, Flavio Bauraqui, Fellipe Marques, Renata Sorrah, Emiliano Queiroz, Giovana Barbosa, Ricardo Blat, Guilherme Piva.
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.