Crítica | Manderlay

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estrelas 4,5

José Saramago, certa vez, afirmou que a democracia era o único tema jamais questionado. “Uma santa no altar, da qual já não se esperam milagres, mas que está lá como referência” foram as exatas palavras do escritor português. Mas para o dinamarquês Lars von Trier, nunca houve grande embaraço em abordar temas arriscados. Se em Dogville ele realiza um ataque ferino à ideia de salvacionismo do mundo, em Manderlay, lançado em 2005, seu alvo será um dos pilares da civilização – a democracia, que ele desvendará com todas as suas chagas abertas e expostas sem qualquer piedade (nem de seus personagens, nem do espectador). O filme que dá continuação à trilogia EUA – Terra de Oportunidades, acompanha os passos de Grace (agora interpretada por Bryce Dallas Howard) ao chegar à pequena cidade escravocrata de Manderlay.

A estética é a mesma de Dogville. O cenário continua sendo um palco, dessa vez maior, com linhas negras no chão marcando as ruas, as casas e até a plantação onde os escravos trabalham. A trilha sonora segue impulsionada pela música barroca de Vivaldi e Händel e a divisão em capítulos, como se fossem livros bíblicos, permanece como estrutura narrativa. Lars von Trier mantém a identidade estética de seu primeiro filme. Mas agora Grace chega a Manderlay e encontra uma cidade que não demora a revelar seu estado de degradação (ao contrário do filme anterior). Os habitantes mantêm abertamente um regime de escravidão negra, mesmo após 70 anos de abolição da escravatura. A jovem, que expurgara Dogville do mundo, decide implantar um regime democrático na cidade, em que os escravos fossem libertados e pudessem viver em igualdade com seus antigos proprietários.

É interessante notar que os negros, especialmente Timothy (Isaach De Bankolé), desconfiam das intenções de Grace desde o primeiro momento. Eles resistem à tentativa da jovem de “salvar negros infelizes”. O filme expõe, desde o princípio, a sua grande questão: Qual será a pior escravidão? Aquela que os mantem atados aos grilhões ou aquela que os aprisiona pela eterna gratidão e pela dependência de seus benfeitores brancos? O escravo Timothy afirma que “os brancos fazem os negros”, isto é, um grupo governa os destinos do outro tanto na escravidão como na liberdade. A decisão de escravizar coube à velha senhora branca e a de libertar, à recém-chegada Grace. A mão que chicoteia é a mesma que liberta (a “mão auxiliadora”) e ambas abrem feridas que jamais se fecharam na história norte-americana.

A tempestade de areia que atinge Manderlay, lançando escuridão sobre a cidade, parece aludir ao episódio bíblico das dez pragas do Egito. O Deus de Israel, diante da resistência do faraó em libertar o povo hebreu, decide lançar sobre os egípcios uma série de calamidades. Dez pragas se abatem sobre eles e, dentre elas, destaca-se a nuvem de gafanhotos que destrói toda a sua plantação. Após a décima praga, com seu povo arrasado e seus deuses humilhados, o faraó permite enfim que os hebreus deixem suas terras. Já na cidade criada por Lars von Trier, a espera pela liberdade dura 70 anos e também é alcançada após um verdadeiro cataclismo, ao final do qual brancos e negros trabalham lado a lado para reconstruir toda a cidade, incluindo sua plantação (destruída do mesmo modo que ocorre na história bíblica). O tom fabular que o diretor dá à tempestade em Manderlay a enriquece incrivelmente.

Libertados os escravos e instaurada a democracia na cidade, surgem as questões mais complexas e espinhosas do filme. O Livro da Senhora, contendo todas as leis que determinavam o comportamento e as obrigações dos negros nos tempos de escravidão, dá lugar a votações constantes, em que todos os ex-escravos são ouvidos. É nesse exato ponto que surge o grande nó górdio da obra. Tal como ocorre em Dogville, os habitantes de Manderlay tomam todas as decisões em conjunto. Ninguém é privado de falar e de votar e o que vemos em ambos os filmes é um modelo bastante convincente de democracia. No entanto, nada disso impede que uma decisão terrível seja tomada em relação à personagem Wilma (Mona Hammond) e o impacto nauseante de uma crudelíssima injustiça perturba não só a personagem Grace, mas também o espectador. A cena em que se cumpre a sentença é provavelmente a melhor e a mais excruciante de todo o longa-metragem.

A democracia em Manderlay não salva a cidade da perversão. O francês Alexis de Tocqueville, um dos grandes críticos da democracia no século XIX, que foi à América observar in loco o nascimento da democracia norte-americana, dizia que um dos grandes riscos desse tipo de regime é o surgimento de uma tirania da maioria. É precisamente isso que se vê no filme – uma maioria que agora toma todas as decisões, sejam elas justas e benevolentes ou não. A violência nas relações entre os habitantes permanece e agora pode produzir destruição e morte justificadas pela bandeira da democracia. A ex-escrava Wilma fora democraticamente julgada por seus concidadãos, assim como todos aqueles barbaramente levados às cadeiras elétricas nos EUA. Não é coincidência que o final do filme inclua, dentre tantas imagens, a foto de uma sala de injeção letal, outro método de execução essencialmente estadunidense.

Tocqueville alerta para outro importante problema nos regimes democráticos. Ao contrário das monarquias, a democracia baseia-se em um conceito muito mais abstrato – o de maioria, que, sendo um grupo, não tem um rosto. Como combater o despotismo de uma maioria se, ao contrário de um rei absolutista do século XVIII, ela é uma abstração e não pode ser facilmente localizada ou personificada? Ainda mais imaterial é o conceito de “governo do povo”. Assim sendo, a democracia tem uma enorme vocação para criar uma opinião pública, aceita retoricamente como a verdade a ser cumprida. Vemos isso em todas as votações em Manderlay, desde aquela que decide a propriedade de um ancinho ou o horário adotado na cidade, àquela que determina a vida e a morte de seus habitantes. Quando dois ou três votantes erguem o braço para escolher sua opção, rapidamente surgem outros a apoiá-los.

Há ainda um elemento interessante que Lars von Trier introduz no filme e que talvez explore mais na terceira parte de sua trilogia. Grace, estuprada repetidas vezes em Dogville, começa a sentir um desejo sexual incontrolável. A razão, que governava seus atos até ali de modo tão resoluto, começa a dar sinais de fraqueza frente às suas paixões mais íntimas. Grace sente-se ameaçada por uma nova dimensão humana que reconhece em si mesma. O filósofo holandês Baruch Espinoza trata disso em seu pensamento político. Ele afirma: “Se estivesse tanto em nosso poder vivermos segundo os preceitos da razão como conduzidos pelo desejo cego, todos se conduziriam pela razão e organizariam sabiamente a vida, o que não acontece minimamente, pois cada um é arrastado pelo seu prazer”. O diretor enuncia essa ideia em Manderlay, ainda que sem desenvolvê-la por completo.

A democracia norte-americana continua oferecendo seus problemas nos dias atuais. A experiência que os negros de Manderlay tem com ela, no curto prazo em que Grace permanece na cidade, deixa clara a dificuldade de inclusão dessas pessoas na sociedade mais rica do mundo. O que Lars von Trier revela vai muito além de afirmar que o oprimido se acostuma à opressão e passa a desejá-la. O que ele deixa claro é que as inúmeras vicissitudes da democracia estadunidense terminam por torná-la não um abrigo às diferenças raciais, mas um regime perigosamente excludente, em que a maioria branca continua exercendo sua opressão sobre a minoria negra, mas com um modus operandi muito mais velado e amorfo. A democracia na América fabricou, portanto, a mais bela e atraente gaiola dourada de que se tem notícia. Afinal, como diz a última frase do filme, se alguém se recusasse a ver uma “mão auxiliadora”, a culpa seria dele. Só dele.

Manderlay – Alemanha / Dinamarca / Estados Unidos / França / Holanda / Suécia, 2005
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Danny Glover, Willem Dafoe, Michaël Abiteboul, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Geoffrey Bateman, Llewella Gideon, Mona Hammond, Zeljko Ivanek, Ginny Holder
Duração: 139 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.