Crítica | Mais Forte que a Vingança

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estrelas 4

Três anos após estrelar Butch Cassidy, Robert Redford dá as caras mais uma vez no Western. Dessa vez, dirigido por Sidney Pollack, Redford atua como protagonista em uma típica obra do faroeste mais pessimista, ou do “final sem glória” (mais sobre as eras cinematográficas do western aqui). Apesar de seu (péssimo) título traduzido, Mais Forte que a Vingança, o filme não gira em torno de uma revanche ou algo similar e sim de uma aventura. Trata-se de uma espécie de crônica, focada em um homem que dá o nome original da obra, Jeremiah Johnson.

Johnson abre o filme em sua jornada para o norte. Ele é um homem que decide dar adeus àquele Velho Oeste que estamos acostumados – desertos vermelhos e pradarias desoladas, caminhando para uma região tão inóspita quanto, porém preenchida pelo branco da neve. Na expressão de Redford enxergamos que ele deixa algo para trás, não somente sua morada até então, mas um passado que o endureceu, por mais que o roteiro de John Milius e Edward Anhalt, sabiamente, deixem esse aspecto da vida do protagonista no mistério. O que sabemos é que ele anseia por uma nova página em sua jornada e decide escrevê-la nas montanhas.

Mais Forte que a Vingança nos traz uma narrativa interessante por se distanciar do que geralmente vemos não só nos westerns, como no cinema clássico americano como um todo. Não temos aqui uma problemática central que permeia toda a história, definindo os caminhos pelos quais os personagens irão seguir. Muito pelo contrário. Aqui, os personagens definem o caminho da trama e o longa-metragem atua como um registro pontual da vida dessas pessoas. Não há um objetivo claro, é apenas a história de um homem que deseja viver naquela região.

Isso não quer dizer que temos aqui um lento drama sem qualquer tipo de ação. Aquelas montanhas são repletas de índios – alguns hostis, outros não, que garantem uma dinâmica e uma constante tensão a cada sequência da história. Mais uma vez ressalto o tom de crônica que o filme estabelece, especialmente por retratar um longo período na vida de Jeremiah. Para construir essa sensação de passagem de tempo, o roteiro emprega uma tática evidente, de utilizar alguns personagens para bem representar a evolução (ou seria involução?) do personagem central. A disposição de Johnson em relação a cada um deles deixa claro o quanto o protagonista mudou e a direção de Pollack é precisa, principalmente, neste aspecto, tirando de Redford uma atuação verdadeiramente realista que dá uma notável melancolia ao longo da projeção.

A montagem utiliza constantes fusões, mais uma vez para representar a passagem do tempo e cumpre seu papel com maestria na maior parte do filme. Alguns momentos mais agitados, contudo, chegam a nos confundir, através de cortes demasiadamente rápidos que prejudicam nosso entendimento do longa. Felizmente, tais ocasiões são poucas, abrindo espaço para uma contemplação da fotografia de Duke Callaghan, em seu segundo trabalho no cinema. Não vemos enquadramentos especialmente marcantes, mas o diretor de fotografia sabe quando empregar os closes e os planos gerais para compor não só o tom mais intimista da história, como uma nítida sensação de solidão, que permeia a obra.

O interessante é que, mesmo com esse sentimento presente em toda a obra, seu marcante encerramento chega de forma avassaladora para o espectador, não só nos pegando de surpresa, como nos deixando com o já mencionado tom pessimista dessa era do western. Sydney Pollack constrói um potente faroeste de forma simples, dando um enfoque em seus personagens e utilizando o tempo e o não-dito como um elemento central dentro de sua narrativa. Jeremiah Johnson vai embora da mesma forma como foi apresentado e aqui vimos apenas uma parcela de sua vida.

Mais Forte que a Vingança (Jeremiah Johson – EUA, 1972)
Direção:
 Sydney Pollack
Roteiro: John Milius, Edward Anhalt
Elenco: Robert Redford, Will Geer, Delle Bolton, Josh Albee, Joaquín Martínez, Allyn Ann McLerie, Stefan Gierasch
Duração: 108 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.