Crítica | “Man Of The Woods” – Justin Timberlake

“Mais do que qualquer álbum que eu já escrevi, esse álbum foi influenciado pelo lugar de onde eu vim. É um álbum pessoal”

Justin Timberlake

Justin Timberlake definitivamente conseguiu uma carreira invejável ao adquirir elogios tanto por seu trabalho nas telas quanto por seu trabalho nos palcos e álbuns de estúdio. É seguro dizer que seu novo disco seguia entre os mais aguardados pela indústria uma vez que sua última obra data de 2013, o influente projeto The 20/20 Experience dividido em dois álbuns de qualidades divergentes. De lá pra cá a única coisa que recebemos de Justin foi a fraca Can’t Stop The Feeling, tema da animação da Dreamworks, Trolls.

Man Of The Woods, assim que divulgado, despertou enorme curiosidade pela forma como vinha sendo descrito. O artista afirmava ser seu álbum mais pessoal, todas as fotos de divulgação mostravam um Justin voltado para a vida no campo e os rumores espalhados pela mídia era de que se tratava de um álbum diferente de tudo já produzido pelo cantor, agora inserindo influências folk e country em sua música.

Não se deixe enganar por alguns que chamarão o trabalho de experimental (parece a palavra da moda para descrever qualquer sonoridade levemente diferente). Man Of The Woods passa muito longe disso. Filthy, primeiro single liberado, é a faixa que chega mais próxima de merecer o termo, misturando elementos de hardrock, R&B e música eletrônica em uma salada estranha, porém até que saborosa, soando quase como um tributo a Prince. Fora alguns momentos pontuais, estamos falando de um álbum bem preso a estruturas musicais pop já estabelecidas, onde Justin não se desprende muito nem mesmo de sua discografia.

Justin continua a fornecer belas pérolas pop. O predomínio de cordas ao longo de toda obra garante personalidade a Man Of The Woods em meio a discografia do artista. As ótimas Midnight Summer Jam (com a deliciosa e pontual presença de uma gaita) e Say Something (com participação do ótimo Chris Stapleton) ainda apresentam uma tímida influência country/folk, embora essa passe longe de ser a ideia do álbum como previa parte da mídia. Pharell Williams insere de maneira forte sua marca na produção, lembrando horas o pop dançante de seu bom disco solo, Girl, em faixas como Higher Higher, horas o funk retrô-moderno de Random Access Memories (Daft Punk), como na dobradinha excelente e simpática de Montana e Breeze Off The Pond.

No entanto, algumas das piores canções de Justin se encontram aqui. Flannel chega a ser vergonhosa, parecendo jingle feito para álbuns medíocres de Natal, exalando uma breguice assustadora em sua produção. Young Man fecha o disco de maneira tão genérica e insossa – sem sequer conseguir ser chiclete ou deixar resquício da personalidade do artista – que chega a ser frustrante. Justin também parece jogar seguro e se ater muitas vezes ao pop bobo e ingênuo que garantiu seu lugar mais alto até hoje nas charts, com a já citada Can’t Stop The Feeling. Prova disso está no arranjo pobre e esquecível de Man Of The Woods – logo a canção que carrega o nome da obra – que, além de tudo, parece não transmitir nada do tão comentado “lado pessoal” do álbum, sendo mais um acréscimo ao catálogo de letras fracas e sensualidade barata.

Man Of The Woods claramente peca por excesso. O mercado musical vem produzindo álbuns pop desnecessariamente longos nos últimos anos e esse é mais um exemplo. Das 16 faixas, Timberlake poderia muito bem selecionar 10 e fazer um álbum mais enxuto e coeso. O mesmo vale para a duração das canções, que muitas vezes são mais longas do que o necessário (quase toda faixa possui mais de 4 minutos, o que faz parecer quase uma cláusula contratual), o que leva a uma exaustiva repetição de refrões não tão bons assim para sobreviverem por tantos minutos.

O novo álbum de Justin Timberlake é satisfatório, mas, sim, bastante inconsistente. Vítima de uma divulgação mal interpretada, Man Of The Woods passa longe de ser uma reinvenção do artista, falha miseravelmente em tentar ser conceitual (o que dizer das vozes de Jessica Biel ao longo do álbum?) e soa raso demais para um trabalho dito como “pessoal”. Até Reputation, recente lançamento de Taylor Swift, consegue pintar uma imagem menos superficial da artista. É decepcionante afirmar, mas dessa vez faltou personalidade no cantor que um dia já foi responsável por redefinir os moldes do R&B.

Aumenta!: Montana
Diminui!: Flannel

Man Of The Woods
Artista: Justin Timberlake
País: Estados Unidos
Lançamento: 2 de fevereiro de 2018
Gravadora: RCA
Estilo: Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.