Crítica | Manto & Adaga – 1X09: Back Breaker

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Manto & Adaga, aqui.

Devo dizer que fiquei surpreso com a disparidade entre as opiniões da maioria dos leitores e a minha percepção do episódio anterior de Manto & Adaga, Ghost Stories. Para alguém que esteve bastante empolgado e satisfeito com os desenvolvimentos da série desde seu início, certas decisões de roteiro e direção do oitavo episódio me pegaram desprevenido e foram como baldes de água fria. OK, baldezinhos bem pequenos (tipo aqueles que criança usa pra brincar na areia), mas ainda sim inegáveis. Apesar de estar longe de ter sido um episódio ruim, as limitações que eu senti na narrativa me pareceram ainda mais agudas ao se levar em conta o papel importante do capítulo no desenrolar da trama maior da temporada.

Ao saber que alguns de meus companheiros de série igualmente empolgados não passaram por essa sensação, me questionei sobre o quanto essa impressão anticlimática poderia se dever ao fato de que o capítulo mais armava o desfecho da temporada do que trazia soluções propriamente ditas, apesar de encaminhar de forma um tanto rápida nossas tramas centrais. Infelizmente, o prosseguimento que Back Breaker entrega em relação a toda essa preparação traz novamente alguns problemas de ritmo e estruturação que, em minha opinião, acabam traindo um bom roteiro. Novamente, não se trata de um episódio ruim ou mesmo mediano — a série não apenas não deixa de entreter como entrega boas caracterizações e assume confiantemente os desenvolvimentos de várias subtramas com um drama sólido.

Minhas reservas continuam a ser, sobretudo, com uma certa superficialidade na maneira com que a produção opta por desenvolver alguns dos pontos cruciais do enredo. Pesando a mão na construção dramática, a direção apresenta o momento atual de nossos protagonistas praticamente sem nenhum resquício da sutileza narrativa que funcionou tão bem nos primeiros episódios. Nossos protagonistas encontram-se no que o modelo do mito do herói (ou monomito) de Joseph Campbell classifica como o abismo, a provação difícil ou traumática que se impõe após os portais intermediários, e que reedita com força total os traumas centrais de nossos candidatos a herói, servindo como guardião entre o protagonista e o elixir, precedendo a etapa do regresso.

Para garantir que essa leitura possível não passe batida para o espectador, o episódio traz ao longo de toda sua duração como framing device uma aula onde onde o padre Delgado (Jaime Zavallos) explica este ponto em detalhe, de novo e de novo. Não bastasse isso, as tramas de Tandy (Olivia Holt) e Tyrone (Aubrey Joseph) retratam de forma apressada a decadência de cada um deles em seus vícios costumeiros, pesando a mão no melodrama e com diálogos tão empobrecidos que a coisa toda assume por vezes ares caricatos. Em ambos os casos, tratam-se ainda sim de boas ideias que funcionam bem e se apoiam sobre a forte caracterização que já foi feita até aqui, tanto em nível de suas motivações pessoais e personalidade quanto do uso dos poderes e da mitologia que os envolve.

No caso de Tandy, após a exploração delicada e bem compassada do sentido de seu poder de sondar esperanças, a subtrama do roubo vampírico de tais emoções positivas surge do nada e rouba tempo de tela que seria melhor gasto explorando a angústia das descobertas a respeito de Nathan, ou mesmo o arrependimento frente a decisão errada de confiar em Scarborough. Tanto é que a melhor cena deste núcleo é justamente a visita aos Hess, um momento em que o enredo consegue deter sua atenção pelo tempo necessário e construir tensão tão bem quanto vinha fazendo na etapa inicial da história e, com isso, o único em que o uso predatório dos poderes de Tandy atinge satisfatoriamente seu efeito dramático desejado. Infelizmente o momento é um tanto sabotado imediatamente na sequência seguinte onde, para nos mostrar o quão Mina Hess (Ally Maki) ficou malvada após ter sua esperança roubada, ela esmaga uma de suas amadas abelhas com um caderno. “Agora você sabe como eu me sinto o tempo todo”, diz Tandy… Eu entendi a ideia (e fiquei chateado por Mina), mas a cena só me fez foi rir.

Ver Tandy se apossando das esperanças dos mesmos playboys que ela costumava usar como vítimas de seus golpes não diz muito a não ser pintar explicitamente e de forma redundante o mau momento da personagem em tela. O mesmo a respeito de Liam (Carl Lundstedt), que é sacado da prisão e do esquecimento na trama totalmente de acordo com a necessidade do roteiro, apenas para martelar o mesmo elemento narrativo pela terceira vez e sair de cena como se ali não tivesse estado. Por sorte, a sequência final de Tandy volta a empolgar, ainda que um tantinho tarde demais e com um encaminhamento mais do que previsível dos fatos.

O núcleo de Tyrone, por sua vez, beneficia-se dos refoços da subtrama da oficial O’Reilly (Emma Lahana) e das cenas sempre divertidas de Evita (Noëlle Renée Bercy) e Chantelle (Angela Davis) (rainhas do bom diálogo expositivo), mantendo-se mais bem desenvolvida e coesa, ainda que exagerando no dramalhão. Por mais que o enredo tenha montado elementos o suficiente para justificar os acessos de raiva e o descontrole do personagem, convenhamos que uma chave de pescoço no Padre Delgado foi uma escalagem um tanto rápida e exagerada dos eventos.

Sua perda de fé é bem justificada a nível de roteiro, porém acaba retratada de forma caricata e um tanto preguiçosa, em especial com o uso cansativo de sequências musicais como atalho narrativo, que apesar de entregar bons momentos rouba igualmente de outros sua organicidade. A narrativa de Manto & Adaga parece propensa a queimar etapas importantes, problema que é agravado ao vermos que a produção mais do que provou a capacidade de construí-los bem. Entre espancamentos, castigos corporais e luta livre contra um padre (que depois descobrimos ter assumido a batina após fazer besteira na estrada, numa revelação digna de novela mexicana), a cena que se salva é aquela onde Tyrone confronta sua mãe a respeito de sua resposta para o caso de Billy, carregada de drama autêntico e diálogos bem delineados. No final, o temido enquadramento do jovem pela polícia corrupta o insere diretamente no finale bombástico.

Uma pena que o roteiro dê toda essa volta e acabe forçando a reação de Tyrone mediante a aparente indiferença da mãe até níveis extremos, quando a mera descoberta do jovem a respeito do real destino da investigação sobre Connors (J. D. Evermore), o assassinato de Fuchs e a agressão a O’Reilly poderiam justificar melhor o abismo em que o personagem se encontra. O núcleo policial traz um desfecho que é tão empolgante quanto revoltante, mostrando a amplitude da corrupção na organização e a extensão do poder de Connors. Conforme o padre Delgado tem a gentileza de nos informar de maneira explícita, com O’Reilly presenciamos a iminência do herói que não alcança o elixir, não supera sua grande provação e corre o risco de se perder no abismo, tornando-se um vilão. O desenvolvimento é um dos mais interessantes da trama neste ponto atual, embora traga também ares menos empolgantes de “próxima temporada”.

Realizando boas ideias de forma apenas parcialmente bem sucedida, Back Breaker traz uma narrativa agitada e cheia de eventos, fazendo confluir as diversas subtramas da temporada em torno do evento cataclismático envolvendo a misteriosa energia que reside sob Nova Orleans. Embora o compromisso da produção em manter a narrativa duplicada entre nossos dois protagonistas seja digno de elogio, este é mais um dos casos em que a intercalação não funciona tão bem quanto se poderia esperar, e os ares de pressa em se amarrar as pontas soltas em torno do desfecho fazem nos lembrar novamente — adivinhe — de HeroesSetup grandioso e um desfecho mais ou menos é a marca registrada da série onde o produtor Joe Pokaski mais exercitou seus músculos criativos super-heróicos. Embora Manto & Adaga tenha potencial para escapar da regra, os dois últimos episódios conseguiram apenas se manter no limite de qualidade o suficiente para não cair em uma arrastação mediana. Fica ainda a expectativa por um finale repleto de eventos empolgantes, uma boa dose de ação, exploração de personagem e um desfecho crível e interessante para as tramas centrais da temporada.

Manto & Adaga (Cloak & Dagger) – 1X09: Back Breaker — EUA, 26 de julho de 2018
Criador: Joe Pokaski
Direção: Jeff Woolnough
Roteiro: Niceole R. Levy, Peter Calloway
Elenco: Olivia Holt, Aubrey Joseph, Gloria Reuben, Andrea Roth, J. D. Evermore, Miles Mussenden, Carl Lundsstedt, Emma Lahana, Jaime Zevallos, Tim Kang, Ally Maki, Noëlle Renée Bercy, Angela Davis, Andrea Frankle
Duração: 49 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.