Crítica | Manto & Adaga: Origem e Primeiras Aventuras (Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, 1982 – 1984)

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  • spoilers.

Como era – e ainda é – comum na indústria de quadrinhos, personagens bem estabelecidos no mercado servem de introdução a novas criações, permitindo que um grande público tenha acesso a personagens zerados que, de outra forma, poderiam falhar mercadologicamente. Na Marvel Comics, o Quarteto Fantástico foi o primeiro desses veículos introdutórios de novos heróis e vilões e, depois, foi a vez do Homem-Aranha que, no começo da década de 80, estava mais do que estabelecido como o personagem “carro-chefe” da editora.

E foi usando o Aranha que Bill Mantlo e Ed Hannigan, em 1982, criaram e apresentaram Manto e Adaga, dupla de adolescentes que, depois de experimentos com novas drogas que mataram todas as demais cobaias, ganham poderes extraordinários, o primeiro voltado para as sombras e a segunda para a luz, mas ambos complementando-se quase que de forma simbiótica.

Abaixo, seguem as críticas das primeiras aventuras da dupla, nas páginas de Peter Parker, o Espetacular Homem-Aranha:

Manto e Adaga!

Em apenas 24 páginas, a dupla formada por Bill Mantlo e Ed Hannigan consegue, com maestria, introduzir dois novos e fascinantes personagens, contar sua origem e trabalhar uma história socialmente relevante dentro da segunda publicação mensal do Homem-Aranha, o que não é, de forma alguma uma tarefa fácil. Para fazer isso, a narrativa não é linear, com Manto e Adaga já sendo introduzidos prontos, de uniformes e com a missão de matar (sim, matar!) os responsáveis por sua tragédia pessoal.

O que marca a história desde seu começo – além dos próprios personagens novos e seus poderes, claro – é o conflito filosófico entre o Aranha e os dois, o primeiro sempre cuidadoso em sua política de prender os criminosos e os segundos, jovens e impetuosos, de simplesmente eliminá-los. Manto e Adaga, assim como o que representam – o branco e o preto, a escuridão e a luz – só enxergam o mundo de forma binária, entre vilões e mocinhos, nunca como ele é de verdade. Aqui, essa forma de encarar o mundo vem não só do desejo de vingança, algo comum com o personagem do Justiceiro, por exemplo, como também da imaturidade da dupla, algo que é o tema não só dessa primeira aparição deles, como, também, de basicamente toda as demais nesse começo de suas aventuras pegando carona em Peter Parker, o Espetacular Homem-Aranha.

Com métodos bem estabelecidos e com Manto sendo apresentado como um misterioso homem envolvido em uma “capa viva” de energia negra que absorve a luz ao seu redor e permite o teletransporte e Adaga sendo mostrada como uma mulher atlética e extremamente ágil que lança adagas de luz de suas mãos, a história então parte para contar a origem dos dois de forma orgânica e com pouquíssimo uso de flashbacks. Sem supervilões embutidos nesse começo, apenas bandidos que desejam criar uma droga nova para inundar as ruas de Nova York, o texto de Mantlo é simples e eficiente, bem trabalhando a praga do vício em drogas que assolava mais fortemente a cidade àquela época.

Ed Hannigan, por seu turno, criou personagens visualmente impressionantes pela sua simplicidade. Nada de exageros pirotécnicos ou uniformes complexos. A ameaçadora capa viva de Manto contrasta muito bem com o uniforme branco – com um decote ousado em forma de adaga – de Adaga, algo que é refletido em suas personalidades, com Manto controlador e impiedoso e Adaga de certa forma submissa e sensível. Essa relação mais, digamos, maniqueísta e de certa forma machista entre os dois ganharia bons desenvolvimentos pela frente, com a relativização dos respectivos poderes e a introdução da interdependência entre eles. Mas, graficamente, Hannigan extrai o máximo desse jogo natural de luz e sombra, trabalhando o contraste com fluência, algo amplificado pela arte final detalhada de Jim Mooney e pelo jogo de cores de Bob Sharen.

A introdução de Manto e Adaga no Universo Marvel não poderia ser mais impactantes. Heroísmo adolescente com uma pegada madura que serve ao mesmo tempo de trampolim para denúncias sérias e aventuras com violência no grau exato. Um excelente começo, sem dúvida.

Peter Parker, The Spectacular Spider-Man #64 (EUA, março de 1982)
No Brasil: 
Superalmanaque do Homem-Aranha #1 (Abril, 1985)
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: Ed Hannigan
Arte-final: Jim Mooney
Cores: Bob Sharen
Letras: Joe Rosen
Capa: Ed Hannigan, Al Milgrom
Editoria: Tom DeFalco
24 páginas.

As Duas Faces da Noite e Maratona da Morte

Alguns meses depois da estreia de Manto e Adaga nos quadrinhos, eles voltam a aparecer na mesma publicação em um arco de apenas dois números que continua a cruzada da dupla contra as drogas, só que, agora, eles miram mais alto, tentando desbaratar a rede de tráfico de drogas a partir de seu topo. O alvo da ira vingativa dos dois é Cabelo de Prata, o moribundo chefão do crime que controla o tráfico a partir da cama de onde não pode sair.

Vê-se uma evolução nos personagens semi-debutantes, com Adaga bem mais hesitante e tentando realmente fazer Manto ver a luz (sem trocadilho) e trabalhar ao lado e não contra o Homem-Aranha. Igualmente, os dois se mostram inteligentes e estratégicos, usando truques que enganam até mesmo o experiente Aracnídeo, como segui-lo para descobrir como ele descobrirá o quartel-general de Cabelo de Prata. Há, também, uma discreta redução na letalidade dos dois, que passam a apenas ferir suas vítimas, evitando o morticínio que vimos na primeira edição em que apareceram. Não que não haja mortes, claro, mas Bill Mantlo deve ter tomado a decisão de frear essa linha narrativa, já que Manto e Adaga são apenas adolescentes.

A primeira edição lida com um novo embate entre o Aranha e os dois, além da investigação do paradeiro do vilão que passa por uma consulta “amigável” ao Rei do Crime, culminando com um combate na mansão de Cabelo de Prata e seu assassinato por Adaga, depois de um segundo hesitando e sendo imediatamente influenciada por Manto. Reitera-se, aqui, o “controle” de Manto sobre Adaga, algo que já havia ficado bem claro na HQ de origem e que ganha um contorno críptico aqui quando Adaga diz que o “desejo de Manto era o mesmo que o meu”.

A segunda edição faz uma transformação daquelas bem cartunescas e típica dos quadrinhos. Começando segundos após os eventos anteriores, descobrimos que Cabelo de Prata ainda estava vivo e seu médio o retira de lá em um sarcófago altamente tecnológico que, não demora e sem maiores explicações, transfere a cabeça e os órgão vitais do vilão para um corpo cibernético super-poderoso. Claro que Cabelo de Prata adora sua nova configuração e sai por Nova York para vingar-se de Manto e Adaga e de quem mais cruzar a frente dele, o que apenas o leva ao exato mesmo fim que antes, em uma narrativa repetitiva que gritava por alguma novidade que, infelizmente, nunca vem.

Ed Hannigan é novamente o responsável pela arte e seu trabalho é muito bom no arco, com sequências belíssimas de luta na chuva e uma recriação “robocopiana” (mas cinco anos antes de RoboCop) de Cabelo de Prata que é absurda em termos de roteiro, mas que funciona visualmente. A manifestação dos poderes de Manto e Adaga continuam permitindo boas viagens da imaginação, com sequências integralmente dentro da capa de Manto ou com o brilho estourado de Adaga tomando a página. Há muito dinamismo em cada página, ainda que o artista evite splash pages ou mesmo poucos quadros por página, procurando trabalhar transições simples, mas bem pensadas que mantém a atenção do leitor muito facilmente, fazendo da segunda aparição da dupla de opostos mais um bom capítulo na construção desses personagens.

Peter Parker, The Spectacular Spider-Man #69 – 70 (EUA, agosto e setembro de 1982)
No Brasil:
 Superalmanaque do Homem-Aranha #1 (Abril, 1985)
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: Ed Hannigan
Arte-final: Al Milgrom
Cores: Glynis Wein
Letras: Joe Rosen / Rick Parker
Capa: Ed Hannigan, Al Milgrom
Editoria: Tom DeFalco
48 páginas.

Caçadores Noturnos e Justiceiro

Apesar de ter surgido pela primeira vez quase 10 anos antes e também em uma publicação do Homem-Aranha, o Justiceiro não havia ainda sido alçado ao panteão de personagens com publicação própria, fazendo aparições esparsas aqui e ali como coadjuvante em títulos estabelecidos. Seria apenas em 1986 que Círculo de Sangue, sua primeira minissérie solo, seria publicada, abrindo espaço para sua primeira ongoing. Portanto, o tratamento do personagem pela Marvel Comics ainda era errático em 1983 que costumeiramente dava muito mais destaque ao lado completamente psicótico do personagem do que qualquer outra característica. De toda forma, sua presença como coadjuvante em uma história do Aranha que tem Manto e Adaga como estrelas em ascensão faz absolutamente todo o sentido, já que o modus operandi de Frank Castle é muito parecido com a da dupla de adolescentes, bastando substituir as adagas de luz de Adaga por balas.

Se, anteriormente, o alvo de Manto e Adaga era o Cabelo de Prata, agora eles miram mais alto ainda, querendo derrubar ninguém menos do que o próprio Rei do Crime. E é claro que Wilson Fisk é, também, o alvo do Justiceiro. Curiosamente, porém, Bill Mantlo decidiu trabalhar as duas caçadas ao vilão separadamente, o que acaba gerando repetições estranhas e momentos mais do que bizarros, quando a mesma ganguezinha de drogados é atacada pelo Aranha (como Peter Parker), depois por Manto e Adaga e, no momento seguinte, pelo Justiceiro. Vai ter azar lá na Cochinchina, como já dizia minha avó…

E, com o Justiceiro ainda cambaleante em sua caracterização, especialmente na segunda edição do arco, temos momentos constrangedores com o anti-herói literalmente metralhando um casal por jogar lixo na rua e um taxista por furar o sinal vermelho (sem matar, mas mesmo assim…). Chega a ser até cômico na verdade, o que distrai o leitor da narrativa principal e até mesmo da dupla de adolescentes que é, no final das contas, o verdadeiro destaque da história. Mas há diversão também, pois a cruzada de Manto e Adaga ganha em amadurecimento constante, com especialmente Adaga duvidando da forma como eles agem e matando bem menos do que antes. Aliás, nesse ponto, vemos novas características de suas adagas que são usadas para curar drogados de seu vício, além de ficar mais evidente a “fome” que Manto sente pela luz de Adaga, algo que seria explorado com mais detalhes no arco seguinte.

Com isso, a história consegue manter sua coesão apesar de manter duas linhas narrativas paralelas sobre a mesma questão na maior parte do tempo. A arte, que agora ficou ao encargo de Al Milgrom, com tintas de Jim Mooney, faz com que as páginas percam um pouco dos detalhes de fundo, ma ganhem em expressividade dos personagens, além de uma especial agilidade às movimentações especialmente de Adaga, que já se mostrara particularmente ágil antes. Apesar de Ed Hannigan aproveitar mais o lado imagético de Manto e Adaga, o resultado da troca de equipe criativa funciona ao transformar o texto um pouco menos inspirado de Mantlo em algo que funciona sem solução de continuidade relevante em relação ao que veio antes em relação à nova dupal de super-heróis.

Peter Parker, The Spectacular Spider-Man #81 – 82 (EUA, agosto e setembro de 1983)
No Brasil:
Homem-Aranha #53 e 54 (Abril, 1987)
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: Al Milgrom
Arte-final: Jim Mooney
Cores: Bob Sharen
Letras: Joe Rosen / Diana Albers
Capa: Al Milgrom
Editoria: Tom DeFalco
48 páginas.

Ressurreição, A Luz no Fim do Túnel e A Resposta Final

Entre o arco anterior e este aqui, composto por três edições de Peter Parker, O Espetacular Homem-Aranha, muita coisa aconteceu na Marvel Comics em geral e para o Homem-Aranha e também Manto e Adaga em particular. Afinal, entre 1984 e 1985, a Era das Sagas realmente começou na indústria de quadrinhos, com o lançamento da tenebrosa Guerras Secretas e toda a linha editorial da Marvel foi contaminada pelos acontecimentos de lá nos odiosos tie-ins. De todas as consequências da referida saga – hoje quase que integralmente apagadas, retconadas ou esquecidas – a maior delas é, sem dúvida alguma, a criação do uniforme preto do Homem-Aranha, uma belíssima criação sob o ponto de vista estético e que foi muito bem aproveitada, depois, quando ele se revela como uma criatura alienígena que viria a se tornar o Venom e todos os seus “filhotes” que continuam “nascendo” até hoje em dia. Além disso, a essa altura do campeonato, Parker estava namorando a Gata Negra (ou melhor o Aranha estava namorando a ladra de cabelos brancos) que, por sua vez, havia encomendado super-poderes logo do Rei do Crime, mantendo isso em segredo de seu amor, claro.

No caso de Manto e Adaga, a grande modificação é que, com seu sucesso como coadjuvantes do Aranha, a dupla foi coroada com uma minissérie solo de quatro edições entre outubro de 1983 e janeiro de 1984, que abriu espaço para que, a partir de julho de 1985, eles ganhassem sua primeira ongoing própria. Com isso, eles passaram a solidificar-se na mente dos leitores com uma boa frequência de aparições.

O arco em questão serve como um fechamento (desnecessário, mas ainda assim um fechamento) para a história iniciada em 1982, colocando Manto, Adaga e Homem-Aranha contra não só o Rei do Crime como também contra a versão cibernética, mas descerebrada, de Cabelo de Prata que é ressuscitada graças ao trabalho do então novo minion de Fisk, o vilão conhecido como O Resposta. Cabe um parênteses não só para lidar com o tal Resposta: não só seu nome é completamente imbecil, como seu uniforme de Punho de Ferro roxo e amarelo com pitadas da extravagância da moda oitentista não faz sentido algum. E isso sem contar com seus poderes aleatórios que convenientemente se encaixam com o que  é necessário para determinado momento narrativo, somado com sua genialidade que, claro, oferece “respostas” para tudo… Mas esqueçamos o sujeito, pois, apesar de sua presença ser constante, ele é inconsequente para a história, algo que desde já, obviamente, mostra-se como um defeito do texto de Al Milgrom.

O que interessa de verdade é a abordagem dos poderes da dupla que, aqui, ganha mais profundidade. A ressurreição de Cabelo de Prata, que fora morto por Adaga (duas vezes), enfraquece a heroína, como se ela tivesse se alimentado da luz do vilão que, agora, quer de volta esse “pedaço” que lhe foi tirado. O androide com cara de Matusalém, então, é atraído por Adaga, apesar da tentativa vã do Rei do Crime de manter controle sobre a criatura. Como um efeito cascata, então, Adaga, fraca, não consegue mais “alimentar” Manto com sua luz que, ato contínuo, também fica debilitado. Vê-se, portanto, a natureza literalmente vampírica dos poderes dos dois, além de uma evidente interdependência entre eles que se mostra insalubre para ambos. Um não parece conseguir sobreviver sem o outro e ambos dependem de força vital alheia para continuarem ativos, ainda que, no arco anterior, a luz do sol tenha reabastecido as baterias de Adaga.

Essa nova dinâmica funciona bem para relativizar os poderes dos dois, tornando a pancadaria mais equilibrada, com uma participação ainda mais relevante do Aranha que, aqui, precisa desdobrar-se para evitar uma tragédia maior enquanto luta para entender como é que ele se sente tão estranhamente cansado (um efeito do simbionte que ele descobre entre a segunda e terceira edição do arco). A história ganha contornos ainda mais complexos quando O Resposta deduz que Adaga teria poder para retirar a espoa de Fisk do coma, o que deixa o Rei do Crime desesperado e capaz de tudo para extrair os poderes da heroína. Por incrível que pareça, apesar dos diversos elementos da continuidade normal do Aranha estarem presentes de forma relevante na história, ela não parece dispersa e funciona razoavelmente bem como um arco auto-contido que desenvolve efetivamente a relação entre Manto e Adaga e dos dois com o Aracnídeo.

Milgrom, que também é responsável pela arte, faz um bom trabalho ao lidar com tantos personagens ao mesmo tempo, evitando a quebra de fluência, ainda que ele sofra um pouco para inserir seu próprio texto nas páginas, acabando por ocupar espaço demais em explicações didáticas de toda natureza. No entanto, o resultado final é certamente interessante e, principalmente, relevante para todos os personagens envolvidos.

Peter Parker, The Spectacular Spider-Man #94 – 96 (EUA, setembro a novembro de 1984)
No Brasil:
Homem-Aranha #75 e 77 (Abril, 1989)
Roteiro: Al Milgrom
Arte: Al Milgrom
Arte-final: Jim Mooney
Cores: Glynis Wein, Julianna Ferriter
Letras: Diana Albers
Capa: Al Milgrom
Editoria: Danny Fingeroth
72 páginas

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.