Crítica | Manchester À Beira-Mar

estrelas 4,5

É impressionante como o passado pode ser uma coisa difícil de ser superada, e como o perdão nunca parece ser o bastante quando somos responsáveis por algo repreensível. Na verdade, o próprio perdão de outros e terceiros é algo que pode vir com o tempo, mas o mais difícil em uma situação traumática seja a capacidade de perdoar a nós mesmos, encontrando a força para seguir em frente e enterrar um capítulo desagradável de nossas vidas. É uma questão muito complexa e individualista, que vem como o ponto principal que o cineasta Kenneth Lonergan analisa em Manchester à Beira-Mar, um estudo de personagem fascinante e um mergulho em um universo humano palpável e poderoso.

A trama nos apresenta a Lee Chandler (Casey Affleck) um zelador eficiente, mas antissocial e antipático que vive um dia após o outro em uma rotina ingrata em um conjunto habitacional de Boston. Quando recebe a notícia da morte de seu irmão, Joe (Kyle Chandler), Lee é forçado a retornar à sua cidade natal de Manchester, para lidar com a burocracia habitual de uma morte na família, assim como lidar com a responsabilidade de ter a guarda de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges) em suas mãos. Além disso, o retorno de Lee à Manchester traz à tona um terrível trauma que modificou sua vida para sempre.

Não esperem grandes cenas de ação ou um ritmo de suspense intenso aqui, já que tanto o texto quanto a câmera de Lonerghan são extremamente pacientes e contemplativos. É um cinema que lembra muito o estilo quieto e passageiro de Bennett Miller (responsável por Capote, O Homem que Mudou o Jogo e Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo), onde temos longos e pausados diálogos, geralmente com um desenho de som que privilegia o silêncio e dispensa trilha musical. É uma atmosfera que pode afastar grande parcela do público, mas o roteiro de Lonergan, a naturalidade de seus diálogos e interações entre personagens, tudo captado por sua câmera simples e observadora, tornam a visita muito intimista, até atmosférica. Mesmo quando “nada” está acontece, é perceptível que um contexto muito maior se desenrola ao fundo, especialmente com as pequenas sugestões e dicas que personagens vão nos oferecendo através de frases; vide os membros da cidade que sempre referem-se à Lee como “aquele Lee Chandler” ou quando um dos amigos de Patrick comenta que “aquela história não é verdade”, por exemplo.

É um pequeno mistério que vai sendo criando através dessas pequenas frases e sugestões, e Lonergan ainda merece créditos pelo cuidado impressionante com que define seus personagens através de falas ou ações. Como quando vemos Lee tomando uma dura de seu patrão no condomínio, que o repreende por xingar uma moradora, que apaticamente circula a bronca para revelar como sua quantidade excessiva de trabalho é ilegal e injusta, já nos revelando como – apesar da atitude fechada – Lee é um sujeito extremamente inteligente e capaz. Da mesma forma, os diálogos entre Lee e Patrick revelam uma peculiar relação, que é claramente é afetiva e poderosa, mas também marcada por inúmeras discussões e xingamentos, muito em parte da incapacidade de Lee em manter uma relação humana forte. E gosto muito das pequenas sutilezas do texto, como o fato de Lee sempre corrigir o nome de uma cidade de Minnesota ou quando seu sobrinho o pede para “pegar as coisas da banda e deixá-lo na casa da namorada”, algo que sempre, invariavelmente – mesmo durante uma calorosa discussão – termina com Lee respeitosamente respondendo “claro”.

Um personagem dificílimo de se interpretar, mas Casey Affleck entrega uma performance impressionante. Desde a postura mais retraída, sempre com as mãos nos bolsos e um olhar que evita fixar-se em outro ser humano, o ator faz de Lee uma figura sempre muito convincente e que provoca curiosidade e afeto do espectador, da mesma forma que nos faz temer por seu comportamento violento (Lee se envolve em duas brigas de bar sem nenhum motivo concreto) e provoca admiração pelo cuidado dedicado a seu sobrinho. Quando finalmente descobrimos o que marcou sua vida, através de uma série de flashbacks rápidos absolutamente devastadores – que aliás, são precisos ao serem inseridos justamente quando Lee tem conhecimento de que é o novo tutor de Patrick – a performance de Affleck ganha uma dimensão ainda maior e mais complexa. Sem dúvidas um trabalho digno de Oscar.

Vale atestar que, mesmo que seja Affleck quem brilhe durante a maior parte do tempo, o elenco de apoio é um dos melhores que veremos neste ano. A começar pelo estreante Lucas Hedges, que faz de Patrick um sujeito aparentemente irrelevante ao fato de ter perdido o pai, seguindo a vida normalmente enquanto tem romances com meninas diferentes e segue no time de hóquei da escola. Essa segurança é muito bem transmitida pelo ator, especialmente pela forma com que desafia seu tio e imediatamente brinca sobre isso. Porém, quando Patrick finalmente se deixa abalar, e Lonergan brilhantemente o faz durante um incômodo momento em que o personagem é incapaz de fechar a porta do freezer da geladeira (entupida de bandejas de carne), imediatamente nos ligando ao fato de que o corpo de seu pai ficaria em um congelador até o momento de seu funeral; considerando que a história se passa no inverno, um período que torna o escavamento da terra um tanto complicado. Hedges é absolutamente fenomenal nessa pequena e brilhante cena.

A outra grande atração do elenco é Michelle Williams, uma excelente atriz que ultimamente vem fazendo todas as escolhas certas em sua carreira. Na pele de Rudi, a ex-esposa de Lee, confesso que não entendia qual era o alvoroço em torno de sua performance, apenas eficiente e funcional para dispositivo da história. Porém, é por apenas uma cena, uns 5 precisosos minutos no qual tem uma conversa indescritível com Lee, que realmente vemos a força da atriz e sua carga dramática incomparável. É o tipo de cena tão natural e espontânea, que me pego imaginando o quanto daquilo estava no roteiro, e o quanto veio de Williams, dado a maestria de ambas as funções ali.

Uma masterclass absoluta na arte da atuação, escrita e direção, Manchester À Beira-Mar é um dos mais belos e devastadores filmes do ano. A partir do roteiro altamente intimista de Kenneth Lonergan, temos alguns dos momentos mais humanos e genuínos do cinema americano em muito tempo, todos executados por um elenco incrível. Do tipo de filme que não pode parar de ser feito.

Manchester À Beira Mar (Manchester by the Sea) — EUA, 2016
Direção: Kenneth Lonergan
Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Kyle Chandler, Gretchen Mol, Matthew Broderick, Heather Burns, Kara Hayward, Anna Baryshnikov
Duração: 137 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.