Crítica | Madrugada dos Mortos

MADRUGADA DOS MORTOS

estrelas 5,0

Madrugada dos Mortos é a prova concreta do poder de uma boa refilmagem. Sabemos que no geral as releituras de clássicos do cinema ficam devendo muito, seja em termos estéticos, bem como na adaptação cultural tendo como ponto de partida uma obra que já habita, de certa forma, o imaginário coletivo cinematográfico. Com direção segura de Zack Snyder e roteiro de James Gunn, o filme retrata um grupo de sobreviventes cerceados por uma horda de zumbis em um shopping center.

“Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos retornarão a terra”. Essa é a afirmação de um pastor em um programa de TV. De fato, os mortos retornaram, mais violentos e comportando-se como se fossem animais selvagens. Entre os sobreviventes temos a enfermeira Ana, interpretada pela excepcional Sarah Polley, o policial Kenneth (Vigh Rames), o vendedor Michael (Jake Weber), dentre outros personagens. Ao chegar ao local, precisam lidar com a truculência de alguns seguranças que dominam o espaço como uma fortaleza, utilizada como fuga para a sede dos zumbis “velozes e furiosos”.

A crítica social ao consumismo, presente em Despertar dos Mortos, é esboçada na refilmagem, porém o foco é na ação. Ao seguir a estética MTV com elementos do campo da publicidade e dos games, oriundos da formação profissional do diretor, o filme já apresenta agilidade logo na abertura, montada com rapidez, concisão e objetividade. Esse apego ao veloz, no entanto, não estraga o desenvolvimento dos personagens, pois ao passo que o filme abandona o sentimentalismo barato, eleva o nível da catarse.

A enfermeira expressa desolamento e cria uma relação afetuosa com um vendedor frustrado, vindo de problemas no casamento. Uma garota precisa tentar sobreviver, mesmo vendo o extermínio do pai, ferido por um dos zumbis. A relação estabelecida entre os personagens e a forma como os fatos vão se desenvolvendo, há um sentimento de coesão entre eles, apesar de em alguns momentos, o egoísmo e as relações de poder tomarem espaço e quase prejudicar o projeto de sobrevivência estabelecido do meio para o final.

Assim como em A Noite dos Mortos Vivos, os zumbis estão unificados em multidões. A multidão, como sabemos, quer crescer e agregar mais aliados. Para Madrugada dos Mortos, as criaturas foram desenhadas em três fases. Na primeira, são vítimas de outros zumbis, pessoas prestes a se tornarem mais um na tal multidão. Na segunda fase, perderam a cor, os ferimentos secaram e escureceram, o que desagua na terceira fase, quando eles já cheiram mal, possuem pedaços caindo, em suma, criaturas apodrecendo.

O trabalho da maquiagem é excelente e ganha mais força com a boa direção, o roteiro de James Gunn, conectado adequadamente para o contemporâneo, além da edição de Niven Howie, pois há dedicação aos pressupostos da ação, mas não o apego à “estética da tesourinha”, com cenas de um segundo onde mal compreendemos o que se passa no espaço fílmico: em Madrugada dos Mortos, tudo fica muito visível, a violência gráfica chega a incomodar os mais fracos. Nesse encalço também devemos dar o valor ao trabalho de som de Tyler Bates, profissional que apostou em um projeto de áudio eficaz.

A canção When the Man Comes Around, de Johhny Cash, foi uma escolha ideal para a trilha Sonora do filme. Com tom apocalíptico, há trechos emblemáticos que dizem “ouço as trombetas, ouço as flautas/ cem milhões de anhos cantando/ multidões marchando…”, em suma, nada mais associado ao contexto do roteiro que possui um dos finais mais desoladores no bojo dos filmes que seguem este estilo.

Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, Estados Unidos – 2003)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: James Gunn.
Elenco: Sarah Polley, Vingh Rames, Jake Weber, Mekhi Phifer, Ty Burrel, Michael Kelly, Kevin Zegers, Michael Barry.
Duração: 110 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.