Crítica | Mamma Mia!

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Moulin Rouge – Amor em Vermelho e Chicago foram os grandes acontecimentos musicais que demarcaram a primeira década dos anos 2000, seguido de uma série de produções que capitalizaram em torno da nostalgia e dos marcos da cultura pop. Mamma Mia, lançado em 2008, segue o esquema das adaptações teatrais para o cinema, tendo como base estrutural as músicas e o clima colorido, alegre e kitsch da banda sueca ABBA, marco da década de 1970.

Com título que referencia o famoso single de 1975, a produção teve o roteiro assinado por Catherine Johnson, a mesma dramaturga da peça teatral encenada na Broadway. A direção ficou por conta de Phyllida Lloyd, profissional que realiza um trabalho às vezes irregular, mas com resultado geral positivo.  Para colaborar com a história contada, a diretora teve apoio de Maria Djurkovic no design de produção, profissional que contratou Anna Roth para assumir os figurinos, além da segura direção musical de Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus, integrantes do ABBA, produtores que sabem exatamente o que fazer quando o assunto é uma nova roupagem para as “suas” próprias músicas.

Em Mamma Mia, Sophie (Amanda Seyfried) é a personagem com um dos conflitos mais universais da história da humanidade, presente desde Homero: a busca de encontro com a figura paterna. A “telemaquia” de Sophie, jovem que mora com a mãe na ilha grega de Kalokairi, ganha novos contornos quando ela envia três correspondências, ao som da balada I Have a Dream. As cartas são endereçadas para Sam Carmichael (Pierce Brosnan), Harry Bright (Colin Firth) e Bill Anderson (Stellan Skarsgard), três possíveis candidatos ao posto paterno.

Ela os convida para o casamento com Sky (Dominic Cooper). Os três partem de diferentes localidades do mundo para responder ao chamado da jovem e doce garota, construída com carisma e talento pelo desempenho dramático de Amanda Seyfried, atriz na época com pouca experiência, mas segura ao atuar diante de um elenco bem selecionado. Sophie é filha da irreverente Donna (Meryl Streep), uma mulher cheia de segredos que é surpreendida pela chegada dos três homens que marcaram a sua juventude. Ela tenta esconder a identidade do pai e se gaba de ter criado a filha sozinha por todos os anos após os três desencontros amorosos do passado.

Desta maneira, a narrativa segue com números musicais bem conduzidos, entrelaçados por Donna e seus três históricos de mulher libertária e feminista. Quem será o pai de Sophie? O banqueiro britânico Harry? O escritor de viagens Bill? O arquiteto estadunidense Sam? Saberemos a verdade apenas no final novelesco e com toques de histeria e estética burlesca, mas desde o começo há pistas óbvias que demonstram a maior possiblidade dos três candidatos ao posto de “papai do ano”. Esse problema de roteiro, no entanto, não importa, afinal, Mamma Mia não é um filme de investigação criminal, tampouco de suspense, desde o começo preocupado em entreter, sem recorrer ao plot twist como estratégia narrativa.

Para completar a festa, Donna também recebe duas grandes amigas da juventude, Tanya (Christine Baranski) e Rosie (Julie Waters). Ambas estão muito bem, mas Baranski consegue encantar com a sua versatilidade para trafegar tranquilamente entre o drama, a comédia e o musical. Ao interpretar uma mulher rica e divorciada três vezes, a atriz rouba várias cenas e se apresenta como um dos melhores elementos da narrativa. Muito se fala sobre o desempenho excelente de Meryl Streep na condução das músicas e das cenas humoradas, algo pouco comum em sua carreira de dramas lacrimejantes. Streep realmente está divina, carismática e competente como sempre, mas Baranski também alcança o mesmo nível. Waters é que parece exagerada demais, talvez por conta da falta de uma direção mais atenta. Ela interpreta a amiga escritora, também bem sucedida, solteira e doida por diversão, mas que em alguns momentos, exagera no timing e passa dos limites.

Rodado em parte na ilha grega de Escíatos, sob a direção de fotografia competente de Haris Zambarloukos, os números musicais não deixam a desejar, haja vista a edição eficiente de Lesley Walker.  Alguns se apresentam como videoclipes que podem tranquilamente ser extraídos do filme e expostos separadamente, sem perda do referencial. As cenas externas captadas pela fotografia são exuberantes e coadunam com o “clima” ABBA do musical. Um dos problemas de Mamma Mia, por sua vez, é o excesso de cenas gravadas com fundo projetado artificialmente.

Com a possibilidade de cenários totalmente reais, disponibilizados pelo espaço cênico da Grécia, um “paraíso terrestre”, a produção investe em trechos que a artificialidade se torna muito evidente, o que em meu ponto de vista, independente dos problemas orçamentários ou qualquer outra desculpa de bastidores, soa como preguiça da equipe técnica. Não chega a ser tosco, mas faz o filme perder parte da qualidade visual, um problema para uma história com roteiro relativamente muito simplório.

Esses detalhes são esquecidos quando nos entregamos aos números que transformam as canções do ABBA em belíssimos espetáculos visuais que nos deixa com vontade de dançar, em outros momentos, de chorar, sintomas do “efeito” ABBA, uma estética kitsch que mescla traços considerados bregas, mas memoráveis e constantemente presentes e retomados pela cultura pop. Dancing Queen, Mamma Mia, Honey Honey, Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight), Take Chance on Me, Thank You For The Music, SOS, I Have a Dream, Money, Money, Money, The Winner Takes It All, dentre outros sucessos inesquecíveis entrelaçam as histórias que em alguns momentos, conta com um coro grego “cômico” que comenta determinadas passagens e ações dos personagens.

Mamma Mia! — Estados Unidos/Grécia, 2008.
Direção: Phyllida Lloyd
Roteiro: Catherine Johnson
Elenco: Amanda Seyfried, Christine Baranski, Colin Firth, Dominic Cooper, Dylan Turner, Enzo Squillino Jr., George Georgiou, Juan Pablo Di Pace, Julie Walters, Meryl Streep, Pierce Brosnan
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.