Crítica | Mangue Negro

estrelas 3

As vantagens de se produzir um filme de terror no Brasil são grandes. Mesmo que a história não seja digna, o interesse dos críticos, dos acadêmicos e dos cinéfilos é aguçado por conta da lacuna deste gênero na história do cinema brasileiro. Temos o legado de Zé do Caixão, indiscutivelmente um lutador que hoje é visto como parte integrante do cânone, mas que no passado era tratado com desleixo. Condado Macabro, em 2015, apresentou uma versão bem brasileira do gênero slasher e não decepcionou.

Mangue Negro, lançado muito antes, em 2008, também “inaugurou” os filmes com a temática “zumbi” por aqui. O resultado não é uma obra-prima, mas é no mínimo curioso. Como dito anteriormente, o fato de não termos este tipo de produção como algo constante torna a obra objeto de curiosidade e culto. Dirigido por Rodrigo Aragão, a produção aborda uma contaminação num mangue no interior do Espírito Santo, um dos estados menos favorecidos como espaço fílmico nos registros da nossa cinematografia.

A tal contaminação se espalha rapidamente e transforma os pescadores da humilde comunidade em monstros devoradores de carne humana. Apresentado no formato que lembra esquetes, haja vista a sequência de diferentes linhas narrativas que se encontram mais adiante, o foco central do roteiro é o amor do carinhoso Luís (Walderrama dos Santos), dedicado cotidianamente a doce Raquel (Kikka de Oliveira). Ele constantemente tenta se declarar, mas as suas investidas descem por água abaixo, ganhando projeção apenas quando o apocalipse zumbi se instala e assumindo a postura do herói ao estilo Ash, de Evil Dead, Luís precisa tomar o comando da situação e tentar salvar a si e a sua amada.

Na seara dos aspectos narrativos o filme não fica devendo aos vastos filmes estrangeiros sobre o tema. A abordagem com tons brasileiros ganha notoriedade, com personagens próximos da nossa realidade, tal como o catador de caranguejos ou a benzedeira. Através de um eficiente banho de sangue, concebido através dos efeitos especiais e da maquiagem assinada por Aragão, profissional múltiplo que atribuiu para si as funções de diretor, roteirista e design, Mangue Negro possui traços que o tornam um exemplar paralelo aos clássicos Evil Dead – A Morte do Demônio, Fome Animal e A Noite dos Mortos Vivos.

No que diz respeito aos aspectos técnicos, o destaque fica por conta da trilha sonora visceral, concebida pela Orquestra Sinfônica do Espírito Santo. Os enquadramentos, movimentos e demais detalhes visuais não ousam muito, pois a direção prefere a abordagem com um tom relativamente didático.

Diante do exposto, podemos afirmar que Mangue Negro é um filme perfeito? Não. A narrativa escorrega e perde um pouco do ritmo num momento crucial, que nos manuais de roteiro, chamamos de terceiro ato. O bom é que a coisa engata adiante, fecha a narrativa dignamente, salva as devidas proporções e o seu conceito de dignidade. Apesar do roteiro formulaico e do excesso de podreiras, o filme ganha a nossa simpatia por seu ousado, meticuloso e inspirado. Ademais, diferencia-se do que constantemente o Brasil produz, saindo da zona de conforto que durante muito tempo foi característica dos filmes produzidos por cineastas brasileiros.

Mangue Negro Brasil, 2008 
Direção: Rodrigo Aragão
Roteiro: Rodrigo Aragão
Elenco: Ricardo Araújo, Kika de Oliveira, Walderrama Dos Santos, Markus Konká, André Lobo, Antônio Lâmego, Maurício Ribeiro, Reginaldo Secundo, Julio Tigre
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.