Crítica | Magnífica 70 – 2ª Temporada

estrelas 2

Obs: Só há spoilers da temporada anterior, cuja crítica pode ser lida aqui.

Magnífica 70 começou com uma promessa absolutamente fascinante para cinéfilos em geral: um olhar detalhado sobre a produção cinematográfica da Boca do Lixo, na década de 70, durante a Ditadura Militar. Crítica social e metalinguagem formando um prato cheio para ser devorado com vigor. O resultado, porém, ficou aquém do esperado graças aos exageros na fotografia, edição e mixagem de som, trilha sonora e montagem, que transformaram a primeira temporada em algo árduo de ser realmente apreciada em sua plenitude.

Mas era óbvio que essas questões seria resolvidas ou atenuadas na segunda temporada, não é mesmo? Essa seria a conclusão mais óbvia e sensata, mas não. O que vemos é a volta dos maneirismos cansativos que crivaram a temporada anterior sendo repetidos e amplificados aqui, algo que é particularmente relevante considerando que a história em si é inferior à primeira.

Para começar, os personagens principais já foram apresentados e desenvolvidos. Voltam Vicente (Marcos Winter) o censor federal transformado em cineasta, Vera ou Dora Dumar (Simone Spoladore) como a atriz principal das produção da Magnífica, Isabel (Maria Luísa Mendonça), a trágica esposa de Vicente e, claro, o ótimo Manolo (Adriano Garib), definitivamente tomando seu papel de produtor, depois da morte de Larsen (Stepan Nercessian que só aparece em flahbacks). No entanto, há um salto temporal de 18 meses e é feita uma “dança das cadeiras” nos papeis que cada um exerce em relação ao outro. Isabel tem uma filha e está casada com Manolo; Vicente está sozinho, mas enlouquecido e conversando com o fantasma de Inácio (Hamilton Vaz Pereira), o diretor de cinema que se matou depois que seu filme foi censurado por ele na temporada anterior; Dario (Pierre Baitelli), irmão de Dora, agora tem um caso com Mestiça (Natália Rosa) e Dora entregou-se às drogas e abandonou o grupo depois de sua novela ter sido censurada.

E essas mudanças todas seriam bem-vindas, se elas não tivessem sido criadas com o único objetivo de permitir a inserção de dezenas e dezenas de flashbacks com fotografia em preto e branco ao longo de cada episódio de maneira descontrolada e completamente sem sentido e sem acrescentar nada à cadência. Muito ao contrário até, pois é comum vermos flashbacks de eventos que aconteceram dentro do mesmo episódio e há apenas alguns minutos antes, como se a memória do espectador fosse parecida com a de Drew Barrymore em Como se Fosse a Primeira Vez. O resultado é que há muita repetição, muita volta a um ponto passado que não precisava ser repetido ou mesmo lembrado naquele momento, o que acrescenta ao bombardeio sensorial que é marca da série, já que cada flashback é acompanhado de efeitos sonoros específicos para carregar no drama e, muito francamente, irritar o espectador.

Mesmo que pudéssemos perdoar os flashbacks, a questão é que a história foge completamente da produção cinematográfica e entra em uma linha investigativa da morte de Larsen pelo obsessivo e cada vez mais drogado delegado Santos (Felipe Abib), que usa a morte de uma socialite causada por drogas traficadas por Dora, para infiltrá-la na Magnífica e descobrir o verdadeiro assassino, já que ele não acredita que foi a V.A.P., grupo terrorista inventado por Vicente. Simultaneamente, a morte do General Souto, pai de Isabel, é investigada pelo padre Ribeiro (Ricardo Blat), militar que houve a confissão reveladora da mãe de Isabel, antes de sua morte. E, claro, a relação promíscua entre a produtora e a vilanesca Dra. Sueli (Juliana Galdino) e seu capanga Orestes (Rodrigo Fregnan) é amplificada em meio a tudo isso.

Lendo a descrição acima, é possível que alguém conclua que a nova história é até mais interessante que a anterior, mas a verdade é que não. O diferente foi trocado pelo usual e mesmo esse usual tem fortes doses de clichê que pesam ainda mais na fluidez da narrativa. Peguem, por exemplo, a Dra. Sueli. Ainda que a atuação de Galdino seja marcante, sua personagem é rasa como um pires, sem nenhum arco de desenvolvimento razoável, além de ser má e diabólica o tempo todo. O próprio Vicente, que teve um interessantíssimo arco na primeira temporada, cai na mesmice com sua rotina de conversas lunáticas com seu fantasma de estimação que só fazem a história caminhar de lado. E Dora, que poderia oferecer algo mais, é um poço de depressão, lágrimas e cara de sofredora, sem que sintamos de verdade alguma empatia pela personagem.

Por sorte, porém, Adriano Garib rouba todas as cenas com seu divertido Manolo que ganha mais relevância aqui e demonstra-se como um personagem surpreendentemente complexo, que é substancialmente diferente de todos os demais ao seu redor. Outro que é presenteado pelo roteiro com mais do que choradeira ou doideiras é Pierre Baitelli, como Dario, que sai de um personagem completamente apagado na temporada anterior, para um malandro com coração bastante interessante. E, ainda que tenha pouco espaço para trabalhar, Ricardo Blat dá um show como o padre militar decidido a levar Isabel para a cadeia.

Mas tudo que a série tem de bom é afogado debaixo não só dos já citados flashbacks, como pela fotografia esquizofrênica, muito mais preocupada com cores em tons pastéis (ok, faz sentido usá-las para emular os filmes da época, mas há limite para tudo), contraluz onipresente, cores estouradas e movimentações de câmera perdidas do que em dar sentido para o uso de todos esses artifícios. É como se a produção – detalhada, com um design realmente muito bom e realista na recriação da década de 70 – tivesse que deslumbrar pelo excesso e não pela história e atuações. É cansativo ser bombardeado com tanta coisa ao mesmo tempo sem que haja um objetivo claro e que vá além da simples tentativa (bem sucedida, diga-se de passagem) de emular o estilo trash das pornochanchadas da época.

Mesmo com uma temporada reduzida para 10 episódios, não havia história para tanto e cada sequência demorar a progredir, com diálogos falados lentamente ou com longas pausas entre cada frase em que a trilha sonora intrusiva é enxertada de maneira a criar suspense de primeiro ano de escola de cinema e com tomadas quase aleatórias e perdidas como se a câmera fosse um brinquedo novo que o diretor acabou de conhecer e quer apertar todos os botões. Não há esmero na produção que aguente esse grau de exposição que a direção equivocada cria aqui.

A segunda temporada de Magnífica 70 é menos do mesmo. Ou seja, menos história com a mesma quantidade de problemas da temporada inaugural. O que começou de forma muito interessante e atraente tornou-se um suplício para se assistir. Uma pena.

Magnífica 70 – 2ª Temporada (Idem, Brasil – 2016)
Criação: Cláudio Torres, Renato Fagundes, Leandro Assis (baseado em roteiro de Toni Marques)
Direção: Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Marcos Winter, Simone Spoladore, Adriano Garib, Maria Luísa Mendonça, Juliana Galdino, Pierre Baitelli, Rodrigo Fregman, André Frateschi, Leandro Firmino, Joana Fomm, Charles Fricks, Felipe Abib, Taumaturgo Ferreira, Mariana Lima, Juan Palomino, Mário Gomes, Ricardo Blat, Natália Rosa, Hamilton Vaz Pereira
Duração: entre 52 e 59 min. cada episódio (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.