Crítica | “Madonna” – Madonna

Madonna. Numa de suas primeiras entrevistas, a artista respondeu uma pergunta sobre a escolha de seu nome artístico. As pessoas questionavam a ausência de um sobrenome. Sagaz e ambiciosa desde que partiu de Detroit rumo ao grande centro urbano dos Estados Unidos, isto é, Nova Iorque, tendo em vista estar “onde acontecem todas as coisas”, Madonna sonhava com o sucesso e trabalhou duro para conseguir conquistar seu devido espaço. Conforme a resposta ao entrevistador, o nome teve como proposta a solidificação de uma imagem forte, tipo “Cher”, reforçou a artista, talvez sem nenhuma noção do que seria seu nome para a história da música e das discussões na cultura da mídia e na sociedade do espetáculo nas últimas décadas.

Cantora que circulava pelos bares da cidade, Madonna sentiu que precisava dar o próximo passo para a sua carreira. Desde o início tratada como artista de apenas um hit, Madonna driblou os seus críticos mais acirrados e se manteve relevante até os dias atuais, numa comprovação de que as expectativas em torno de seu fracasso eram “grandes”, mas não tão forte quanto as esperanças de Madonna em conseguir ser uma artista feminina de sucesso numa era de supremacia masculina. Reportagens diziam “que Madonna estava com os seus dias contados”. Uma dela foi publicada pela revista Veja, numa de suas análises equivocadas.  Todas as previsões, ao contrário do que se esperava, foram para o ralo.

Sorte da cantora? Ela esteve sempre no lugar certo e nas horas mais oportunas. Pode até ser que a sorte e a persistência tenham sido fatores preponderantes, mas algumas as biografias sobre a artista, em especial, os relatos de bem fundamentos de Lucy O’brien (Madonna 60 Anos) e J. Randy Taraborrelli (Madonna: Uma Biografia Íntima) comprovam que diferente do que se estabeleceu com muitas artistas do pop contemporâneo, Madonna sempre foi uma grande pesquisadora, leitora e cinéfila, material que serviu de fermentação metalinguística para as suas produções que sempre relacionaram diferentes tipos de arte, em jogos de linguagem muito interessantes para uma cultura conhecida por trabalhar essencialmente com elementos prosaicos e banais.

Com o lançamento do primeiro álbum em 1983, a crítica especializada se dividiu, mas o saldo comercial foi bastante positivo. O material ainda não era tão bom quanto o que viria depois, mas já era o preâmbulo de algo que podia se tornar bastante interessante. Tal como o personagem de uma série ou filme, a artista evoluiu e amadureceu, tendo em vista a sua proposta esférica no bojo da cultura pop, diferente de muitos contemporâneos planos que eram sempre mais do mesmo. Madonna empolgou o público em sua fase pré-revolucionária, tendo tratando apenas da relação entre corpo e mente, dança e liberação de energia, pensamento positivo e diversão.

Em seus 40 minutos e 47 segundos (a edição padrão), o álbum inicialmente produzido por Reggie Lucas e finalizado por John Benitz (Jellybean) e Mark Kamins, tratou dos temas descritos anteriormente, numa versão clean da cantora que escandalizaria a sociedade na mesma década, com questionamentos de ordem política e sociológica. Com ganchos constantemente polidos e linguagem musical direcionada para as pistas de dança, o álbum Madonna fala de amor e relacionamentos por meio dos estilos pop rock, dance-pop e pós-disco.

Com masterização de áudio de Ted Jenson e vocais de apoio do trio formado por Tina B., Christine Faith e Gwen Guthrie, o álbum apostou na guitarra de Curtis Handson e nos instrumentos de Dean Gant: sintetizadores, piano e piano eletrônico. Everybody foi o primeiro single do álbum. Composta por Reggie Lucas, a faixa teve grande aceitação do público de uma boate quando o DJ Mark Kamins tocou a canção em meio ao set já programado para a noite. As pessoas reagiram muito bem e Madonna se sentiu confiante. Sua experiência na banda de hard-rock Breakfast Club lhe forneceu a autoconfiança para assumir a carreira-solo que tanto desejava, o próximo passo da sua jornada.

Chamado para a pista de dança, a música pede que o público se entregue e esqueça os problemas, algo parecido com Holiday, um de seus maiores sucessos, faixa presente em praticamente todas as suas turnês. É uma canção otimista, composta por Curtis Hudson e Lisa Stevens, acompanhada pelo solo de piano de Fred Sarr, arranjo de cordas sintetizadas, guitarras e palmas eletrônicas. Holiday trata da necessidade dos seres humanos de abandonar o cotidiano “reto” e se entregar aos momentos de diversão.

Borderline é a canção “carinhosa” do conjunto. Assinada por Reggie Lucas, a faixa fala sobre amor não correspondido, guiada por um teclado inspirado, bem como o baixo e a manipulação da melodia synth. O videoclipe fez bastante sucesso e foi veiculado na MTV. As imagens do material trouxeram Madonna em suas primeiras abordagens sobre multiculturalismo, numa sociedade que estava pouco interessada em dar destaque positivo ao caldeirão cultural que efervescia nos grandes centros urbanos dos Estados Unidos.

Lucky Star, outra composição de Lucas, desta vez, em parceria com Madonna, é uma canção que relaciona o par do “eu-lírico” que entoa a um corpo celeste. Guiada pelos ganchos “starlight, starbright”, a faixa ressoa o estilo dance-pop e traz fortes batidas de bateria eletrônica e palmas, algo semelhante ao som contagiante de Burning Up, também composta por Reggie Lucas, canção sobre uma mulher confiante, desinibida e contagiada pelo seu amante. Madonna canta acompanhada por uma boa bateria eletrônica e um baixo bastante compromissado com a marcação do ritmo.

Sem grandes controvérsias, Madonna é um álbum dançante que radiografa as mudanças no cenário da música pop e da cultura dos anos 1980, com estilo contemporâneo e urbano bem a cara de Nova Iorque. Apontada como “Minnie Mouse com hélio”, haja vista a sua voz ainda pouco trabalhada no começo da carreira, Madonna, como já apontado, superou as expectativas baixas de muitos críticos e agradeceu, num discurso relativamente recente, aos membros da comunidade que a desafiaram durante o estabelecimento de sua carreira. O material ajudou na promoção da música dance na década de 1980 e foi divulgado juntamente com Like a Virgin na turnê The Virgin Tour, de 1985. Complementado pelas faixas Think of Me, I Know It e Physical Attraction, Madonna foi apenas uma entrada para o banquete que seria ofertado posteriormente.

Aumenta: Holiday.
Diminui:  I Know It.

Madonna
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 27 de julho de 1983.
Gravadora: Warner Bros, Sire.
Estilo: Pós-disco, dance pop e pop rock.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.