Crítica | “Mahmundi” – Mahmundi

estrelas 4,5

É sempre gratificante ser presenteado nos dias de hoje com um disco de música pop doce, delicado, simples, envolvente, marcante. É difícil limitar o número de belos adjetivos pra qualificar o trabalho de Marcela Vale, a carioca por trás do projeto Mahmundi. Após o lançamento de dois EPs de produção simples que já carimbavam seu potencial enorme, finalmente ela agora lança seu primeiro – e homônimo – álbum de estúdio.

Logo de início somos jogados em Hit, canção que camufla uma base de reggae com diferentes efeitos eletrônicos, formando um pop bem estruturado, apesar de apenas a ponta do iceberg. A faixa seguinte já chama mais atenção, a maravilhosa Azul, que já traça os tons de synthpop que permearão o trabalho da cantora, soando sutil e belo como um domingo ao redor da piscina, um dia moderadamente ensolarado.

Eterno Verão parece feita pra tocar nas rádios (ou pelo menos em rádios sem jabás). A faixa segue a receita clássica de um ótimo AOR (Album Oriented Rock), nome usado pra referir a canções que dominavam as FMs nas décadas de 70/80, com seu piano instigante, seu refrão chiclete e seu solo de guitarra melódico. Desaguar, com seus sintetizadores e guitarras chamativas, é o jeito próprio de Mahmundi de criar uma canção pop de primeira, soando como se fosse calcada em pilares como She’s So Unusual da Cyndi Lauper ou Like A Prayer da Madonna. Calor do Amor parece seguir lógica parecida, totalmente saída da década de 80, com alguns efeitos que soam até clichê do gênero.

É difícil escutar o álbum e não lembrar de Vista Pro Mar, segundo disco do Silva que já é um marco pra música pop nacional dos últimos anos. Isso porque ambos usam um synthpop inteligente para fazer uma trilha sonora de verão, cada um levando em conta suas respectivas regiões litorâneas (Silva é capixaba, Mahmundi é carioca). Como o trabalho de Silva veio primeiro, é difícil não pintar ele como “o influente”, apesar de não ser bem assim, já que Marcela vem trabalhando em seu álbum há pelo menos 4 anos (sendo que o referido disco de Silva é de 2014).

Aos poucos, Marcela vai nos levando de uma aparente despretensão para lados bastante intimistas. A acusticidade hipnotizante de Leve e sua bela ingenuidade romântica (“Ah, seus olhos riam pra mim, seus olhos riam pra me mostrar”), o relacionamento desgastado presente em Quase Sempre (“A comida já esfria na panela/ Cadê você para o jantar?”), ou a harmonia delicada e caprichada de Wild – sintetizadores, tambores, arranjo de vozes, piano, boa linha de baixo – com seu olhar um tanto contemplativo (“Longe daqui não tenho pressa, quero um dia breve pra viver”). A chave de ouro chega com Sentimento, faixa minunciosa em detalhes, onde cada efeito de sintetizador soa como se fosse crucial para a imersão definitiva no mundo de Mahmundi.

“E é tão fácil, é tão mágico, se perder numa canção”, o verso refrão de Eterno Verão resume completamente a primeira obra de Mahmundi. Você VAI se perder nessas canções, você VAI se sentir totalmente imerso nessa atmosfera simples e doce e, sim, você VAI retornar a ela inúmeras vezes. Simplesmente porque vale a pena. Uma trilha ensolarada deliciosa, com retoques pop brilhantes que merecem ser elogiados hoje e sempre.

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Mahmundi 
Artista: Mahmundi
País: Brasil
Lançamento: 5 de maio de 2016
Gravadora: Stereomono – Skolmusic
Estilo: Synthpop, Pop, Eletrônico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.