Crítica | Magnífica 70 – 1ª Temporada

estrelas 3,5

A mais recente produção brasileira encabeçada pela HBO Latin America é uma série de TV co-produzida com a Conspiração Filmes sobre a produção cinematográfica brasileira na famosa Boca do Lixo, durante a Ditadura Militar. O resultado é fascinante sob o ponto de vista histórico, mas irregular no que diz respeito a questões técnicas.

Mas para que começar salientando o que a série tem de negativo, não é mesmo? Afinal, em linhas gerais, os 13 episódios dessa primeira temporada (uma segunda já foi autorizada), divididos pelas fases da produção de uma pornochanchada, são instrutivos, envolventes e contam com atuações certeiras de Marcos Winter, Simone Spoladore e Adriano Garib, para citar apenas os três principais.

Estamos em 1973 e Vicente, o personagem de Winter, é um entediado censor da Polícia Federal que acabara de vetar um filme. Inconformados com a decisão, o produtor Manolo (Garib) e a atriz principal – e sua esposa – Dora Dumar (Spoladore) vão ao órgão censor tentar revertê-la, sem sucesso. Compadecido com a situação que pode levar a Magnífica (produtora do filme) à falência e vendo em Dora alguém de seu passado escuso, Vicente parte para ajudá-los, posando como alguém que tem contatos na Censura. Nessa capacidade, ele escreve uma cena para ser solapada ao final do filme vetado e consegue reverter o veto, tomando gosto, no processo, pela mágica do Cinema.

Esse é apenas o estopim da narrativa e o evento catalisador para os acontecimentos seguintes que, apesar de ficarem presos à produção do novo filme da Magnífica, Minha Cunhada é de Morte, escrito e dirigido por Vicente, servem apenas de desculpa para os roteiros de Cláudio Torres (também diretor geral) navegarem pela ditadura militar e pelos efeitos nefastos da censura, em óbvias, mas bem construídas críticas ferrenhas ao sistema então vigente no Brasil.

Há um misto de comicidade com seriedade na série, de maneira que um assunto tão pesado como os chamados Anos de Chumbo ganhem camadas por vezes alegóricas, que tornam a narrativa palatável, mas sem perder a argúcia. E a comicidade não é rasgada, ela é apenas inserida inteligentemente dentro do roteiro, por vezes até como história pregressa de alguns personagens (não dá para não se divertir – e se angustiar – com o passado de Manolo no Paraguai, como caminhoneiro) ou com os próprios personagens em si, especialmente George Larsen, o dono da Magnífica vivido por Stepan Nercessian e o General Souto, vivido por Paulo César Pereio.

Esses dois, apesar de serem personagens eminentemente sérios, são caricaturas e, como tais, exagerados ao limite. Larsen é o estereótipo do produtor que não sabe nada de cinema e só quer saber do que ele gosta (basicamente peitos, bundas e “beijos lésbicos”). Suas interferências na produção de Minha Cunhada é de Morte, título, aliás, criado por ele em momento hilário, irritam e divertem ao mesmo tempo e funcionam como uma espécie de resumo conciso do que é sofrer interferências alheias – pelo “dono do dinheiro” – na arte de fazer Cinema. Isso é verdade aqui como em qualquer outro lugar e o roteiro e a atuação quase nojenta de Nercessian deixam isso bem claro.

Do lado militar, temos Paulo César Pereio como a caricatura viva de um general de extrema direita. Seu papel é muito mais sério e pesado que o de Nercessian, mas o exagero extremo chega a ser estranhamente cômico. Seus preconceitos, sua paranoia, sua forma de falar rangendo os dentes, sua pose militarística constante e seu figurino – quase sempre fardado e com óculos de armação preta grossa – retiram qualquer dualidade que possa existir no personagem. Nós sabemos exatamente quem ele é desde o primeiro momento em tela e os espectadores mais experientes deduzirão facilmente o mistério envolvendo Ângela (Bella Camero), sua filha falecida e irmã de Isabel (Maria Luísa Mendonça), esposa infeliz de Vicente.

Descrever mais detalhes é estragar as reviravoltas da trama, mas basta dizer que a narrativa de Magnífica 70 é redonda e lógica, com um encerramento claro desse arco narrativo. Naturalmente, a produção deixa algumas pontas soltas para justificar uma nova temporada, mas isso é um dos alicerces de toda a série de TV e não afeta o fechamento, ainda que esses ganchos sejam introduzidos de maneira corrida. O que fica, no final, é uma bela lição de como fazer – ou não fazer, talvez – Cinema e um pouquinho de história brasileira bem específica sobre a então já decadente Boca do Lixo (o auge dessa região em São Paulo se deu nos anos 20 e 30, com a instalação da Paramount e Metro por lá) e uma pesada e sempre bem-vinda crítica à intolerância e, lógico à ditadura militar.

Mas, como disse acima, a série não é perfeita e sofre de mão pesada na direção de fotografia, montagem e no uso de trilha sonora. Pode parecer até algo menor diante dos elogios que fiz acima, mas, infelizmente, não é.

A fotografia, em tons pastéis e granulada no presente, combina com a época e o local retratado e emula a qualidade trash das pornochanchadas. Além disso, ela se beneficia de um desenho de produção cuidadoso e que se mantém perfeitamente fiel aos anos 70, por intermédio do uso de cenários fechados e controlados e de imagens de arquivo da cidade de São Paulo (a produção é carioca!). Até aí, tudo bem. O problema mesmo está no uso constante e irritante do contraluz, algo que estilisticamente pode funcionar em momentos-chave, mas não como técnica empregada a cada dois ou três minutos ao longo dos episódios. É tanta contraluz sem função narrativa que o espectador fica fatigado e revira os olhos para um recurso que é diluído completamente assim como a presença de “peitos, bundas e beijos lésbicos” nos filmes de Larsen.

Além disso, a série faz uso do recurso de flashback para nos contar a vida pregressa dos personagens, pois praticamente todos têm mistérios a serem revelados aos poucos. Esses flashbacks, com fotografia esmaecida em preto e branco, funcionam até certo ponto, quando realmente têm algo a contar. A questão, porém, é que, quando as informações se esgotam, passamos a ter flashbacks para situações ocorridas há pouquíssimo tempo, dentro da própria narrativa que acabamos de assistir. E a montagem é abrupta e os insere literalmente a todo o momento, mesmo quando o evento aconteceu no mesmo episódio, poucos segundos atrás. A memória do espectador é tão dispersa assim? É menos necessário esse didatismo? Com isso, a técnica que, usada corretamente, consegue dar estofo e profundidade à história, acaba se transformando em mais uma escolha estilística para tratar o espectador como um desmemoriado e, no processo, os episódios acabam sendo esticados para além do que deveriam ser (cada episódio tem quase uma hora e poderia facilmente ter 42 a 45 minutos).

Finalmente, a trilha sonora – com exceção da música de abertura, a ótima “Sangue Latino” dos Secos & Molhados – é usada de maneira equivocada por toda a série. No lugar de ajudar a criar atmosferas, as músicas instrumentais inseridas ao longo da narrativa ditam (irônico, não?) o que o espectador deve pensar e sentir. Sabe quando aquele filme de terror B aumenta a trilha sonora quando o mostro vai pular do canto escuro? É mais ou menos o que acontece em Magnífica 70. As músicas perdem sua sutileza e tomam os fotogramas completamente, abafando até mesmo as atuações. Com isso, no lugar de usar inteligentemente o silêncio ou a música em crescendo em diversas sequências, o que temos é a música sendo sincronizada com volume máximo de maneira que o espectador não tenha escolha a não ser sentir aquilo que seu ritmo determina. Mais uma vez sentimos a mão pesada da direção geral.

Apesar dos pesares, Magnífica 70 é um belo esforço da HBO Latin America e da Conspiração. Uma história relevante e cativante e que merece ser prestigiada, ainda que ela tivesse se beneficiado e muito de um trabalho mais delicado e sutil na direção.

Magnífica 70 (Idem, Brasil – 2015)
Criação: Cláudio Torres, Renato Fagundes, Leandro Assis (baseado em roteiro de Toni Marques)
Direção: Cláudio Torres, Carolina Jabor
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Marcos Winter, Simone Spoladore, Adriano Garib, Maria Luísa Mendonça, Stepan Nercessian, Juliana Galdino, Pierre Baitelli, Julia Ianina, Rodrigo Fregman, André Frateschi, Leandro Firmino, Paulo César Pereio, Joana Fomm, Charles Fricks, Fábio Marcoff, Shalon Hsu, Bella Camero, Clarice Niskier, Carlo Mossy
Duração: entre 52 e 59 min. cada episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.