Crítica | Madre Joana dos Anjos

Em Nietzsche: a Genealogia e a História, dentre tantas reflexões, Foucault reforça que em exercícios históricos interpretativos nem sempre é possível destacar o marco zero de determinados conceitos e situações, mas nós cinéfilos adoramos.  Na seara dos filmes de exorcismo, por exemplo, apontamos sempre o assustador O Exorcista como um ponto de partida e referência, mas na década anterior, o polonês Jerzy Kawaberowicz dirigiu o roteiro que ajudou a construir, juntamente com Tadeus Konwicki, sobre o famoso caso de freiras possuídas por manifestações macabras num convento francês.

Esse é considerado o primeiro filme sobre possessão demoníaca, o marco zero, digamos assim.  A trama é tão instigante que em 1971, Ken Russel dirigiu outra versão, com o título de Os Demônios, obra considerada nefasta e proibida em diversas nações, inclusive o Brasil que na época, vivia a ditadura militar. Com cuidadosa direção de fotografia em preto e branco, somos apresentados ao padre Jozef Suryn (Leonardo), um representante religioso que chega numa cidade para auxiliar a expulsão de uma legião de demônios presentes num convento, em 1634, na França, caso conhecido como “As Possessões de Loudun”.

Baseado numa história homônima escrita por Jaroslaw Iwaszkiewicz, conto integrante da coletânea Novo Amor e Outras Histórias, material publicado em 1946.  Ambas as versões, filme e texto literário, mergulham numa atmosfera metafísica para debater a “condição humana”. A madre do título, interpretada por Lucyna Winnicka, atriz que demonstra a sua possessão sem o uso de maquiagem e efeitos especiais, é uma das integrantes do grupo de freiras ursulinas que blasfemam contra Deus e contra a fé católica.

Diferente dos efeitos e do grafismo de algumas cenas aterrorizantes do filme de Friedkin, os “demônios” de Madre Joana dos Anjos são tratados como fontes de energia capazes de induzir os seres humanos aos comportamentos mais perversos e ultrajantes, algo que no subtexto, discute sentimentos como a angústia e a opressão, bem como a maldade que paira na humanidade, representada das atrocidades registradas ao longo da história da civilização.

Por meio da oposição entre Deus e o Diabo, o filme reflete o aprisionamento dos demônios no corpo das freiras como uma metáfora para a mesma opressão que elas sofrem enquanto guardiãs de sentimentos inerentes aos seres humanos. Desejo sexual é um deles, sublimado por meio de orações constantes e autopunido quando manifestado até mesmo no pensamento. O corpo, utilizado como veículo para demonstração da fé, é banido de qualquer sensação que não seja o gozo espiritual.

Para dar força ao funcionamento da metáfora, o roteiro nos revela que elas estão possuídas por oito demônios, dentre eles, Behemoth, Balaam, Isaacron, Gresil, Aman, Asmodeus, Leviathan e Cauda do Cão. Já imaginou o horror? Com eficiente condução musical de Adam Walacinski, o filme reflete o horror por meio dos diálogos e do comportamento dos personagens, sem uso específico do som para causar impactos e promover sustos. Outro bom ponto de partida para análise é o desempenho do elenco coadjuvante, bem como os membros da equipe figurantes, criaturas captadas pela câmera com seus olhares que nos transmite um misto de medo e curiosidade. Neste caso, ao padre Leonardo, dono do ponto de vista/subjetivo do quadro, compartilhado conosco.

Próximo ao fim, conseguimos compreender, dentre o complexo e vasto subtexto de Madre de Joana dos Anjos, o debate sobre a Inquisição, sobre o domínio da religião na vida alheia, bem como os males da alienação numa sociedade que desde sempre tenta ocultar o conhecimento como uma possível saída do âmbito da ignorância. Outra coisa é o questionamento filosófico sobre questões do nosso cotidiano que muitas vezes sequer sabemos explicar adequadamente, pois só sabemos que está lá, pronto e fixado como uma regra a ser seguida. Uma delas é a mentira. Mentir é pecado? Desde quando? O que é certo e errado? Quem determinou? Enfim, questões que nos acompanham desde que nos entendemos como “gente”.

Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna Od Aniolow, França – 1961)
Direção: Jerzy Kawalerowicz
Roteiro: Jerzy Kawalerowicz, Tadeus Konwicki
Elenco: Franciszek Pieczka, Lucyna Winnicka, Maria Chwalibog, Mieczyslaw Voit, Zygmunt Zintel
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.