Crítica | Manhattan (1979)

estrelas 4,5

A reflexão sobre a vida, o amor por uma cidade e a constante procura por alguém — dentro de uma ciranda insana de abandono e acolhimento — são os principais ingredientes de Manhattan (1979), o primeiro filme em preto e branco de Woody Allen e um de seus longas mais líricos. Recém saído do bergmaniano Interiores (1978), Allen encontrava-se em uma fase onde o drama lhe parecia mais atraente, mesmo nas comédias, e esta linha de abordagem se estendia tanto para os diálogos e ideias defendidas quanto na estética fílmica escolhida. Ao lado do diretor de fotografia Gordon Willis, o “mestre da escuridão”, com que trabalhava desde Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), o diretor conseguiu representar uma cidade em todas as suas nuances possíveis (ou as mais interessantes, pelo menos), assim como parte das muitas facetas humanas que nela habitam ou que por ela passam.

Allen vive aqui um homem recém divorciado que passa pela vergonha pública de ter detalhes sobre seu casamento lançados em um livro escrito pela ex-esposa (Meryl Streep), agora casada com outra mulher. Nesse meio tempo, ele segue com um relacionamento ilegal com uma garota de 17 anos, Tracy, interpretada com grande doçura pela bela Mariel Hemingway, então com 18 anos; e com a neurótica e indecisa Mary, papel de Diane Keaton, sempre muito bem à vontade e com personagens muito bem trabalhadas nos filmes de Allen. O ciclo insano de relacionamentos se fecha com Yale (Michael Murphy), que tinha um caso extraconjugal com Mary. Todas essas relações são propositalmente colocadas como mini-crônicas dentro do filme, mostradas como detalhes comuns que acontecem o tempo todo em uma grande cidade mas que raramente prestamos atenção, exercício sempre instigante de se ver no cinema, não importa a intensidade ou o contexto urbano em que isto é mostrado, vide tão diferentes abordagens feitas para o tema em A Turba ou Que Fiz eu Para Merecer Isto?, só para citar dois exemplos de diretores e épocas diferentes.

Depois de sua precoce chegada à maturidade na direção em Annie Hall, Woody Allen mostrava cada vez mais interesse em dominar estruturas narrativas múltiplas, concatenando diversas histórias em um tipo de “comédia de erros” que fazia os personagens interagirem o máximo possível, algo que poderíamos até chamar de roteiro cíclico, não no conteúdo central mas na dinâmica de personagens, que possuem histórias separadas e trabalhadas individualmente, encontrando-se mais adiante. Claro que o recurso não é novo no cinema (e foi importado do teatro), mas Allen, talvez por sua história anterior como comediante stand up e também como dramaturgo, sempre teve um domínio tremendo de tal estrutura, tanto no roteiro quanto na direção, e isso já desde o início da carreira, vide Bananas (1971).

Levando isto em consideração, Manhattan se constrói muitíssimo bem como uma colcha de retalhos amorosos e dramas pessoais de seus personagens, alguns mais explorados que outros, mas todos eles com figurações satisfatórias e precisas na trama. A interação entre os casais, os desejos não ou mal resolvidos, a insegurança e o diverso comportamento de cada um (um único desses comportamentos sendo terrivelmente infantil e mal inserido na obra, o de Isaac, que pede a Tracy para não ir a Londres no final da película) dão ao filme um caráter humano, cômico e ao mesmo tempo dramático, correspondendo ao objetivo principal da fita que era mostrar a cara de uma cidade através de um ponto de vista e dentro de inúmeros possíveis caminhos.

E é com a cidade (e na cidade) que o grande ciclo e circo e fecha, porque Nova York também é uma personagem do filme. A escolha pela fotografia em preto e branco é uma primeira indicação de que o diretor queria imortalizar, tornar clássica, exibir a “sua cidade” com o máximo de glamour — e decadência — possível, tornando absolutamente todo o cenário em locações algo interessante de se ver e com ideal significado para a história, com destaque para a bela cena no Planetário. O trabalho de Gordon Willis alcança ali um caráter plasticamente tão forte que é uma tentação enorme não querer voltar para o começo da sequência e ver tudo novamente.

Ao som de uma trilha sonora quase que inteiramente de George Gershwin (exceção ao primeiro movimento da 40ª Sinfonia de Mozart, que toca em um concerto que os dois casais protagonistas vão assistir) e a grande exploração da escuridão em internas e externas que Gordon Willis trouxe para o filme, nós temos a sensação de que a cidade também sente, tem seus momentos crepusculares contrastados com suas belas tardes iluminadas, pessoas e coisas para ver e comprar. Um jogo de exibição de mundos particulares (os lares de cada um) e o mundo comum (a cidade) pode muito bem definir Manhattan, especialmente pelo já dito caráter cronista que marca a escrita das várias histórias no filme.

Ser feliz, amar e ser amado são três das coisas mais almejadas pela humanidade. Mas e quando tudo parece ir contra esse desejo justamente nas áreas em que supostamente nós deveríamos ter algum controle? Manhattan parece olhar para essas perguntas e anseios e rir um pouco de cada um deles, talvez pensando que em algum lugar, talvez na rua da frente ou no distrito ao lado há alguém bem pior que aquele que se lamenta ou muito melhor do que aquele que se julga feliz. O filme é certamente uma carta de amor a Nova York mas é ao mesmo tempo uma carta irônica aos seus habitantes e visitantes — ou a todos aqueles que vivem em uma grande cidade à procura de alguma coisa, talvez apenas viver bem, amar e ser feliz, nem que seja por um momento ou dois.

Manhattan (EUA, 1979)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne Hoffman, Karen Ludwig, Michael O’Donoghue
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.