Crítica | Magic Mike XXL

estrelas 2,5

__ Não é gostoso? Não é gostoso?

Jovem sentada ao meu lado no cinema, que ficava me cutucando e me fazendo constantemente essa pergunta.

Carinhas de cães pidões, tanquinhos acima do nível 3, coreografias, pegação, bíceps, nádegas, coxas… este é o pacote principal que forma tudo o que deve realmente importar em Magic Mike XXL, um filme definitivamente voltado para o público feminino. E não, eu não quero dizer “também para o público masculino que eventualmente gostaria do filme”. Não. Eu realmente quis dizer “para o público feminino”. Assista e você entenderá o que eu quero dizer.

Depois da parcial surpresa dos produtores frente ao sucesso do primeiro longa, era questão de tempo até a Warner dar carta branca para uma sequência, que acontece aqui sem Steven Soderbergh na direção (que preferiu ficar na produção executiva e acumular os cargos de diretor de fotografia e editor, ambos sob pseudônimos), e sem os atores Alex Pettyfer e Matthew McConaughey no elenco; o primeiro, por desentendimentos com Channing Tatum em Magic Mike (2012) e o segundo, pelo aumento considerável do cachê após receber o Oscar de Melhor Ator por Clube de Compras Dallas (2013).

A trama, como eu brinquei no primeiro parágrafo, é mais volúpia do que trama mesmo, apesar do roteirista Reid Carolin querer nos fazer acreditar que alguns dos strippers possuem genuínas aspirações empresariais e pensam com afinco sobre como serão “os negócios” e a “complexa vida” após este “último show” que se propõem fazer na Convenção de Strippers (!), proposta que leva o grupo, ao qual se junta o aposentado Mike (Channing Tatum), a empreender uma viagem de Tampa, Flórida até Myrtle Beach, Carolina do Sul.

A história do filme se desenvolve com muito humor ao longo da viagem, resolvendo-se bem ou mal em pequenas paradas pelo caminho onde se alternam a comédia física — como o desafio para Big Dick fazer a garota da loja de conveniência rir, sequência simplesmente hilária, além de bem filmada e bem atuada –; pseudo conteúdo sobre relações humanas, cena lembrada apenas pelo surgimento da alma Drag Queen de Channing Tatum, a mágica e gloriosa Clitória Lábia; e as paradas no castelo de Rome e na mansão de Andie MacDowell, cada uma com mais falhas do que acertos em termos narrativos, mas ambas com momentos absurdamente divertidos e excelente composição fotográfica.

E esta é a verdadeira questão aqui. O roteiro de MM-XXL é péssimo e todos os sentidos que você possa imaginar. As atuações são ruins em sua maioria (Channing Tatum é um excelente dançarino mas um ator tenebroso) e a edição de Soderbergh às vezes desafia todas as regras de continuação que se possa imaginar. Mas se olharmos para a tríade formada por direção de fotografia, trilha sonora e coreografias, temos um filme que vale a pena assistir. E nesse ponto é possível esquecer o público-alvo da fita e curtir a obra pelo que ela é.

É espantoso que o diretor Gregory Jacobs tenha conseguido um resultado final aceitável com uma linha de direção tão… bipolar. E eu não tenho outra palavra para designar o trabalho do cineasta aqui. Primeiro, a troca desmedida de câmeras para algumas cenas, onde vemos divergências imagéticas gritantes. Eventos como a chegada do grupo a Myrtle Beach e o grand finale possuem uma ótima qualidade de imagem, boas angulações e trabalho de direção interessante. Assista com atenção ao final da cena do “casamento”, no número protagonizado pro Big Dick, emulando 50 Tons de Cinza. Ou lembre-se da sequência do espelho, que apesar de levemente repetitiva é INTENSA e muito bem executada. Agora compare a direção dessas cenas com todo o início do filme — única exceção feita à dança solitária de Channing Tatum –, as cenas dentro da van, no hospital, no bar gay, no acampamento na praia… são contrastes bem incômodos que dão a impressão de que o filme foi dirigido por pessoas diferentes.

Não bastasse isso, temos o pior erro de Gregory Jacobs: o uso nonsense do zoom e do close. Eu perdi a conta de quantas vezes o diretor executou um zoom no rosto de alguém da plateia ou do castelo de Rome e esperei que aquilo fosse a indicação e que algum personagem seria bem desenvolvido mas… qual o quê! Era apenas um destaque para um figurante em provável ascensão. Não dá para aceitar esse tipo primário e canhestro de erro. E pior ainda: que isso tenha passado aos olhos de Steven Soderbergh na edição. Triste fim.

Mesmo sem roteiro (ou com um péssimo roteiro, escolha a sua nomenclatura), atuações ruins em contraste com excelentes coreografias e erros inaceitáveis de direção e montagem, Magic Mike XXL consegue se salvar parcialmente. E a explicação para isso é bem simples: ele cumpre muito bem aquilo que promete. Claro que isso não perdoa as muitas falhas técnicas da película, mas as minimiza. E ainda vale dizer que o filme não é completamente desprezível do ponto de vista técnico, como já dissemos. No final das contas, trata-se de uma comédia musical sexy — que fala mal de Crepúsculo e tem referências a Matrix e Star Wars — direcionada para o público feminino mas que acaba divertindo a quase todo mundo. Um baita entretenimento.

Magic Mike XXL (EUA, 2015)
Direção: Gregory Jacobs
Roteiro: Reid Carolin
Elenco: Channing Tatum, Juan Piedrahita, Sharon Blackwood, Alison Faulk, Josh Diogo, Joe Manganiello, Kevin Nash, Gabriel Iglesias, Matt Bomer, Adam Rodriguez, Vicky Vox, Carrie Anne Hunt
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.