Crítica | Manto & Adaga – 1X08: Ghost Stories

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Manto & Adaga, aqui.

Um dos motivos pelos quais Manto & Adaga me surpreendeu positivamente foi pela forma como conseguiu, desde seu início em First Light, realizar bem um estilo de narrativa em relação ao qual eu já não tinha mais muita fé, quanto o assunto são adaptações de quadrinhos de super-herói: o serial com ritmo mais lento, focado no desenvolvimento de personagens e em seus dramas pessoais. Desde que Heroes falhou miseravelmente em fazer jus às próprias bases narrativas que lançou tão bem ao longo de sua aparentemente genial primeira temporada, passando pelo purgatório sem fim dos dramalhões da CW e chegando ao fraco Fugitivos, o formato das séries super-heroicas nunca calhou muito bem com a introspecção e o drama para além das batidas essenciais de personagem. Contrariando todas expectativas, Manto & Adaga acertou em cheio e me convenceu de cara com sua história bem montada no foco alternante entre os personagens titulares em sua jornada até o spandex (ou seria a fantasia de Mardi Gras?).

É justamente esse equilíbrio sensível que a série tem perdido na segunda metade de sua temporada inaugural. Após experimentar com tonalidades mais leves e acelerar repentinamente o desenvolvimento de suas tramas, a produção encontra em Ghost Stories seu episódio mais fraco até então. Não é por falta de eventos bombásticos ou desenvolvimentos interessantes no enredo, como eu poderia pensar antes do início da série, com base em minhas impressões intuitivas. Na verdade, o episódio traz desenvolvimentos significativos em ambas as frentes principais da história, com um dos melhores twist finais da temporada até então. O problema é a forma como é feita a entrega de tais desfechos: excessivamente acelerada ao ponto de flertar com o anticlimático, e utilizando os personagens secundários como simples escadas para a construção dos protagonistas.

A escolha em efetuar no mesmo episódio e de forma paralela a captura de Peter Scarborough (Wayne Pére) e a prisão do oficial Connors (J. D. Evermore) não favorece nenhuma das duas subtramas. Colocando repentinamente em andamento dois planos individuais rapidamente delineados por parte de Tandy (Olivia Holt) e Tyrone (Aubrey Joseph) para enquadrar seus respectivos nemeses, o episódio deixa de se aproveitar dos desenvolvimentos do trabalho conjunto da dupla no ótimo Lotus EatersNo lugar de uma colaboração empolgante que trouxesse para o mundo em carne-e-osso um pouco da ação que vimos no espaço mental na semana anterior, temos um Tyrone que repentinamente confia demais não só na detetive O’Reilly (Emma Lahana), quanto no seu parceiro Fuchs (Lane Miller) e uma Tandy extremamente bad-ass em uma missão solo (arriscando a segurança de Adina (Gloria Reuben) no processo).

Por mais fantástico que seja ver Tyrone finalmente utilizando o manto deixado inacabado por Billy, a subtrama acaba tendo um desfecho parcial um tanto bobo, que destoa do nível de realismo e construção do enredo efetuadas até então. Afinal de contas, como pode o vídeo em que ele “confessa” para Manto tê-lo matado servir de prerrogativa para indiciá-lo pela morte de Billy? Pode não ser exatamente a manobra legal mais estapafúrdia já feita em produções do tipo, mas é um encaminhamento que destoa um pouco da abordagem realista que a série vinha dispensado à subtrama, em especial no que compete à O’Reilly e seus métodos “sangue no olho” de investigação. O sucesso repentino da armadilha acaba não ficando à altura de toda a preparação que foi bem realizada em torno da subtrama ao longo de toda a temporada, ainda que a justificativa para Tyrone vestir o Manto e sua confrontação com o assassino sejam excelentes momentos para o personagem. Claro que a questão não se resolveu de vez, com a morte chocante de Fuchs encaminhando o cenário para um conflito final que, com sorte, vá envolver Manto, Adaga e O’Reilly indo até as raízes desse grupo de policiais corruptos de Nova Orleans.

A subtrama de Tandy é montada de forma tão semelhante à de Tyrone que as mesmas ressalvas em relação àquela valem para essa. Embora seja muito bacana vê-la utilizar seus poderes e partir com tudo para cima de Scarborough, a façanha quebra um pouco o ar de intocáveis que a trama havia construído até então em torno da Roxxon e de sua conspiração para encobrir a misteriosa escavação (aliás — aceno para Luke Cage no diálogo — partiu juntar com os Fugitivos e o pessoal da Netflix para fazer uma força-tarefa que vise impedir todas as escavações profundas organizadas por gente suspeita). Pior do que isso, o episódio arma um plot twist perigoso para a frente narrativa de Tandy, revelando um lado menos idílico de seu pai em uma cena bem montada, porém que vem às custas de descarrilhar o foco da atenção no núcleo de Tandy. Embora a reunião em memória de Billy e Nathan seja um belo momento para a dupla de protagonistas, a revelação de Nathan vem de mão pesada e com ares de dramalhão, fato que não ajuda a vender bem a decisão repentina de Tandy em aceitar o dinheiro da Roxxon. Por sua vez, é preciso reconhecer que é bem interessante a forma como a revelação (não tão surpreendente assim) a respeito de Nathan lança uma nova luz sobre as aparições anteriores do cara, inclusive o pequeno trecho deste mesmo episódio onde ele aconselha Tandy a treinar o balé mesmo com as distrações da TV, que ao final do capítulo pode ser relido de forma bastante diferente.

No contexto dessas soluções apressadas, o outro problema que eu vinha apontando a respeito da narrativa acaba aumentado. Mesmo após ter tomado o tempo para montar diversos personagens de apoio interessantes, a reta final da trama segue utilizando-os como escada para as tramas centrais, quando não ignorando-os completamente. Com apenas dois episódios pela frente, a coisa não parece muito promissora no sentido de aproveitar algumas das linhas narrativas começadas. O que será de Liam, afinal de contas? Melissa soube a respeito da morte de Greg? Cadê o padre da escola de Tyrone? Cadê os Hess? Claro que nada disso é obrigatório e necessário para a construção de um desfecho satisfatório para a trama central, mas não deixa de causar estranheza a forma como a produção esquece grande parte do elenco de apoio, o que faz com que a narrativa acabe tendo, no ponto atual de seu desenvolvimento, ares de maior linearidade e simplicidade se comparada ao intrínseco jogo de forças que parecia se montar quatro episódios atrás.

Ghost Stories encaminha algumas subtramas centrais da narrativa mais ampla de Manto & Adaga, porém sem apresentar o mesmo cuidado e atenção para os detalhes de caracterização que caracterizou as entradas anteriores da série. Erroneamente alternando radicalmente entre desenvolvimento de personagem e desfecho do enredo, a narrativa nessa reta final não se usa bem do embalo deixado pelos dois episódios anteriores no que se refere à preparação, por parte da dupla protagonista, de seu contra-ataque e busca por justiça, entregando soluções apressadas e anti-climáticas para tramas que vêm sendo trabalhadas desde a estreia da temporada. Que os dois episódios finais encaminhem a coisa de um jeito mais interessante!

Manto & Adaga (Cloak & Dagger) – 1X08: Ghost Stories — EUA, 19 de julho de 2018
Criador: Joe Pokaski
Direção: Álex García López
Roteiro: Christine Boylan, Jenny Klein
Elenco: Olivia Holt, Aubrey Joseph, Gloria Reuben, Andrea Roth, J. D. Evermore, Miles Mussenden, Emma Lahana, Tim Kang, Wayne Pére, Lane Miller, Angela. M. Davis, Luray Cooper, Marqus Clae, Andy Dylan, Gralen Bryant Banks, Rachel Ryals
Duração: 49 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.