Crítica | Manto & Adaga – 1X07: Lotus Eaters

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Manto & Adaga, aqui.

Manto & Adaga tem surpreendido positivamente o espectador que havia pensado já ter sacado qual seria a pegada da produção com base nos seus episódios iniciais. A série, que abriu com um drama super-heróico televisivo sólido ao estilo dos melhores momentos de Heroes e passou por um flerte com um tom de aventura adolescente reminiscente de Buffy, A Caça-Vampiros, apresenta em Lotus Eaters uma entrada de ficção científica bem construída que puxa um pouquinho de cada uma dessas linhas narrativas em uma síntese que consegue tanto cativar o espectador quando convencer e ter efeito no nível da narrativa.

Transitar entre premissas e tonalidades de forma a desrespeitar as linhas que dividem os gêneros narrativos, porém sem sacrificar a coesão: taí uma habilidade com a qual os quadrinhos em geral nadam de braçada, mas que a televisão ainda custa a atingir, ao menos se nos atermos à produção mainstream das duas mídias. É uma grata surpresa ver o quão rápido Manto & Adaga se encontrou nesse quesito, colocando para funcionar de forma ousada as lições que Agents of S.H.I.E.L.D. tomou seu tempo para aprender, ainda mais se comparada ao esforço anêmico da outra série com o selo ABC Signatura, Fugitivosno quesito. Mais do que superpoderes, personagens coloridos ou ação, o coração desse encontro entre HQs e TV tem tudo para ser essa liberdade criativa, a qual esta série tem abraçado tão bem.

Que veríamos Tandy (Olivia Holt) convocando a ajuda de Tyrone (Aubrey Joseph) para investigar a mente trancada de Ivan Hess (Tim Kang) era bastante óbvio, já tendo sido sinalizado na primeira visita da jovem no “bunker da ilha de Lost” mental em sua primeira tentativa de sondagem do cientista. Menos esperado era o fato de que teríamos um episódio inteiro dedicado à operação de resgate, escolha ousada para uma temporada enxuta de 10 episódios e que conta com diversas subtramas em aberto — mais sobre isso depois. Com um roteiro que, com poucas adaptações, não estaria fora de lugar se desse as caras em Doctor Who, o capítulo faz um bom uso da construção de personagem efetuada anteriormente com nossos protagonistas e explora bem uma premissa aparentemente simples, fazendo-a render de forma significativa não apenas para o desenvolvimento da dupla titular mas também da trama geral da temporada.

Através do flashback de Ivan, ficamos sabendo um pouco mais sobre sua relação com Tina, que por sua vez contexualiza um pouco a situação atual da jovem cientista, mostrada em Funhouse Mirrors. É bem interessante acompanhar o fatídico dia da explosão da plataforma de extração sob a perspectiva de Ivan, encontrando nosso ponto de vista familiar no momento da ligação dele para Nathan Bowen. Também ficamos sabendo um pouco mais sobre a fonte de energia que a Roxxon visa explorar, e temos a confirmação de que eles aparentemente tem como valor central na empresa a execução de um trabalho meia-boca já há algum tempo. Mais fácil não encomendar o bendito isolamento e depois mandar assassinar um monte de gente pra encobrir o caso? Ou seria a coisa toda um experimento visando fins que Hess e Bowen nem poderiam suspeitar?

A forma como o enredo nos dá pistas em direção a resposta dessa pergunta é notável. Ao invés de se ater ao diálogo expositivo ou mesmo ao recurso do flashback, temos Tandy e Tyrone inseridos no espaço mental de Ivan, que vive seu próprio “dia da marmota” (ou seria “hora da marmota”?) sob a forma dos momentos fatídicos que precederam a explosão da qual ele milagrosamente sobreviveu. A direção tem sucesso em apresentar o cenário claustrofóbico em que se encontra Hess, a começar pela forma como a sequência de abertura nos leva da canção incidental até o cantarolar murmurante que vimos no episódio passado, tendo como resultado a sensação assombrosa de se estar preso por oito anos no mesmo momento, com a mesma música grudada na cabeça (eu pensei que o murmúrio me era familiar na semana passada — mas nunca imaginei que seria a canção entonada pela família Schrute e agregados em The Office, enquanto Dwight tentava ter seus bicos de corvo esmagados).

O cenário é muito bem construído e funciona em vários níveis. A missão de enfrentar os funcionários zumbificados da Roxxon, alcançar o núcleo da plataforma e parar o vazamento não apenas nos mostram “ao vivo” o que ocorreu neste que é o evento central da trama, mas efetivamente insere nossos protagonistas nesse cenário e, de forma sorrateira, nos garante uma “sessão de treinamento” onde os vemos usar seus poderes em combate com intensidade até então inédita (além, é claro, do obrigatório momento Manto vs. Adaga!). Ao mesmo tempo, a situação por si só traz ainda um primeiro ato conjunto de heroísmo para a dupla — ainda que realizado meio que “sem querer” — que é o resgate mental de Ivan Hess, o homem que vem ruminando sua própria falha há oito anos, preso em um corpo saudável. O reencontro entre ele e Mina, ao final do episódio, traz um tom de esperança e positividade até então inédito na produção — efeito que é provavelmente proposital. Ali é que vemos que não vai se tratar apenas de Tandy e Tyrone encontrando a si mesmos, mas da dupla se encontrar para então agir em favor dos que precisam — e a perspectiva é muito empolgante!

Se normalmente é Tandy quem toma a dianteira da situação, com seu estilo mais ativo e arriscado de agir, temos nessa primeira provação conjunta da dupla uma inversão de papéis na qual Tyrone se vê forçado a agir sozinho, mediante a perda da parceira que é tomada de surpresa pela possibilidade de voltar a falar com seu pai. O episódio explora essa situação com bons diálogos, e a atuação tanto da dupla de protagonistas quanto de Kang consegue emprestar à situação o gravitas necessário, conferindo ares de clausura e perigo iminente ao dilema. Pintados como personagens falhos desde sua primeira aparição, é sensacional ver a forma como essas falhas vem sido trabalhadas sem sacrificar-se a progressão do enredo e a construção de tramas empolgantes, e esse episódio consegue novamente fazê-lo com precisão.

Para não dizer que é tudo perfeito, um problema que provavelmente vem como preço a se pagar pela forte unidade temática  individual dos episódios da série é a forma como os capítulos têm deixado de lado subtramas inteiras, o que implica em pausar de uma forma um tanto arbitrária desenvolvimentos importantes de roteiro, por vezes com transições não tão suaves. É o caso de Tyrone, cuja participação ao longo do episódio é uma das mais notáveis para o personagem, mas que causa estranheza uma vez que ele vem de uma situação que, de acordo com o que vimos até agora, tinha tudo para deixá-lo em um estado de ânimos mais desequilibrado do que aparece aqui.

Claro que se pode argumentar que isso é justamente o crescimento de personagem dele, porém nesse caso específico a impressão que temos é a de que a subtrama pessoal de Tyrone acaba tendo que ser posta em pausa para que ele participe do resgate de Hess, para então voltarmos a ela depois. Afinal de contas, ele acabou de ver o antigo amigo de Billy ser morto diante de seus olhos em um esquema armado pelo mesmo policial corrupto que tirou a vida de seu irmão (para o qual o cara trabalhava, mas enfim, não deixa de ser um evento que deve trazer à tona emoções intensas)! O problema também dá as caras pela ausência repentina de alguns personagens do elenco de apoio (como a mãe de Tandy ou o padre da escola de Tyrone), que causa estranheza tendo em vista que temos apenas mais três episódios até o final da temporada. Ou seja, trocando em miúdos: eu, que sempre defendo que uma boa série é sempre a que possui o formato mais enxuto possível, bem que gostaria que tivessemos pelo menos mais uns 4 capítulos para amarrar melhor essa primeira temporada…

Trabalhando bem as forças já estabelecidas da produção em um cenário novo e inesperado, Lotus Eaters é mais um acerto para a excelente temporada de estreia de Manto & Adaga, e nos traz um pouco mais perto de ver a dupla super-heroica totalmente realizada, ao mesmo tempo em que explora uma premissa interessante com boas batidas de personagem e algumas das cenas de ação mais empolgantes até agora. Continuando a se sentir à vontade em um ritmo mais acelerado, o único porém da produção no momento é uma leve dificuldade em harmonizar todas as subtramas em torno do arco narrativo central, o que acaba trazendo transições pouco suaves entre os capítulos e nos mantendo no escuro a respeito de outros núcleos de personagem. Detalhes que pouco interferem no sucesso dessa série que continua a ser uma grata surpresa!

Manto & Adaga (Cloak & Dagger) – 1X07: Lotus Eaters — EUA, 12 de julho de 2018
Criador: Joe Pokaski
Direção: Paul A. Edwards
Roteiro: Joe Pokaski, Peter Calloway
Elenco: Olivia Holt, Aubrey Joseph, Tim Kang, Ally Maki, Andy Dylan, Hannah Hardin
Duração: 49 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.