Crítica | Magia ao Luar

estrelas 3,5

Magia ao Luar certamente não é acompanhado de boas expectativas. Com um design de pôster de se chorar e uma quase que total ausência de uma campanha de marketing, o mais novo filme de Woody Allen praticamente passa despercebido pelas grandes audiências. A situação ainda piora se nos deixarmos levar pela crença de que o diretor tem intercalado uma obra ótima e outra mais fraca, como tem sido o caso nos últimos anos, e após o ótimo Blue Jasmine, nosso medo é sedimentado.

Cartelas em fundo preto, créditos iniciais à moda antiga, dos primórdios do cinema clássico, abrem o longa-metragem, dialogando imediatamente com o pôster que, sem eficácia, tentou passar tal sensação de outrora. Passamos a ver, então, um show de mágica já com nosso protagonista, Stanley Crawford (Colin Firth), que realiza os velhos truques de serrar pessoas ao meio e de desaparecimento. Stanley, porém, conta com uma outra fama além de seus dotes artísticos: desmascarar charlatões, picaretas que visam lucrar em cima do excesso de crença dos outros. É neste ponto que seu amigo, Burkan (Simon McBurney), também do mesmo ramo, se aproxima do inglês pedindo para desacreditar a jovem Sophie (Emma Stone), a quem ele próprio falhou em perceber as ilusões, chegando a considerar que ela é, de fato, verdadeira.

Nosso temor inicial, então, é desconstruído em poucos minutos por Colin Firth, que rapidamente fisga a atenção de cada espectador. Com o roteiro ácido de Allen, Firth nos traz uma figura que encarna o sarcasmo por completo, nos tirando risadas a cada olhar de descrença. A situação melhora em suas cenas conjuntas com Emma Stone, que traz consigo uma teatralidade evidente ao demonstrar seus “dons”. Impossível não se deixar entreter por essa combinação, que acaba gerando uma narrativa bastante leve e que não se preza a ser algo maior, tampouco deve fazê-lo. Dessa forma, o longa progride com diversas tentativas de Stanley, sempre cético, buscando acabar com a prematura carreira da jovem.

A trama, apesar de seguir um bom ritmo narrativo, seguindo pelo previsível, mas sem deixar de entreter, está longe de ser o ponto principal do longa. De fato, o foco pretendido por Woody está na relação entre o mágico e Sophie, que não cai na velha história de romance e consegue tirar algumas risadas através de algumas doses do inesperado. O diretor/roteirista aposta inteiramente em detalhes imprevisíveis na retratação de seus personagens, trazendo consigo algumas mudanças de perspectiva que, ora funcionam, ora soam forçadas, ainda que disfarçadas pelo ótimo trabalho de Colin. Com essas surpresas ao longo da história, o roteiro ainda consegue nos trazer um twist, que, embora não seja totalmente imprevisível, funciona dentro da proposta do longa.

A história, porém, é prejudicada pela convencionalidade do trabalho fotográfico de Darius Khonji, aliado da montagem nada criativa de Alisa Lepselter. É evidente que o objetivo era emular uma obra do cinema clássico americano, sem muitos floreios, como os próprios créditos iniciais e o tom da fotografia, utilizando tonalidades mais amareladas, sugerem. Tal escolha, porém, se prejudica por não vir conjunta de um roteiro mais inovador, ao ponto que somente o protagonista não consegue levar por si só todos os aspectos da projeção. Ao menos, para criar uma efetiva sensação de estarmos, de fato, nos anos 30, contamos com uma trilha fiel à época. Juntamente do ótimo trabalho de figurino, somos rapidamente transportados no tempo, contribuindo para a imersão proporcionada pelo tom mais leve da narrativa.

Magia ao Luar, portanto, se caracteriza como a típica diversão do final de semana. Não é uma obra de arte, mas consegue divertir a qualquer um. O filme é Colin Firth, Woody sabe disso e aposta nisso, mas, infelizmente, acaba deixando de lado alguns fatores que contribuiriam para uma melhoria em seu produto final. Definitivamente vale ser assistido, mas acaba corroborando, em parte, nossos temores iniciais – após Blue Jasmine, algo não tão memorável assim.

Magia ao Luar (Magic in The Moonlight – EUA, 2014)
Direção:
Woody Allen
Roteiro:
Woody Allen
Elenco:
Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Catherine McCormack, Eileen Atkins, Erica Leerhsen, Jeremy Shamos, Hamish Linklater
Duração: 97 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.