Crítica | Maniac (2018)

“O que você acha que há de errado em você?
Eu estou doente. E eu não importo.”

Contém moderados spoilers.

A mente é, por excelência, adoecida. Ao pensarmos, deliramos. Algumas pessoas imaginam outras, enquanto outras imaginam vozes em suas cabeças. Maniac é um estudo, por parte dos cineastas Patrick Sommerville e Cary Fukunaga, responsável pela direção dos episódios da primeira temporada de True Detective, da conversa do ser humano com o seu psicológico, desvencilhando-se para encontrar soluções para as tantas problemáticas que acometem suas e nossas mentalidades. Há de existir alguma cura? A minissérie, contendo dez episódios, caminha por uma reta linear, em seus primeiros momentos, para conectar Annie Landsberg (Emma Stone) com Owen Milgrim (Jonah Hill), ambos prestes a participar, por distintas razões, de um procedimento farmacêutico, que visa a cura da mente humana. Os personagens são criaturas derrotadas – ela, com depressão, e ele, com esquizofrenia. Os traumas do passado e as alucinações do presente são uma constante para os protagonistas, dispostos, portanto, na margem de suas respectivas sanidades. As motivações dos dois convencem o espectador, remetendo-se aos interesses e desinteresses dos personagens neste teste, mas Maniac, durante o processo de estabelecimento da premissa e do universo, demora para engrenar e se propor, finalmente, à jornada de restauração, muito mais relevante no mundo das ideais do que no mundo real. Quando as luzes tornam-se vermelhas e os olhos se fecham, o verdadeiro espetáculo começa.

A realidade pensada na minissérie, adaptada da série televisiva norueguesa de mesmo nome, é uma distopia consideravelmente atemporal, dando a sensação, para os espectadores familiares com a antologia Black Mirror, de um ambiente conhecido, prestes a ser desbravado através de críticas sociais extremamente afiadas. Mas a distopia não é, no final das contas, muito relevante. Já os avanços tecnológicos, de um outro lado da mesma moeda, são, por se misturarem com o caráter farmacêutico em um âmbito meramente químico, igualmente possibilitando uma piração narrativa pautada em “fidedignidade”. O cineasta, todavia, não propõe exageros das características humanas do nosso presente, transformadas em possíveis caricaturas, apenas desenvolvendo algo do tipo em relação aos serviços de anúncios, que, por outro lado, não carregam bagagem suficiente para sustentar toda uma escolha estilística – sendo uma simples alavanca narrativa. As doenças mentais, por sua vez, são temáticas inexoráveis às gerações que passaram e passarão. Ademais, a dimensão da empresa farmacêutica ganha, em consequência do seu estabelecimento inicial, uma atenção inesperada, mostrando uma maior preocupação de Fukunaga nesse âmbito, mas, ao mesmo tempo, também abrindo uma segunda vertente temática, igualmente a uma outra linha de raciocínio sobre a mesma tese. O computador responsável pelo procedimento todo, afinal, adoece justamente ao aproximar-se do ser humano, passando a sentir.

As viagens, ferramentas do teste, são muito parecidas com os sonhos de A Origem, porque também sugerem imersões dentro de imersões, apesar de, aqui, em um âmbito mais contido. O roteiro, contudo, entende que não há necessidade de explicar, a não ser sobre as especificações técnicas do processo, os miúdos desse procedimento, também compartilhando, nas aventuras, traços de A Viagem. Quando as passagens começam a se mesclar, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças é uma comparação bastante óbvia, ainda mais em decorrência da narrativa que começa a ser estabelecida, juntando os protagonistas, como amigos interligados, em diferentes realidades – para não chamá-los, em um outro nível, de amantes. Já sobre a grande antagonista da minissérie, o computador super inteligente, responsável pelo processo inteiro, a ideia de sua existência resgata elementos clássicos do combate entre o ser humano e a máquina, presente em diversas mídias, como no clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço. O trabalho imaginativo, em termos gerais, revela ser, dessa maneira, um apanhado de diversas características previamente existentes, de obras verdadeiramente criativas, mas que, juntas em direção a um mesmo caminho, tornam-se uma nova premissa de ficção científica. A ideia central permanece, enquanto Maniac desdobra-se, entendendo seu enredo como uma busca pela cura mental dos personagens ali dispostos. A série é, majoritariamente, centrada.

Ao passo que os protagonistas atravessam fantasias em suas mentes – em cenários extremamente ricos visualmente -, novas camadas vão sendo adicionadas à superfície da empresa como empresa, contando com o Dr. James Mantleray (Justin Theroux), outra personalidade gravemente adoecida, como figura central dessa narrativa coincidente. O surgimento da personagem Greta Mantleray (Sally Field), sua mãe, impulsiona algumas virtudes de questionamento ético, apesar da série quebrar-se, consideravelmente, em relação ao seu modesto texto. Os diálogos, especialmente os mais dissertativos, não são muito bons, como, por exemplo, evidencia as passagens em que Owen alucina com a versão imaginária de seu irmão, nomeada Grimsson (Billy Magnussen). As cenas, à base de diálogos mais contemplativos, sem muito apego à realidade, são fracas, mostrando o quanto Fukunaga, pouquíssimas vezes, não sabe explorar as proposições fantásticas existentes nos roteiros dos seus episódios. A mescla entre amadorismo e profissionalismo que adota, em alguns casos, para o imaginário – em sub-histórias aleatoriamente magníficas -, contudo, é muito interessante, aparecendo em diversas passagens, como quando Annie, em um mundo diretamente importado de O Senhor dos Anéis, atira seu arco e flecha. A mesma sensação aparece com a personagem incorporando uma espiã, durante um plano-sequência formidável, onde a personagem não mostra possuir tantas habilidades coreográficas, atirando de modo simplificado nos inimigos, justamente por não ser uma espiã – e nem, antes, uma arqueira.

O elenco, por sorte, contrariando essa característica do roteiro, permite a obra crescer imensamente. Aqui, Jonah Hill está – mais distante impossível – longe da sua veia cômica, enquanto Emma Stone também incorpora um dos papéis mais carregados de sua carreira. A grande pena é que as tramas, espalhadas pelos dez episódios, soam passar por uma considerável redundância, mesmo com o apego, por parte da produção, por episódios sem durações definidas, variando bastante. James, além disso, é um personagem que merecia melhor tratamento, sem casar-se, completamente bem, com a sua faceta mais jocosa – o beijo final é desastroso. Sobra Greta – e sua versão digital -, além da performance de Field, para ser uma incrível carta na manga, anunciando mais impacto para o espectador, diante de uma minissérie que, enfim, embasa-se sobre a loucura, mas, principalmente, sobre a mente invariavelmente louca. Os personagens são todos seres destroçados, à procura de algo – desde o próprio Dr. Robert Muramoto (Rome Kanda). A conclusão, portanto, nos leva a acreditar em harmonia mental, quando os pedaços de uma pessoa se juntam nos de outra, possibilitando coesão e, quem sabe, cura. Um medicamento, de qualquer forma. O grande diagnóstico de Owen, curiosamente, não é a sua esquizofrenia, mas a sua covardia. Como A Primeira Noite de um Homem, Maniac se encerra de maneira ambígua. Os personagens não sabem o futuro que existe além das suas atitudes no aqui e agora, mas a obra não encara a decisão de fugir, nesse caso, como impulsiva, mas como corajosa, possibilitando o ser humano caminhar mesmo após tantos percalços e perdas.

Maniac – EUA, 21 se setembro de 2018
Criado por: Patrick Sommerville
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Patrick Sommerville, Caroline Williams, Nick Cuse, Mauricio Katz, Danielle Henderson, Amelia Gray, Cary Joji Fukunaga
Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Justin Theroux, Sonoya Mizuno, Gabriel Byrne, Sally Field, Kathleen Choe, Stephen Hill, Danny Hoch, Allyce Beasley, James Monroe Iglehart, Alexandra Curran, Julia Garner, Rome Kanda, Billy Magnussen
Duração: 26 a 47 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.