Crítica | “Manual” – Boogarins

estrelas 4

Certa vez durante meu intercâmbio pela terra do Tio Sam encontrei em uma loja de discos o vinyl do ótimo As Plantas que Curam da banda Boogarins, de Goiânia. A felicidade em ver uma emergente banda brasileira em uma loja de discos americana foi grande, mas a surpresa nem tanto. O Boogarins vem se mostrando uma das bandas nacionais mais relevantes no cenário exterior, fazendo turnês internacionais, recebendo elogios pelo seu álbum de estreia (receberam nota altíssima pela Pitchfork), elogios de artistas importantes (St. Vincent se impressionou com a banda) e, agora, fechando o ciclo de popularidade no exterior divulgando o lançamento do segundo disco, Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos, em nada menos que o New York Times.

“A maior demonstração de propagação do ser é o eco”. É com essa frase introdutória do single Avalanche que surge a primeira voz do disco, após a boa entrada de Truques. E tal verso fica literalmente ecoando pela cabeça do ouvinte que vê ao longo da faixa uma deliciosa viagem multicolorida com guitarras dóceis, refrões fortes e distorções de se levar ao delírio. Tudo alí já deixa bem claro a pura psicodelia e o flerte com o lo-fi. E se o Boogarins ganha tanta notoriedade assim é porque apresenta o estilo com bastante veracidade, sem floreios ou enganos. E claro, além de surgir em um momento propício ao estilo – que vem ressurgindo forte nos últimos 5 anos – surfando na onda de bandas como Tame Impala, Unknown Mortal Orchestra, Pond, Temples, entre outros.

Outra onda que a banda aproveita pra surfar é nas influências gritantes de Os Mutantes, outra banda brasileira com um histórico forte no exterior. Mesmo a banda se esforçando – e de certa forma conseguindo – criar sua própria identidade, é bem clara tal influência. O tropicalismo, o experimental e a típica psicodelia brasileira dos anos 60/70 são alguns fatores extremamente ligados a banda de Arnaldo Baptista que certamente o Boogarins absorve. Tempo talvez seja a faixa mais fácil de se traçar um paralelo com a antiga banda de Rita Lee.

6000 Dias (Ou Mantra dos 20 Anos), sábiamente escolhida como single e já conhecida em shows, é a faixa que melhor mostra o talento técnico do grupo. Através de uma invejável harmonia de arranjos e uma fascinante sequência de solos de guitarra, 6000 Dias se mostra uma das melhores canções já feitas pela banda. Já San Lorenzo traz um instrumental praiano bem simples, mas que rouba a cena de maneira absurda, até mais que Benzim, que soa mais pretensiosa e segue na mesma linha contemplativa. A sequência feita pelas duas parece ter sido feita pra se escutada caminhando pelas areias da praia. Já Falsa Folha de Rosto traz uma psicodelia que tende ao progressivo e ao experimental, o que por vezes deixa o repetitivo vocal cansar a canção. No entanto, é impossível não se deixar levar pela sutileza das cordas sendo tocadas em meio aos sussurros dos vocais da faixa .

Algo que definitivamente o Boogarins consegue passar em Manual é o conceito principal de psicodelia: a ideia de viajar pelo interior do ser através de melodias. A progressão e os ecos longínquos da doce Cuerdo, os mil efeitos nas guitarras de Mario De Andrade/Selvagem (lembrando inclusive On The Run do Pink Floyd) e Sei Lá fazem jus ao que pode ser chamado rock psicodélico, são responsáveis por propiciar uma viagem áudio-visual de  diferentes sentimentos na cabeça do ouvinteA banda pode até não ter uma competência técnica do nível de Pond ou trazer algo realmente original ao gênero, mas acerta justamente ao relacionar tão bem a sinestesia psicodélica através de suas letras e arranjos.

Nos calmos e melódicos versos de Auchma (“É como ir de encontro ao outro e deixar bater”) e através da guitarra solitária, o disco se encerra de um jeito tocante, através de uma harmonia hipnotizante. O Boogarins de Manual continua jogando as mesmas regras de As Plantas que Curam. Não se trata de um marco para a psicodelia nacional, mas em essência continua representando bem a psicodelia brasileira (o que no fundo é o que mais importa).

Aumenta!: 6000 Dias (Ou Mantra Dos 20 Anos)
Diminui!: Falsa Folha de Rosto
Minha canção preferida: Avalanche

Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos
Artista: Boogarins
País: Brasil
Lançamento: 30 de outubro de 2015
Gravadora: Other Music Recording
Estilo: Rock Psicodélico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.