Crítica | Mais Estranho Que a Ficção

Mais Estranho Que a Ficção é uma daquelas histórias edificantes e contadas sem tantos vícios narrativos hollywoodianos, misto de leveza e complexidade, a depender do ponto de vista que for abordada. Pode funcionar como uma comédia dramática bem conduzida, bem como um filosófico tratado sobre a relação entre criador e criatura, autor e obra, dentre outras questões que serão mais explicitadas adiante. O filme pode, também, funcionar pelas duas vias, opção bem mais gratificante, afinal, nada melhor que uma produção inteligente e divertida, programada para o escapismo, mas que te leva a trafegar por uma via nada comum de reflexão.

Dirigido pelo competente Marc Forster, cineasta que comanda o roteiro de Zach Helm, texto que flerta com a metalinguagem em sua melhor forma, tal como os debates dos filmes Adaptação, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, O Show de Truman, dentre outros. Helm, ao usar inteligentemente a narração off, um dos maiores pecados dos roteiros preguiçosos, escorados e inseguros, amplia as dimensões dos personagens que centralizam os conflitos que gravitam em torno da narrativa: Harold Crick (Will Ferrell), auditor da Receita Federal e a escritora Kay Eiffel (Emma Thompson), ambos representados por meio de desempenhos dramáticos admiráveis.

Crick é um exímio contador e vive o seu dia matematicamente. Sua vida é um poço de tédio, pois perdeu bastante interessante nas “coisas” depois que a sua noiva o abandonou para fugir com outro homem. Eiffel é uma escritora cheia de emoções literárias, mas fria em sua própria condição de vida, alijada das convenções sociais, hermética e de dimensão psicológica complexa. Certo dia, ao seguir rumo aos seus afazeres diários milimetricamente planejados, coordenados por uma rotina cotidiana, o auditor percebe que uma voz feminina o persegue constantemente.

A voz narra a sua vida passo a passo. Ao admitir para si mesmo que há algo de muito estranho diante da situação, ele procura Jules Hilbert (Dustin Hoffman), professor que é mestre em literatura e pode solucionar os seus problemas. O que ele descobre é que a voz é de sua escritora, isto é, Eiffel, conhecida pela crítica literária e pelo público cativo por suas histórias trágicas e morte dos protagonistas de suas narrativas. Ela sequer imagina a existência de Crick e é nessa dinâmica que o filme ganha a nossa admiração e esmero, pois evita explicar demais ou empregar fórmulas absurdas para a resolução dos elementos presentes no roteiro, numa fuga das estratégias essencialistas dos discípulos de Syd Field.

Desde a sua premissa, Mais Estranho Que a Ficção possui uma lógica interna que precisa ser “comprada” para que a história funcione bem. Isso me remete ao final de tantos filmes que saem do padrão e podem soar incompreendidos ou com supostos problemas de roteiro. Um caso interessante é A Casa do Lago, com Sandra Bullock e Keanu Reeves. Precisa explicar em pormenores como ambos os protagonistas, em 2004 e 2006, conseguiram se encontrar no desfecho de suas trajetórias?

Respondo com um sonoro não. O texto é metáfora, literatura, espaço para suspensão de descrença e abertura para a mágica das situações. Diante do exposto, sabemos que a história de Crick possui uma lógica interna que precisa ser digerida pelos espectadores. Ao perceber que não pode ser o “dono de sua história”, Crick trafega por uma via de aceitação, ao começar a aceitar seu destino. Em determinado momento assiste O Sentido da Vida para tentar encontrar significação para si, mas se encontra cada vez mais confuso. Sem forças ou talvez vontade de travar uma luta, ele se entrega ao final esperado, no entanto, as coisas mudam ao passo que a narrativa avança.

 Crick descobre as possibilidades de um novo caminho com a meiga e simpática Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal). Há também a afeição pelo personagem carismático de Ferrell, aqui deslumbrante, longe dos comuns histrionismos de outros desempenhos em comédias. O roteirista, a escritora e, principalmente, o público, desejam não passar pela profunda catarse que é a perda de Crick. O personagem, então, vence as etapas e consegue manter a sua vida, com novos projetos que permitem novas configurações.

Uma parte da crítica especializada não gostou da opção, tida como uma alternativa fácil para o desfecho. Prefiro considerar que o final não define a totalidade e a necessidade de um arremate mais comum no roteiro não é algo que seja capaz de anular toda a experiência, afinal, algumas experiências supostamente “cult” se perdem em suas pretensões acima da média. Bons diálogos, composição visual eficiente, personagem bem delineado e roteiro bem escrito transformado num filme bem dirigido. Os elementos estéticos compõem a narrativa adequadamente e permitem aos personagens melhor delineamento dos seus respectivos designers. A direção de fotografia de Robert Schaefer acerta o ritmo e dá conta das emoções, ao enquadrar e se movimentar com eficiência, a contemplar bem o design de produção de Kevin Thompson e os figurinos de Frank. L Fleming.

No primeiro caso, o apartamento consegue de maneira atordoante e impessoal, nos fazer mergulhar na dimensão psicológica de Crick, personagem que faz contagem das escovadas de dente e os passos que dá até chegar ao ponto de ônibus. O espaço cênico da escritora Eiffel, ambientação que dialoga com as suas necessidades dramáticas, também é erguido com cautela e diálogo com suas características enquanto personagem. Para deixar a narrativa visualmente mais interessante, o filme inclui alguns gráficos que são construções da mente criativa e inconstante de Crick, sempre a confabular diante da sua existência.

Em Mais Estranho Que a Ficção há interessantes conexões com o filosófico O Mundo de Sofia, além de toda a memória metalinguística literária. Quem somos nós? O que fazemos aqui? De onde viemos? É uma questão que se encontra presente ao longo do trajeto de Crick. Metáforas também são figuras de linguagem que funcionam como eficientes estratégias narrativas. O seu relógio de pulso é uma delas. O objeto representa o equilíbrio que há entre a vida e a morte do personagem, elemento que deixa tanto o criador quanto a criatura basicamente atordoados.

Regulador do tempo de Crick, o relógio também é um elemento vital, pois assegura a sua vida num dado momento da trama. A presença de tal objeto de maneira tão intrigante pode ser conferida no marcante O Relógio do Hospital, conto de Insônia, coletânea de Graciliano Ramos. Fica a dica de leitura, afinal, ler um dos nossos mais competentes romancistas nunca é um exercício intelectual de pequenas proporções.

Mais Estranho Que a Ficção — (Stranger Than Fiction) Estados Unidos, 2006.
Direção: Marc Forster
Roteiro:  Zach Helm
Elenco:  Will Ferrell, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Kristin Chenoweth, Maggie Gyllenhaal, Queen Latifah, Tony Hale
Duração: 113 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.