Crítica | Mamãe Faz 100 Anos

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As Sagradas Escrituras contam que Jesus ressuscitou três dias após sua via crucis. Os discípulos se impressionaram com o poder do Ungido e com a aparição do renascido. Ana (Geraldine Chaplin) não é crucificada, mas igualmente morta: rediviva depois de anos, não causa a ninguém nenhum espanto. O princípio da projeção de Mamãe faz Cem Anos (1979) é assim, estranho e incompreensível. Se a mulher fora assassinada na película de 1973, Ana e os Lobos, o que explicaria seu retorno incólume à casa da matriarca prestes a completar seu centenário?

Mamãe Faz Cem Anos é, com efeito, uma espécie de continuação da obra anterior, mas uma continuação aos avessos, que marca descontinuidade. Outro ponto dissonante acrescentado ao enredo é o falecimento de José Ara, personagem que no filme de anos atrás representava o franquismo dentro do Lar, com todo o seu fetiche por indumentárias militares e controle sobre as vidas alheias. A queda do filho nacionalista está conectada à falência histórica do regime franquista espanhol, corolada com a morte de Francisco Franco em 1975. Com a dissolução da ditadura a Espanha pôde finalmente se ver livre, mas sua reorganização envolve várias dificuldades que serão metaforizadas com primor por Carlos Saura.

Ana, agora acompanhada por seu marido Antonio (Norman Briski), reencontra a família liderada por Mamãe (Rafaela Aparicio). Sob as transformações superficiais, como o amadurecimento das três filhas de Juan e Luchi, permanecem paralisadas as disfuncionalidades do lar – Fernando é um biruta que, feito Ícaro, quer alçar voo para fugir do labirinto de sua existência frustrada; Juan é um adúltero que abandonou sua mulher para morar com uma empregada; a dona da casa está cada vez mais doente, seus ataques são muito frequentes; se José se foi, sua presença autoritária ainda se faz sentir pelos rituais cotidianos que ainda o reverenciam.

O que há de novo sob o sol é o comportamento rebelde das meninas crescidas, Natalia, Carlota e Vitoria. Principalmente, a belíssima Amparo Muñoz, que foi miss antes de ser atriz, constrói uma Natalia sensual que tenta conquistar Antonio e representa um polo mais liberal e avançado em termos de costumes, opondo-se diretamente à moralidade católica que dominou o país por décadas. Os adultos da casa encontram dificuldades em impor limites às jovens, no que pode-se interpretar como um símbolo do afrouxamento das normas sociais enrijecidas.

Com o passar do tempo, descobrimos que a trama consiste numa tentativa dos herdeiros de matar a mãe moribunda. O conluio é formado pelos três filhos homens, por Luchi e pela neta Carlota. Curiosamente, a estrangeira Ana, que nem faz parte da família, acaba sendo o porto seguro da matriarca, salvando-a no fim das contas. Na crítica sobre Ana e os Lobos, já foi dito que a Mãe e a Casa são metonímias da própria Espanha. Estaria Saura dizendo que o País se encontra minado por dentro, que entre os filhos da Pátria há traidores? Que os caminhos para o restabelecimento espanhol estão cheios de espinhos? Certamente, a visão que o diretor transmite não é ingenuamente otimista, ela acolhe as dificuldades históricas que de fato a nação enfrentou.

Nesse sentido, a última sequência do filme dá a real dimensão do problema: Rafaela Aparicio quase bateu as botas. Quando recupera o fôlego, critica os familiares traiçoeiros. Conta, então, que viu sua vida inteira passar diante de seus olhos, vida esta que se confunde com os acontecimentos que marcaram a história espanhola. A visão é horrível, o discurso, belo: “Quanta crueldade, quanta estupidez, quanto egoísmo, meus filhos. Quanto sofrimento inútil. Quanto sacrifício inútil”. Enquanto isso, um travelling para trás nos leva defronte à casa em contra-plongée, apresentando-a ao mesmo tempo imponente e enfraquecida, efeito sublinhado pela fotografia de tons fracos e pelo cenário carcomido.

A herança maldita militar é ressaltada pelo acompanhamento musical com timbres marciais, do mesmo jeito que em Ana e os Lobos. Com esse filme, ademais, Mamãe faz Cem Anos partilha outros traços de estilo, como a penetração do maravilhoso no enredo e o comportamento impulsivo e instintual dos personagens. Saura tem uma cosmovisão surrealista, retratando em suas obras pessoas escravas de seus desejos mais profundos e socialmente interditos, podendo eles ser relacionados ao sexo, à violência e ao poder; na mesma linha, sua filiação surreal é demonstrada pela intromissão do ilogismo no fluxo dos acontecimentos, fato que desestabiliza a retidão da verossimilhança. Não é coincidência que o diretor tenha feito filmes como Peppermint Frappé (1967) e Buñuel e a Mesa do Rei Salomão (2001), verdadeiras homenagens ao mestre espanhol, artista que melhor transpôs para o cinema as ideias vanguardistas criadas por André Breton.

Ao quebrar o automatismo, Carlos Saura inventa um mundo próprio que só pode ser entendido quando remetido ao “mundo real”. Se suas estratégias narrativas são estranhadoras, deve-se vê-las como forças que escarafuncham os dados concretos históricos: a mitologia esgaravata os gargalos da Espanha franquista. Mamãe faz Cem Anos é o enterro do Regime, mostrando, em simultâneo, sua onerosa sobrevivência post mortem. O franquismo de algum modo continua a balizar a convivência cotidiana, o autoritarismo se difunde para todos os cantos. A libertinagem de Natalia, como oposição radical ao poder estabelecido, seria intensificada pela “Movida Madrileña”, Almodóvar & Cia. Depois da prisão, a explosão; à tempestade segue a bonança. Mas, conforme Saura, persiste a estupidez e o sofrimento, Franco morre, morre José Ara, enquanto certos setores continuam a velar respeitosamente seus túmulos.

Eis aqui, em suma, mais uma obra espetacular de Carlos Saura. Neste filme, tudo está bem concatenado: as atuações precisas (principalmente a maravilhosa performance de Aparicio), o toque sobrenatural, a direção peculiar. Percebemos, por assim dizer, um método na loucura narrativa. A ressurreição de Ana não se explica; os poderes de onisciência e onipresença da Mãe também são mistérios… o irracional ganha o patamar de alegoria, por baixo da magia é a Espanha que palpita.

Mamãe faz Cem Anos (Mamá cumple 100 años)- Espanha, França, 1979.
Direção: Carlos Saura
Roteiro: Carlos Saura
Elenco: Geraldine Chaplin, Amparo Muñoz, Fernando Fernán Gómez, Norman Briski, José Maria Prada, José Vivó, Rafaela Aparicio, Ángeles Torres, Elisa Nandi
Duração: 98 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.