Crítica | Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo

estrelas 3

Cinema de gênero é uma área na qual o Brasil vai pouco a pouco expandindo seus horizontes para o grande público, que parece mais interessado em thrillers policiais ou comédias pastelão. É importante que o cinema nacional aposte em novos gêneros para a massa (quem acompanha o circuito independente sabe da grande variedade), e eis que agora temos uma produção totalmente mergulhada no gênero dos filmes de luta competitiva na forma de Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo.

Como o próprio subtítulo já nos informa, acompanharemos a história de José Aldo (vivido aqui por José Loreto), um sujeito de criação difícil em uma região de risco de Manaus. Filho de uma mãe esforçada e de um pai alcoólatra abusivo, José se muda para o Rio de Janeiro para perseguir seu sonho de entrar na luta competitiva profissional, que culmina no famoso campeonato do UFC.

Fazer um filme desses é pura fórmula. Basta observar filmes como a franquia Rocky, Guerreiro ou até mesmo O Vencedor. Cada um deles aborda as viradas de história e os inevitáveis clichês de maneiras diferentes, sendo interessante como Creed: Nascido para Lutar usou a passagem de gerações enquanto o filme de David O. Russell apostava forte nas relações familiares entre os personagens ali. Já Afonso Poyart (que também assina o roteiro) traz uma abordagem com resultados duplos. Por um lado, temos a fascinante exploração da psíque de José Aldo, que manifesta em um ringue imaginário e um oponente a lá Tyler Durden (o ótimo Rômulo Arantes Neto) todas as suas descargas emocionais; Aldo literalmente sai na porrada com seus problemas pessoais. Esse conceito funciona bem e é favorecido pela criatividade visual de Poyart (há uma câmera subjetiva em uma corda que é brilhante).

Porém, quando acompanhamos a jornada mais “convencional” de montagens de treinamento e conflitos emocionais que não se resolvem na pancadaria, Poyart apela demais para um melodrama que desconhece o conceito de sutileza. Todo o arco que envolve a relação com Viviane (Cleo Pires, no piloto automático) e o vai e vem com a situação de seu pai em Manaus acabam soando repetitivos e excessivamente dramáticos (leia-se, piegas), o que se dá também pela condução exagerada de Poyart em tais cenas – principalmente pela montagem frenética de Lucas Gonzaga. O que torna tais momentos suportáveis é mesmo o trabalho do elenco, especialmente o ótimo José Loreto, que assume o difícil papel de tornar Aldo (um protagonista que não é dos mais inocentes) uma figura com quem possamos nos identificar e torcer.

Quanto às cenas de ação, é mais um caso de resultados duplos. Poyart impressiona pelo cuidado estético e a imersão ao usar planos fechados e abertos dentro do ringue, mas revela uma imaturidade gritante ao apostar demasiadamente no recurso da câmera lenta e, pela escolha das cenas, fica claro que é um caso de “olha como isso fica legal em slow mo” do que para oferecer um insight dramático na situação. A única exceção, claro, é a excelente cena na qual Aldo sobe ao ringue pela primeira vez, sendo a sequência inteira em câmera lenta ao som de “Man with a Harmonica” do mestre Ennio Morricone.

Mais Forte que o Mundo segue à risca a fórmula básica dos filmes de esporte, infelizmente levando consigo todos os clichês em uma abordagem que gera resultados bons e ruins. Traz um bom elenco e a promessa cada vez maior de um cinema nacional mais diverso para o grande público.

Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo (Brasil, 2016)

Direção: Afonso Poyart
Roteiro: Afonso Poyart
Elenco: José Loreto, Cleo Pires, Milhem Cortaz, Rômulo Arantes Neto, Jackson Antunes, Cláudia Ohana, Paloma Bernardi, Rafinha Bastos
Duração: 104 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.