Crítica | Manto & Adaga (Minissérie – 1983)

Depois de debutar nas páginas de Peter Parker, o Espetacular Homem-Aranha e reaparecer por lá mais duas vezes, a dupla Manto e Adaga, criada por Bill Mantlo, já gozava de reputação suficiente para justificar uma minissérie solo de quatro edições. E foi o próprio Mantlo o responsável pelo trabalho, com o autor procurando trabalhar a conexão umbilical entre os dois heróis por intermédio de uma visão intimista sobre o dia-a-dia dos dois nas ruas de Nova York, com direito a mais detalhes sobre a vida pregressa de cada um e a revelação de seus nomes civis: Tandy Bowen e Tyrone Johnson.

A estrutura das edições é marcadamente episódica, com a introdução de dois coadjuvantes – um padre e uma policial – que ajudam na transformação de Manto e Adaga de vigilantes com tendências assassinas no que eles passariam a ser dali e em diante, ou seja, heróis problemáticos, mas, mesmo assim, heróis. Cada “caso” que eles lidam ao longo das três primeiras edições servem apenas para ilustrar a grande “fome” por luz que Manto sente basicamente o tempo todo. Ele não quer mais viver da luz de Adaga, que o sacia, mas a enfraquece. No entanto, a alternativa é macabra, pois ele, então, precisa literalmente “consumir” a luz – ou força vital, interpretem como preferir – de pessoas, normalmente criminosos.

Essa pegada, que pega emprestado o conceito de A Bela e a Fera e tantas outras obras nessa linha, é abordada com maestria por Mantlo, que coloca seus personagens em um caminho auto-destrutivo inevitável que também parece sorver ideias trágicas de Romeu e Julieta. Adaga não hesita em entregar-se à fome de Manto, mas Manto, por sua vez, não quer mais ameaçar sua parceira. Sentimentos amorosos diretos são evitados completamente ao longo do texto, mas a simbiose dos dois é inequivocamente relacionada com um forte sentimento de amor de um pelo outro. Suas origens, como ficamos sabendo na última edição, são entrelaçadas desde antes do experimento fatídico que lhes transforma em seres superpoderosos e sua permanência juntos, como os literais opostos que se atraem, parece fazer parte do âmago da dupla. Tandy rica e branca; Tyrone, pobre e negro; Tandy delicada e bela; Tyrone corpulento e monstruoso; Tandy compreensiva, Tyrone irredutível. Escuridão e luz. Vida e morte. O balé que Mantlo cria pode até descambar para o clichê dos quadrinhos, mas é um conjunto muito bem-feito deles, que efetivamente convence o leitor dessa interconexão forte entre os dois.

Toda a hesitação de Adaga em matar que vimos quando ela aparecia como coadjuvante da publicação do Aranha ganha mais relevo na minissérie, o que deixa Manto marcadamente mais solitário e claramente com a pecha de “vilão”, isso pelo menos na cabeça da policial que os investiga. Até mesmo o padre chama Manto de monstro que absorve os poderes de Adaga sem preocupar-se com seus bem-estar. Com isso, claro, o foco fica todo na transformação de Tyrone, sempre mais cabeça dura, em um jovem que passa a dar valor à vida, à qualquer vida, mesmo a de criminosos. Novamente, Mantlo manobra os clichês para criar uma história de redenção com significado e com peso, que não vem gratuitamente e do nada. Ao contrário até, o que vemos na minissérie parece um perfeito aparar de arestas e conclusão do que vimos sobre a dupla antes, em Peter Parker, o Espetacular Homem-Aranha. Entendemos a ligação fortíssima entre os dois e aprendemos sobre suas respectivas vidas antes de tornarem-se poderosos, cada um com seus problemas pessoais específicos e igualmente complicados. Há, por assim dizer, um encontro lógico que encapsula tudo o que vinha sendo feito com os personagens até esse momento e a minissérie funciona bem como um pontapé inicial para qualquer leitor conhecer Manto e Adaga.

A arte de Rick Leonardi é perfeitamente representativa dessas profundas diferenças entre Manto e Adaga. Ele tem traços grossos, duros, feios mesmo, com expressões de dor e de raiva que chegam a assustar. Ela, muito ao contrário, tem traços leves, corpo esguio, rosto angelical, sempre de bem com a vida mesmo nas piores situações. Maniqueísta, sem dúvida, mas muito funcional em relação ao texto de Mantlo, só não conseguindo explicar mesmo o uniforme, digamos, revelador que Adaga usa, ainda que, claro, ele tenha conexão com sua roupa de balé no passado. Sem fazer uso de quase nenhuma splash page, Leonardi garante fluidez e ritmos à história por meio de pequenos quadros intercalados de alguns maiores que estão lá para justamente “quebrar” a narrativa e criar um momento de pausa e apreciação no leitor, mas sem que pareça artificial ou forçado. Com rostos muito expressivos, ainda que bastante caricatos, o artista sabe passar dor como poucos, além de conseguir trabalhar bem no detalhamento do pano de fundo da cidade de Nova York, estabelecendo sua putrefação sem muito esforço.

A minissérie solo de Manto e Adaga, que abriu espaço para a primeira ongoing da dupla logo no ano seguinte, é uma daquelas pequenas joias da Marvel Comics que merece ser (re)descoberta. A dupla super-heroica da categoria “urbana” é, sem dúvida alguma, uma das melhores criações “menores” dos anos 80 pela editora.

Manto & Adaga (Cloak and Dagger, EUA – 1983/4)
Contendo: Cloak and Dagger #1 a 4
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: Rick Leonardi
Arte-final: Terry Austin
Cores: Glynis Oliver Wein (Glynis Wein)
Letras: Joe Rosen
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 1983 a janeiro de 1984
Editora no Brasil: Editora Abril (Heróis da TV #71, 77, 78 e 79)
Data de publicação no Brasil: maio, novembro e dezembro de 1985 e janeiro de 1986
Páginas: 96

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.