Crítica | Mama

Poucos são os diretores com tanta sorte, no início da carreira, quanto o argentino Andy Muschietti. Seu curta-metragem, Mamá ganhou a atenção de Guillermo del Toro, que disse que o filme contava com as cenas mais assustadoras que ele já vira. Dessa forma, Muschietti atraiu o produtor executivo de seu primeiro longa, Mama, que, como o título sugere, nada mais é que uma expansão da ideia de seu curta. De quebra, o realizador ainda conseguiu Jessica Chastain para seu elenco, logo após ela ter sido nomeada para o Oscar de Melhor Atriz, além de Nikolaj Coster-Waldau, cuja participação em Game of Thrones já funciona como marketing gratuito. Sua sorte, claro, somente cresceria de 2013 para cá, com sua contratação para dirigir It: A Coisa.

A trama tem início já de forma impactante. Jeffrey (Nikolaj Coster-Waldau), um corretor de ações, desesperado com a crise de 2008, mata seus dois sócios, sua esposa e foge com suas duas filhas. No meio da estrada, ele perde controle do carro e cai pelo barranco. No meio da mata, ele e suas crianças encontram uma cabana abandonada e, antes que pudesse terminar o serviço, matando as filhas e a si próprio, uma entidade fantasmagórica tira sua vida. Cinco anos depois, o irmão gêmeo de Jeffrey, Lucas, continua procurando pelas meninas e, enfim, as encontra. O estado das duas, porém, é deplorável: elas estão raquíticas, sujas e demonstrando comportamento selvagem. Mas ele não é desmotivado por isso e as leva para casa, junto de sua namorada, Annabel (Jessica Chastain). O que não sabiam é que o estranho ser que cuidara das garotas até então as acompanharia.

Dentro do gênero terror, Mama não chega a trazer muito de efetivamente novo. Muschietti se apoia, principalmente, em jump scares, ora produzidos a partir de repentinos sons elevados, ora pelas súbitas aparições da criatura que dá nome ao filme. Através desses, o diretor cria a velha atmosfera de filmes de espíritos, nos fazendo, a todo momento, percorrer a tela de um lado para outro com nosso olhar. O que o diferencia da grande maioria dos cineastas do gênero é como ele utiliza frequentemente planos mais abertos, guiando o nosso olhar sem fechá-lo em um ponto específico. Claro que os planos mais próximos se fazem presentes, mas é bom enxergar esse intercalar de perspectivas. É preciso observar, também, como o diretor ousa em sua decupagem, chegando a empregar vibrantes planos em primeira pessoa, os quais se diferenciam de quase tudo o que vimos no gênero.

O diretor, porém, claramente encontra-se em processo de amadurecimento de sua linguagem, algo deixado claro no terço final da obra, que expõe demais Mama, quebrando o suspense sobrenatural criado até então. Quando a criatura é, enfim, mostrada por completo, nosso medo vai embora, visto que a percebemos como uma simples construção de computação gráfica – bastante artificial, inclusive, para os padrões atuais da indústria. O “menos é mais” que governara a maior parte da narrativa é abandonado na tentativa de criar um clímax mais “explosivo”, tentando, ao máximo, superar os sustos proporcionados até então, mas sem verdadeiramente conseguir.

Existe, contudo, um subtexto em Mama muito mais interessante que os seus aspectos sobrenaturais, que lida com a própria questão da maternidade. Chastain interpreta uma mulher que, aos olhos comuns da sociedade, não seria a melhor mãe possível. O roteiro de Neil Cross, Andy e Barbara Muschietti (irmã do diretor) prova justamente o contrário, defendendo que a figura materna não é ligada aos seus hábitos sociais, emprego, se é rockeira ou empresária e sim ligado ao amor que essa sente pelas crianças em questão. Tal aspecto é, também, trabalhado através da figura de Lucas, pintor, que mostra ser um verdadeiro pai, enquanto que seu irmão, corretor de ações, simplesmente destrói sua família no primeiro momento de crise. Nesse sentido, a figura fantasmagórica atua quase como um teste, tentando definir se esse casal pode ou não cuidar dessas duas meninas e se, claro, elas próprias desejam passar a vida com eles, algo extremamente relevante para o impactante, ainda que levemente exagerado, trecho final da obra.

Em Mama, portanto, o diretor Andy Muschietti demonstra todo o seu potencial, mesmo exagerando aqui e lá através da exagerada exposição de sua criatura fantasmagórica. Ele certamente demonstrou bastante sorte nesse início de carreira, mas muito parte de seu próprio talento na direção, capaz de guiar o olhar do espectador a fim de construir sequências tensas e assustadoras. Por mais que ainda exista muito espaço para seu crescimento na carreira, sentimos, desde já, que ele merece ser acompanhado, percepção que apenas foi fortalecida após It: A Coisa.

Mama — Canadá/ Espanha, 2013
Direção: 
Andy Muschietti
Roteiro: Neil Cross, Andy Muschietti, Barbara Muschietti
Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier, Isabelle Nélisse, Daniel Kash, Javier Botet, Jane Moffat, Morgan McGarry
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.