Crítica | Manhunt: Unabomber

A Revolução Industrial e suas consequências foram um desastre para a raça humana.
– Ted Kaczynski

Manhunt: Unabomber é uma daquelas minisséries em que a história, por si só, é tão interessante, que ela “se vende” sozinha. Afinal, um dos mais famosos terroristas do mundo, Ted Kaczynski, aterrorizou os EUA de 1978 a 1995, enviando cartas e pacotes-bomba pelo correio, ceifando a vida de três pessoas e ferindo e mutilando outras 23. Além disso, de sua própria maneira tortuosa, o assassino foi também o autor de um manifesto anárquico anti-industrialização intitulado A Sociedade Industrial e Seu Futuro, que, se por um momento esquecermos que vem de quem vem, merece nossa atenção especialmente nos dias de hoje, em que o que ele prevê em sua obra realmente parece estar acontecendo, com nossas vidas cada vez mais restringidas por aspectos que nem mesmo enxergamos como restritivos, como um prosaico sinal de trânsito, usado, na série, como símbolo dessa questão.

Criada por Andrew Sodroski, Jim Clemente e Tony Gittelson, a série tem esse mérito: provocar a curiosidade e levantar pontos de discussão que vão além da investigação em si. Os aspectos principais da visão do Unabomber (Paul Bettany) são explorados e ecoados na atitude do agente do FBI James Fitzgerald (Sam Worthington) e costurados como mola propulsora para a engajante narrativa em eficientes oitos episódios. Mas não há glorificação para os atos de Kaczynski e nem uma tentativa de justificá-los (embora haja, na segunda metade, uma tentativa de racionalização, como abordarei mais adiante). O que se procurou fazer, porém, é abrir espaço para o debate sobre o manifesto – espaço esse que me levou à leitura do texto, confesso – em meio a uma fascinante investigação linguístico-forense capitaneada por Fitzgerald que, apesar de ser baseado em personagem real, é mais uma amálgama de dezenas de agentes que, durante quase duas décadas, se dedicaram à captura do insano terrorista.

Acertadamente, evitou-se diluir o foco com um roteiro cronológico desde o começo das investigações, pois havia o risco da estrutura perder-se em idas e vindas ao longo das décadas, o que exigiria até o envelhecimento dos personagens. Muito ao contrário, portanto, a minissérie aborda apenas o final da caçada, ou melhor, os finais. Inteligentemente, vemos duas épocas distintas sendo abordadas em esquema de “revezamento”, com a primeira sequência se passando no “presente”, ou seja, em 1997, com Fitzgerald, morando em uma cabana no meio do nada com coisa nenhuma, sendo mais uma vez arregimentado pelo seus chefes do FBI, mas desta vez para convencer Ted Kaczynski a declarar-se culpado por seus crimes. Com isso, a construção do personagem de Worthington já parte de um mistério ou, pelo menos, de uma pergunta: como ele foi parar ali? Mas logo a ação é rebobinada para dois anos antes, em 1995, quando Fitzgerald, graduado tardiamente, mas com honras, como perfilador criminal em Quantico (vale muito assistir Mindhunter antes para uma excelente contextualização dessa especialização), é incluído na equipe dedicada à investigação sobre o Unabomber.

Nessa capacidade, o agente novato tem uma epifania com base no manifesto do terrorista, passando a investigá-lo não como seus chefes exigem, mas sim desbravando um campo de análise forense que ele basicamente inventa: a linguística forense. Pode parecer algo específico demais – e certamente seus superiores acham uma besteira sem fim, sem base científica alguma -, mas é na profunda análise da estrutura gramatical e semântica do texto de Kaczynski que Fitzgerald começa a desfazer a imagem que o FBI tinha do assassino, reconstruindo-a como algo muito mais complexo e sinistro. A intercalação temporal entre 1995 e 1997 não obedece um padrão fixo, com os roteiros focando em uma época mais do que a outra na medida em que a história progride, o que nos permite juntar as peças do quebra-cabeças que coloca o protagonista e o antagonista não em uma rota de colisão propriamente dita, mas sim em uma surpreendente descoberta de que eles são, lá no fundo, almas gêmeas. A exploração da construção de um novo campo de estudo forense de um lado e o paralelismo das vidas do agente e do terrorista são o que, além da fascinante história em si, dão o gosto especial à minissérie, algo que ganha uma paleta de cores emudecida, de tons acinzentados e escuros, denotando pessimismo e um certo niilismo emanante das duas forças opostas, mas não tão opostas assim.

Paul Bettany, sem dúvida alguma, é o ponto alto da obra. Apesar de sua presença a frente das câmeras não ser constante, os detalhes sutis que ele empresta à construção de seu Ted Kaczynski são de se tirar o chapéu. E o interessante é que o roteiro ajuda nessa construção, pois, primeiro, aprendemos sobre o personagem sem o ver e só depois somos apresentados fisicamente a ele e o encaixe é perfeito. Com uma expressão facial constante, ele erige a personalidade de Ted com olhares, pequenas movimentações da boca e quase inexistentes trejeitos corporais. Vemos, muito facilmente, um homem altamente inteligente, mas atormentado por demônios internos que vê em Fitzgerald (os dois nunca se encontraram na vida real) um oponente à altura.

Sam Worthington, por outro lado, apesar de ter todo o espaço do mundo ao longo dos oito episódios e de seu papel ser escrito para espelhar o de Bettany, não tem exatamente a mesma sorte. Sua latitude dramática é reconhecidamente limitada e seu papel exige muita sutileza, algo que ele nem sempre consegue entregar, recorrendo muitas vezes a olhares clichês mais dramáticos e, por várias outras, a sua famosa “cara de paisagem”. Inegavelmente, porém, o ator se esforça aqui e, nos momentos em que ele precisa confrontar Don Ackerman (Chris Noth, sempre o canastrão simpático) e Stan Cole (Jeremy Bobb, muito bem), seus chefes, ele cumpre bem sua função passando frustração e ambição nas medidas certas.

Os maiores problemas da minissérie, porém, não são relacionadas à atuação de Worthington. Apesar de curta, os roteiros são surpreendentemente repetitivos, com diversos momentos em que Fitzgerald lida com situações impossíveis que são resolvidas olhando para uma folha de papel escrita por Kaczynski (normalmente colocada no chão) e, ato contínuo, magicamente resolvidas, só faltando aquela “lâmpada” representativa de “ideia brilhante” aparecer ao lado. Da mesma maneira, seus superiores não evoluem, sendo escritos igualmente do ponto A ao ponto C, sempre como os principais obstáculos para o que Fitzgerald quer fazer, seguindo, também um padrão evidente: a nova estratégia é apresentada, ela é negada, ignorada e/ou desdenhada e, então, depois, ela é usada sempre depois de ameaças do tipo “sua carreira acabará se não der certo”. Cansa um pouco, mas não retira a curiosidade que é ver o desenvolvimento da linguística forense de um lado e a atuação de Bettany do outro, além da intrigante filosofia de Kacsynski.

No entanto, o maior ponto negativo foi o episódio 6 – “Ted” – focado no passado do referido personagem. Não pretendo entrar no mérito se o que vemos ali aconteceu ou não de verdade, pois não estamos discutindo um documentário. O ponto é que, ao vermos a infância e juventude do antagonista, aprendemos que há um racional por trás dos atos que ele comete, em uma típica sequência de “origem do mal”. A narrativa da minissérie em nada ganha com isso que não seja uma tentativa – que não funciona – de aumentar nossa empatia pelo terrorista, algo que já vinha sendo naturalmente construída por intermédio de suas ideias e, claro, da atuação de Bettany. Remexer o passado torna-se, portanto, apelativo, fazendo com que a minissérie ande de lado nesse momento. Teria sido muito melhor se houve mais foco no presente, com outros embates verbais entre ele e Fitzgerald ou mesmo uma exploração um pouco mais detalhada da estratégia jurídica de defesa.

Manhunt: Unabomber já nasce vitoriosa por explorar um dos mais impressionantes casos de terrorismo doméstico nos EUA, ganhando nossa atenção imediatamente não só pela técnica investigativa de Fitgerald, como também – e principalmente – pela performance de Bettany. Há problemas que ficam especialmente salientes por ser uma minissérie curta, impedindo-a de alcançar níveis ainda mais altos. No entanto, sem dúvida alguma é um trabalho que, de uma forma ou de outra, ficará na mente do espectador que conseguir glosar os problemas em prol de um fascinante estudo de um personagem real.

Manhunt: Unabomber (EUA, 1º de agosto a 12 de setembro de 2017)
Criação: Andrew Sodroski, Jim Clemente, Tony Gittelson
Direção: Greg Yaitanes
Roteiro: Andrew Sodroski, Jim Clemente, Tony Gittelson, Max Hurwitz, Nick Towne, Steven Katz, Nick Schenk
Elenco: Sam Worthington, Paul Bettany, Jeremy Bobb, Keisha Castle-Hughes, Lynn Collins, Brían F. O’Byrne, Elizabeth Reaser, Ben Weber, Chris Noth, Jane Lynch, Katja Herbers, Michael Nouri, Mark Duplass
Duração: 42 min. por episódio aprox. (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.