Crítica | Mandela

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estrelas 2,5É inegável que as expectativas com que vamos ver um certo e determinado filme têm, por mais que o tentemos evitar, um papel relevante no nível de satisfação com que, findo o seu visionamento, saímos da sala de cinema. Satisfação essa que por seu turno vai influenciar as opiniões inevitavelmente subjetivas que vamos formular e partilhar com amigos, conhecidos, leitores ou ouvintes. Neste sentido, Mandela não é excepção. Aliás, a biografia de Nelson Mandela realizada por Justin Chadwick é mesmo um caso particular, pois o seu visionamento vai, na sua primeira hora, destruir qualquer tipo de expectativa que até então tínhamos concebido em relação ao filme, para depois nos surpreender com uma segunda parte – mais ou menos a partir do julgamento do estadista sul-africano em 1962 – surpreendentemente competente, que no final nos consegue emocionar mais do que estaríamos à espera.

Essa infame primeira hora é de fato incompetente, e ficamos com a noção de que Chadwick e William Nicholson, o roteirista, se limitaram a selecionar e a tentar ilustrar alguns dos momentos mais importantes da vida de Nelson Mandela até ao início da década de 60, tendo-o feito porém com pouca sutileza e ainda menor perspicácia, efetuando alguns saltos cronológicos na narrativa e elaborando contextos que por norma parecem ser insuficientes para cada um dos acontecimentos retratados. Assim, o primeiro casamento de Mandela, que na realidade correspondeu a treze anos, despachou-se em dez minutos; os contornos das suas ações como opositor durante uma década ao regime do apartheid, em apenas meia hora; no matrimônio com a sua segunda mulher, Winnie Madikizela, nem dez minutos se investiram. E sempre que se avizinhava um momento intenso, éramos arrastados para uma cena desenrolada cinco, oito ou dez anos mais tarde, cortando-se a tensão e o interesse entretanto suscitado da nossa parte.

De certo modo, compreende-se – ordenara-se tanto a realizador como ao roteirista que adaptassem ao cinema a biografia homônima que Mandela publicou em 1994. Porém, se a ideia era ilustrar os momentos mais importantes da vida do sul-africano até ao início do seu período de cárcere, estamos perante um caso de pouca eficácia. Uma ida posterior à Wikipédia nos revela a existência de uma vasta quantidade de informação que o filme simplesmente ignorou, e percebemos que no seu visionamento ficamos com uma ideia superficial e demasiado simplista do que tinha sido o percurso pessoal e político do futuro célebre estadista até então.

Felizmente, o seu julgamento, ou talvez o seu período de cárcere, vai dar início a uma nova fase do filme, que posteriormente nos faz pensar se até então não nos limitáramos a assistir a uma introdução demasiadamente extensa e extenuante. Nesta fase a narrativa vai sorrateiramente ganhando coesão, e apesar de se manterem os saltos temporais os acontecimentos não se diferenciam tanto uns dos outros, o que origina um fio narrativo mais bem ligado e agradável de ser seguido (compreensivelmente, a própria vida de Mandela também não foi tão atribulada em termos de eventos marcantes durante a sua estadia na terrível prisão da Ilha Robben). A vulnerabilidade e a impotência do revoltoso durante o encarceramento vão ser eficazmente evidenciadas por Justin Chadwick, e vão dar oportunidade a Idris Elba para libertar o seu carisma e o seu talento. O sua personagem continua a ser relativamente superficial, mas ao menos alguns dos seus princípios encontram-se bem definidos. Durante o seu aprisionamento também a sua esposa, interpretada por uma competente Naomie Harris, é encarcerada e torturada, e Chadwick explora esta situação de forma competente o suficiente para nos sentirmos incomodados com o sofrimento que lhe é imposto. De um modo geral a história capta o nosso interesse, tal como a trajetória do seu protagonista. Alguns momentos são emotivos, outros interessantes de se seguir, e o clímax final, acompanhado por uma trilha sonora que até então fora um bocado excessiva, consegue finalmente conceder-lhe alguma grandiosidade, característica que o seu realizador almejava alcançar desde o seu primeiro minuto de duração.

É claro que a estas qualidades se contrapõem alguns defeitos, sendo particularmente evidente a superficialidade com que são abordadas todas os personagens secundários. Winnie Madikizela (a esposa), por exemplo, tem uma evolução de comportamentos repentina e um envolvimento e impacto na luta contra o apartheid que nem sempre é bem explicado. Mesmo os companheiros de Mandela, que se juntaram a ele no cárcere e que partilharam o seu sofrimento, são negligenciados, sendo o conhecimento que temos sobre as suas vidas quase nulo e o estilo que alguns dos seus intérpretes tinham demonstrado (principalmente Tony Kgoroge) um desperdício. Salta ainda à vista a escandalosa caracterização das personagens, que se estatelou por completo ao tentar envelhecer os personagens de Idris Elba e de Naomie Harris. O primeiro ostenta próteses escandalosas nos maxilares que provocam mais distração do que indiferença, causando-nos particular estranheza a cena em que a filha de Mandela o vai visitar pela primeira vez à Ilha Robben, altura em que a cara irreconhecível de Elba se parecera transfigurar de forma bizarra, como se este tivesse sido vítima de um ataque assassino de uma seringa de Botox. Harris, em contraste, simplesmente não envelhece, e enquanto devia parecer ter cinquenta ou sessenta anos, aparenta ter quarenta.

Mandela apresenta-se, em conclusão, como um filme profundamente desequilibrado, que pareceu ter um conceito demasiado exigente para o grau de talento e perspicácia do seu realizador, que se limitou a fazer o que podia ao apostar numa hora e vinte minutos finais relativamente inteligentes e coesos e alicerçando-se num desempenho notável de Idris Elba. Apesar de não passar da razoabilidade, porém, a obra em questão não nos decepciona tanto, nem sequer se torna um desperdício. É a questão das expectativas, que abordei no início deste texto. Assim não sendo, dou-me por satisfeito, descansado e agradado.

Mandela (Mandela – Long Walk to Freedom, África do Sul/Reino Unido, 2013)
Roteiro: William Nicholson
Direção: Justin Chadwik
Elenco: Idris Elba, Naomie Harris
Duração: 139 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.