Crítica | “Made in Heaven” – Queen

estrelas 4

Os dois últimos álbuns do Queen possuem uma beleza e um sentimentalismo que raramente não emocionam a quem os ouve. Se pararmos para pensar, no caso de Innuendo, havia a espera da partida de Mercury, já em avançada luta contra a AIDS. Aqui em Made in Heaven, o cantor já havia partido, fato que faz do disco uma trilha sonora nostálgica, um lançamento com todos aqueles ingredientes de “legado de uma vida” que normalmente marcam os discos póstumos.

Após encerrar as gravações dos clipes de I’m Going Slightly Mad e These Are The Days Of Our Lives, Mercury procurou manter-se o máximo possível próximo de seus companheiros de banda, tentando, à medida que conseguia ficar de pé e terminar uma sessão de gravação, entregar algum material novo para que eles o editassem depois, acrescentando música, backing, etc. Em cerca de três meses ele conseguiu gravar A Winter’s Tale, You Don’t Fool MeMother Love, o último registro de um vocal seu. Após a morte do cantor, em novembro de 1991, e o super evento The Freddie Mercury Tribute Concert for Aids Awareness em 20 de abril de 1992, os três integrantes remanescentes do Queen tinham uma dívida de honra para com Mercury: terminar o projeto de disco que ele havia iniciado.

Sem querer fazer algo novo apenas com três pessoas, May, Taylor e Deacon trabalharam com afinco nas três já citadas gravações de Freddie realizadas em 1991 e discutiram que outras faixas gravadas antes desse período poderiam figurar no disco. As escolhas que fizeram tornaram este 15º e último álbum um produto conceitualmente diferente para o Queen, pela ausência de ineditismo das canções. Este é o único verdadeiro impasse de Made in Heaven: a inclusão de material previamente lançado. Mesmo que o resultado final seja excelente e todos os arranjos feitos sejam maravilhosos, a sensação de “colcha de retalhos” é gritante e se torna até incômoda para quem conhece o material original.

Após dois anos de muito trabalho e esgotamento emocional, o trio deu o projeto por encerrado: Made in Heaven saiu em 6 de novembro de 1995, encerrando a discografia do Queen. Após o seu lançamento, o trio iria se reunir para tocar (e gravar) apenas mais uma vez, em outubro de 1997, quando deixaram registrada a homenagem final, íntima e muito bela para Freddie Mercury na forma da música No-One but You (Only the Good Die Young), que entrou como única inédita do álbum-compilação Queen Rocks, lançado em 3 de novembro de 1997.

De outras canções inéditas da banda, até o momento em que escrevo esta crítica (dezembro de 2015) apenas mais três foram lançadas depois de No-One but You, como vocês podem ver abaixo:

  • Feelings, Feelings (gravada em 10 de julho de 1977), que entrou para o EP News of the World (2011), com versões de músicas deste álbum gravadas ao vivo ou em sessões especiais para a BBC. Feelings, Feelings foi gravada para o original News of the World, mas não entrou para o álbum.
  • Let Me In Your Heart Again (gravada em 1983), que entrou para o álbum-compilação Queen Forever (2014).
  • Love Kills (gravada por Mercury em um projeto solo, em 1984), que entrou para o álbum-compilação Queen Forever (2014). Brian May e Roger Taylor pegaram um take não lançado dessa canção e fizeram um novo arranjo, transformando-a em uma balada meio Frankenstein do Queen.

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Por mais que a constituição de Made in Heaven não seja de completo material inédito e gravado especialmente para ele, é inegável que a qualidade e o trabalho de produção (assinada pelo Queen) são exemplares, além de criativos, como podemos ver no arranjo que John Deacon faz para It’s a Beautiful Day, uma experimentação gravada por Mercury em 1980, durante as sessões de The Game, em Munique.

Made in Heaven, a faixa-título do álbum, assim como I Was Born to Love You, são duas canções previamente lançadas por Mercury em seu álbum solo, Mr. Bad Guy (1985), e que ganharam ótimos arranjos do Queen, especialmente a primeira, com a substituição do sintetizador na versão original pela guitarra de May, além de outras camadas instrumentais que tornaram a faixa um rock melódico, uma marcante balada. No caso de I Was Born to Love You, que foi remixada e igualmente ajustada a várias camadas instrumentais (tornando-se um ótimo hard rock), May e Taylor experimentaram também a colocação de vocais de apoio, dando à faixa muitos elementos clássicos do Queen. Ela tem uma intervenção desnecessária ao final, mas nada que estrague sua produção.

Let Me Live foi gravada em 1983, para o álbum The Works, quase como uma parente de Somebody to Love na constituição gospel dos vocais em coro. Com uma harmonia simples em sem modulações, a faixa possui seus grandes momentos na organização vocal, tendo a produção percebido que a força da letra e a base instrumental fariam o serviço correto se fossem disponibilizados como “respostas” em uma conversa de “grandes momentos”, escolha que contrasta imensamente com a faixa seguinte, a melancólica e ao mesmo tempo celebradora Mother Love, último vocal gravado por Mercury entre 13 e 16 de maio de 1991. O processo de composição foi penoso (a faixa é de May e Mercury), assim como a gravação e posterior finalização pelos membros remanescentes. Exceto pelo bebê chorando ao final da faixa, que é uma perfeita marcação do ciclo da vida, a intervenção no meio, com trechos do show no Wembley Stadium, é desnecessária.

My Life Has Been Saved foi gravada em demo acústico em 1988, feito quase de emergência. A versão de Made in Heaven foi arranjada com destaque maior para os elementos típicos das canções compostas por John Deacon, ganhando formato instrumental bem diferente do inicial. Heaven for Everyone foi gravada em 1987, mas deixada de lado pelo Queen. Taylor pediu autorização para Mercury utilizar o tape de seu vocal e fez um novo arranjo com sua banda The Cross, inserindo a faixa no primeiro álbum do grupo, Shove It (1988). Para Made in Heaven foram adicionados outros vocais de apoio, outro arranjo e uma versão de tape não utilizada em Shove It.

Too Much Love Will Kill You foi gravada em 1988 para o álbum The Miracle, mas como se trata de uma faixa escrita por Brian May, Frank Musker e Elizabeth Lamers, era necessário acertar a parte legal com os agentes dos outros compositores, processo que acabou demorando demais, por isso a banda teve que deixar a faixa de lado. May a lançou em seu disco solo Back to the Light (1992), com ele mesmo nos vocais. Para Made in Heaven, o processo autoral com os outros compositores já havia sido acertado e a faixa foi colocada. Trata-se da única música de Made in Heaven que não teve arranjo ou modificações feitas pela banda. Trata-se exatamente da gravação realizada, acabada e que estava prontinha para figurar em The Miracle.

You Don’t Fool Me, gravada em 1991 como uma sessão de improvisação — perceba que a faixa é mais onomatopeias e o verso que dá título à canção –, é uma sombra de Hot Space, com característica de funk ou dance-rock. É uma faixa divertida e que quase não entrou para Made in Heaven porque… bem, porque não havia faixa. Juntar uma série de improvisos, fazer vocais adicionais para ela e criar música condizente com o exercício certamente foi um processo complicado, o que corrobora o que eu disse anteriormente sobre a extrema criatividade de May, Deacon e Taylor ao costurar todos os retalhos que formam este álbum.

Considerando que as faixas 11, 12 e 13 da obra são experimentais, um fechamento de um ciclo musical (apenas lamentamos um pouco que a Hidden Track ou Track 13 não tenha tido uma produção mais orgânica para melhor servir ao propósito de “música ambiente” pretendido pela banda), a última canção de Made in Heaven acaba sendo a belíssima A Winter’s Tale, composta por Mercury logo após as sessões de Innuendo, enquanto ele estava em um hospital de Genebra, na Suíça. A faixa acabou sendo o epitáfio do ábum, colocada antes do ciclo se repetir e então fechar-se por completo. O Queen encerrava aqui a sua jornada de 22 anos de estrada.

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Especial Queen: Palavras Finais e Agradecimentos 

O Especial Queen aconteceu por iniciativa do Ritter Fan, em uma proposta conversada entre os redatores do Plano Crítico no dia 24 de março de 2015. No dia 26, o nosso Ditador do Pagode (vulgo Handerson Ornelas) fez a primeira marcação sobre quem escreveria o quê. Ocorreu que eu monopolizei as críticas, escrevendo sobre todos os álbuns ao vivo e, exceto o álbum-trilha-sonora Flash Gordon, que ganhou crítica do então novo colunista Lucas Nascimento, escrevi sobre todos os álbuns de estúdio também. E foi um enorme prazer. Escrever sobre a discografia da minha banda favorita foi um intenso exercício de análise e até maior entendimento desse grupo de eu amo tanto já a tantos anos.

A primeira crítica do Especial foi ao ar no dia 7 de maio de 2015 e esta última, no dia 28 de dezembro. Durante esses 7 meses e pouco de Especial, eu tive a oportunidade de conhecer e conversar com um grande número de leitores que acompanharam as críticas, deram suas opiniões sobre os meus textos e sobre os álbuns; concordaram e discordaram de mim sempre com bastante educação e camaradagem. Ao longo de todo o período houve apenas um único leitor que parece não ter entendido o propósito dos textos e do Especial (gerar reflexões e discussões a partir de uma análise), mas foi um fato isolado, ainda bem. Por isso, quero agradecer a todos os que leram, comentaram, divulgaram… enfim, curtiram esses 7 meses de longas leituras sobre o Queen. Como não tenho interesse em estender as críticas para o projeto Queen +, este é o nosso fim da linha. Um grande abraço a todos e nos vemos em outros Especiais de música em 2016!

The show must go on!

God save the Queen!

Aumenta!: Too Much Love Will Kill You
Diminui!: —
Minhas canções favoritas do álbum: Too Much Love Will Kill You,  Made in Heaven e  Mother Love      

Made in Heaven
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 6 de novembro de 1995
Gravadora: Parlophone (UK) e Hollywood (EUA)
Estilo: Rock, Hard Rock, Rock Progressivo

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.