Crítica | Manto & Adaga – 1X10: Colony Collapse

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– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Manto & Adaga, aqui.

Ao longo de toda esta ótima temporada de estreia de Manto & Adaga, por diversas vezes eu me vi sendo lembrado de que o cargo de showrunner da produção era ocupado por Joe Pokaski, co-produtor e um dos melhores roteiristas da montanha-russa de emoções televisivas que foi HeroesNão por conta de que eu já me interessasse especificamente pelo trabalho dele ou sequer associasse seu nome com facilidade ao seriado da NBC. O fato é que em seus momentos mais brilhantes, Manto & Adaga me ressoava a empolgação de um quadrinhólatra declarado em se assistir a Heroes lá no longínquo ano de 2007, em uma época em que a interação entre quadrinhos e televisão era mínima e muito mais rara.

Se o fracasso retumbante de The Cape pontuou o fim da era em que as adaptações de super-heróis para televisão tinham que se disfarçar de subgêneros “mais sóbrios” e evitar, com uma certa vergonha auto-consciente, os aspectos mais extravagantes do collant, é certo que produções como Fugitivos encontraram grande dificuldade em reconquistar as batidas mais dramáticas que a produção de Tim Kring conseguiu captar com precisão em seu já datado seriado. A liberdade criativa em adaptar certos elementos narrativos e estéticos não garante que a passagem das páginas para as telinhas não perca muito do charme da obra original no processo. Manto & Adaga conseguiu ter sucesso onde tanto Fugitivos quanto algumas das produções mais recentes da Marvel em parceria com o Netflix falharam: construir uma narrativa ao mesmo tempo dramática e energética focada em personagens, equilibrando bem a construção do enredo com ritmos variados e diversidade de subtramas alternantes. Em suma: traduzir por inteiro o espírito das HQs para o formato do serial televisivo.

Também é verdade que, no último terço da temporada, algumas das falhas que acabaram sabotando a estreia televisiva de Pokaski no longo prazo deram as caras — de forma leve e velada, porém ainda lá — mostrando que afinal de contas existe, sim, um risco inerente ao formato. É difícil trocar de marcha entre a exploração detida dos dramas pessoais dos personagens e os inevitáveis momentos de se avançar com a história entre trocas de soco e demonstrações de poderes icônicos dos quadrinhos sob um orçamento limitado, ainda mais quando se tem diversos núcleos narrativos paralelos mais-ou-menos entremeados em jogo. Da empolgante montagem de um tabuleiro complexo de agentes com motivações diversas a uma amarração simplista que jogue grande parte do potencial por terra, basta uma finalização ruim de temporada. Por sorte, não foi o que ocorreu aqui.

Colony Collapse condensa em seus 50 minutos tudo o que deu certo na série até então, e chama a atenção principalmente pelo quanto a narrativa consegue percorrer situações distintas de forma energética sem perder o pique por um segundo sequer. Recheado de momentos impactantes e balanceando bem as conclusões com a construção de ganchos para a próxima temporada (felizmente já confirmadíssima!), trata-se de um ótimo finale de primeira temporada, focando no essencial e nos deixando com a sensação de querer mais, o quanto antes.

Se a escolha do framing do episódio anterior, com a aula do padre Delgado (Jaime Zavallos) a respeito da jornada do herói, não funcionou tão bem quanto poderia e acabou efetivamente roubando um pouco do ritmo da trama apenas para explicitar uma temática já mais do que percorrida nos próprios eventos, desta vez a produção acertou com a conversa das rainhas do diálogo expositivo, Evita (Noëlle Renée Bercy) e Chantelle (Angela Davis), que vão contando a história das outras duplas divinas que se manifestaram na conturbada história de Nova Orleans, salvando a cidade às custas da vida da metade marcada.

Cada uma das histórias é dramatizada em esquetes bastante simples, porém muito eficazes, as quais ajudam a dar o clima e nos fazer entender o que afinal de contas é a crise da qual Chantelle tem falado ao longo de toda a temporada. Se por um lado é um pouquinho decepcionante pensar que o papel de Evita no desfecho da trama acabou sendo restrito à exposição, também é um crédito à produção que fiquemos curiosos a respeito dos rumos da personagem (e desejosos de ver mais interações atritosas entre ela e Tandy (Olivia Holt) no futuro).

No núcleo de Tandy temos excelentes sequências de ação, as quais são bem utilizadas para explorar o crescimento da personagem, que aqui adquire uma atitude definidoramente heroica. O resgate de Mina (Ally Maki) e a luta contra os Terrors traz ótimos momentos, que retomam e contrabalanceam muito bem os eventos do episódio anterior. Após retirar intencionalmente as esperanças de Mina, Tandy toma coragem para revelar-lhe a verdade e se abrir para uma parceria sincera contra Scarborough (Wayne Pére).

Se por um lado é compreensível que o clímax tenha que reservar tempo para boas sequências de zumbis sendo esfaqueados com uma adaga de luz, por outro fica a impressão de que a derrota da Roxxon se dá de forma um pouquinho fácil demais, após toda a construção feita em torno da ameaça conspiratória da empresa. Mas onde raios estava Ivan Hess ? Mina foi mais uma ótima peça no forte elenco de apoio, e tem tudo para contribuir ainda mais na próxima temporada. Por sua vez, a solução de Tandy para punir Scarborough é muito bem pensada e eficiente, fechando de maneira dramática a vendeta entre os dois.

Por falar em vendeta, no núcleo de Tyrone (Aubrey Joseph) temos os momentos derradeiros (ou será que não?) da briga entre O’Reilly (Emma Lahana) e Connors (J. D. Evermore), com mais demonstrações da podridão do departamento de polícia. Vários do momentos dessa subtrama são marcantes e bem entregues. Protagonizam excelentes momentos dramáticos tanto a oficial O’Reilly em seu modo “nada a perder”, alternando entre a essência da badassery e o medo e hesitação humanizantes, quanto um Tyrone que finalmente superou seu acesso de raiva mal canalizada — justo no contexto de fugir por sua vida, após ser vítima de uma armação e acusado pelo assassinato de Fuchs.

Toda a covardia e a podridão do departamento de polícia corrupto ajudam a basear um excelente desenvolvimento para o arco pessoal de Tyrone. A despedida entre Otis (Miles Mussenden) e o filho é tocante, representando bem um momento de desespero onde nosso protagonista encara a ausência de justiça da qual seus pais tanto lhe alertaram. Já na delegacia, na cena em que ele e O’Reilly permanecem capturados aguardando a execução, o discurso de Tyrone na tentativa de conscientizar o policial que os mantém prisioneiros é mais um ótimo momento para o personagem, mostrando uma mudança em relação ao sempre furioso e vingativo Manto, que com isso entra em contato com suas próprias limitações e as aceita, deixando de querer carregar o mundo e o peso pela morte de Billy sozinho em suas costas.

Como Tandy diz depois, ele pode não precisar do Manto de Mardi Gras ou do casaco de Billy — mas no momento ele se apoia neles como continência para a sua raiva sem limites, dando contorno e direção ao seu ímpeto. Excelente desenvolvimento para o personagem, que acaba sem se livrar das acusações de assassinato, já armando elementos interessantes para a próxima temporada. É interessante o quanto a decisão de Tyrone em se sacrificar pela cidade vem como desdobramento direto de sua fala na delegacia, provando sem deixar dúvidas que o que ele disse para o oficial fora realmente de coração, e não mera retórica buscando no fundo apenas garantir a sua parte. A atitude heroica da dupla finaliza muito bem esse primeiro grande arco dos personagens, que deixam de lado suas mazelas particulares e agem no sentido de garantir o bem maior.

A montagem da sequência final em que eles combinam seus poderes, por sua vez, surpreende com um fundo musical cujo nível de galhofa me fez lembrar das cutscenes dos jogos do Sonic para o Dreamcast. Provavelmente uma decisão consciente por parte dos produtores, a cena climáctica tem uma montagem completamente over the top, deixando a sisudez de lado em favor do espírito quadrinesco. Neste sentido, mesmo os efeitos especiais fracos acabam bem justificados, uma vez que são emoldurados em uma sequência que traduz muito bem o espírito das HQs.

Amarrando bem os elementos essenciais e deixando ganchos muito promissores para sua segunda temporada, Colony Collapse encerra bem uma forte temporada de estreia para Manto & Adaga, primeiro lançamento televisivo imperdível da Marvel desde a primeira temporada de Jessica Jones. Será que veremos Connors voltar da dimensão sombria? E os poderes de Mayhem, a versão supervilanesca de O’Reilly, serão uma combinação de Manto e Adaga (já que o que ocorre com ela remete ao que aconteceu com os dois)? Ela vai voltar como vilã ou anti-heroína? Como Tyrone vai se livrar das acusações sobre ele? A Roxxon já era mesmo? Teremos um crossover com Fugitivos? Todas essas perguntas a gente só vai poder responder na próxima temporada, que deve estrear em 2019.

Manto & Adaga (Cloak & Dagger) – 1X10: Colony Collapse — EUA, 2 de agosto de 2018
Criador: Joe Pokaski
Direção: Wayne Yip
Roteiro: Joe Pokaski
Elenco: Olivia Holt, Aubrey Joseph, Gloria Reuben, Andrea Roth, J. D. Evermore, Miles Mussenden, Emma Lahana, Jaime Zevallos, Tim Kang, Noëlle Renée Bercy, Angela Davis, Luray Cooper, Josh Ventura
Duração: 49 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.