Crítica | Mangler, O Grito de Terror

A capa do filme pode até atrair os mais desavisados, afinal, como não se interessar por uma produção dirigida por Tobe Hooper, o mesmo do interessante O Massacre da Serra Elétrica? Ah, o filme traz em seu elenco o ator Robert Englund como o vilão da história, responsável por dar vida ao icônico Freddy Krueger, da franquia A Hora do Pesadelo. E para a cereja do bolo, temos a adaptação de um conto do mestre Stephen King, conhecido por criar personagens icônicos na literatura e no cinema, tais como Carrie – A Estranha, o cachorro ensandecido de Cujo e o pai de família possuído em O Iluminado.

Quer mais? Temos ainda Ted Levine, do ótimo O Silêncio dos Inocentes como o investigador dos problemas envolvendo a trama. Diante de tanta exposição, o leitor pode pensar que Mangler, O Grito de Terror talvez seja uma obra-prima do medo. Quem pensou assim, engana-se plenamente. Tobe Hooper, Robert Englund e Ted Levine estão possivelmente no pior momento de suas respectivas carreiras. Esta produção que absurdamente tornou-se uma franquia é a soma de tantos absurdos que é praticamente impossível entender como conseguiram construir uma sequência diante de um roteiro que não diz nada ao espectador.

Quando começou a se envolver com a produção, Hooper já estava em descrédito com o gênero. Suas contribuições ao longo dos anos 1980 foram ruins e esquecíveis. Para ganhar moral novamente, o cineasta decidiu adaptar um conto pouco interessante de Stephen King. Como o escritor era uma febre e suas obras rendiam tantos filmes, o realizador achou que poderia voltar ao status de antes. Enganou-se. Mangler – O Grito de Terror é ruim do começo ao fim, sem ao menos uma cena memorável.

Ao assinar a direção e o roteiro, Hooper entrega ao público a insatisfatória história a seguir: uma lavanderia é apresentada nas primeiras cenas. Logo, saberemos que a mocinha Sherry Oulette (Vanessa Pike) cortou-se numa maquina, mas o patrão “burlesco” de tão exagerado não se importa com o acontecimento e coloca todo mundo de volta ao trabalho. Antes de entrar em cena o detetive John Hunton (Ted Levine), um homem amargo por conta da morte prematura de sua esposa, há alguns conflitos confusos e pouco críveis sobre uma geladeira e um curto-circuito, situações sem a devida justaposição na narrativa e qualquer importância para o “enredo”.

Escalado para dar conta da investigação, Hunton descobre que uma das empregadas morreu ao ter sido sugada pela máquina de secar roupas, intitulada Mangler. Inicialmente todos pensam ser um acidente trágico, mas uma sucessão de acontecimentos absurdos e sem conexão com a verossimilhança nos leva a acreditar que há algo demoníaco por detrás da situação. Abusivo, o roteiro conta com outro personagem para resolver os seus conflitos: Mark Jackson (Daniel Matmor), cunhado do detetive, homem que flerta constantemente com ocultismo.

Inicialmente, as pessoas não acreditam em suas histórias sobre possessão demoníaca, mas as coisas sobrenaturais começam a acontecer com maior frequência, numa lista de mortes que cresce vertiginosamente. O que entra em cena? Outra série de situações sem noção alguma que só podem ter sido escritas para brincar com a inteligência do espectador: o sangue da garota machucada no começo do filme teria despertado a máquina assassina, pois ela é virgem.  O curto-circuito que aparentemente tinha algum sentido revela-se desnecessário para a condução da história que ainda conta com a tal geladeira sendo deslocada de lugar lá no primeiro ato, mas que surge no final como parte do processo amaldiçoado da lavanderia.

Ainda não está satisfeito? Pois assista ao filme e tente não ficar entediado com os diálogos ruins, atuações infames e design visual pobre, além da trilha clichê e da direção ruim de um cineasta que já havia mostrado competência em outras produções bem mais interessantes e satisfatórias. Mangler, O Grito de Terror faz parte do painel de filmes ruins que não dão prazer algum em assistir. Anaconda 3, Cinderela Baiana, O Grito 2 e Oblivion são filmes terríveis de gêneros cinematográficos distintos, fracos, sem explicação para existir, mas que ao menos nos divertem. Já esta adaptação de King por Hooper, além de ser muito ruim, nos preenche com tédio e dificilmente será vista mais de uma vez.

Mangler, O Grito de Terror (The Mangler) — Austrália/ EUA, 1995
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Tobe Hooper, Stephen David Brooks, Harry Alan Towers (baseado no conto A Máquina de Passar Roupa, de Stephen King)
Elenco: Robert Englund, Ted Levine, Daniel Matmor, Jeremy Crutchley, Vanessa Pike, Demetre Phillips, Lisa Morris, Vera Blacker, Todd Jensen, Sean Taylor
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.