Crítica | Mapas para as Estrelas

estrelas 4

A cada minuto de Mapas para as Estrelas, é perfeitamente possível sentir a perversa alegria de David Cronenberg ao dirigir o filme. Seu veneno escorre pela telona e inebria o espectador com um certeiro mergulho no nefasto mundo das celebridades hollywoodianas. É uma fita deliciosa, uma sátira que fala muito mais verdades do que brinca com elas e que o diretor levou mais de seis anos para conseguir fazer, sendo, ironicamente, o primeiro filme dele efetivamente filmado nos Estados Unidos.

Cada personagem foi criado para representar grupos de personalidades reais, incluindo Carrie Fisher, que faz o papel dela mesmo completamente decadente e dependente de seu único momento de fama há décadas. A reunião do elenco se dá por intermédio de Agatha (Mia Wasikowska), uma garota com o rosto e o corpo parcialmente queimados que chega em Hollywood para visitar um determinado lugar e conseguir um emprego. A primeira coisa que faz é embarcar em uma limusine dirigida por Jerome Fontana (Robert Pattinson, em sua segunda colaboração seguida com Cronenberg, depois do estranho, mas interessante Cosmópolis) para ir ao tal lugar que deseja ver – as fundações de uma casa aos pés do sinal de Hollywood – e, depois, consegue, graças à sua amizade via Twitter com Carrie Fisher, um emprego com Havana Segrand, uma atriz perturbada que, por sua vez, tem sessões psicanalíticas (com direito a massagens) de auto-estima com o Dr. Stafford Weiss (John Cusack), por seu turno pai do ator mirim de enorme sucesso e já com problemas com drogas Benji (Evan Bird), que vê gente morta, mas não da maneira que vocês imaginam.

Bruce Wagner, o roteirista, trabalha muito bem a caracterização orgânica de cada personagem e cria uma natural e perfeitamente circularidade na narrativa, dando a exata impressão do “mundo pequeno” das estrelas em todos os sentidos: todos se conhecem, todos têm problemas semelhantes, todos se odeiam e assim por diante. O ciclo vicioso é quebrado – ou amplificado, melhor dizendo – com a entrada de Agatha na vida de todos eles, já que ela carrega um segredo bem cronenberguiano que levará ao atordoante, mas lírico clímax.

O grande destaque é mesmo Julianne Moore como a vã e louquinha Havana, que deseja, acima de qualquer coisa (ênfase no “qualquer coisa”) atuar no remake de um filme estrelado por sua mãe, no papel dela, mesmo que ela seja velha demais para o papel, odeie a lembrança de sua mãe e contorça-se de dor ao lembrar de seu passado. Mas seu orgulho está em jogo, sua própria existência vazia em uma enorme mansão sem sentido, com seus hábitos constantes de fazer comprar, namorar homens – e mulheres – mais novos e explorar  seus empregados e agente está em jogo. Ela é um monstro por si só e carrega facilmente o filme em suas costas, com uma atuação auto-consciente de fazer o queixo cair, por sua latitude. Por esse papel, Moore ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes de 2014 e não ficaria nada surpreso que uma indicação ao Oscar estivesse em seu futuro próximo.

De toda forma, apesar de Havana ser, talvez, o maior monstro, está longe de ser o único. Aliás, é difícil encontrar algum personagem em Mapas para as Estrelas que não seja corrompido de alguma forma. Talvez Jerome, por boa parte da fita, ao menos, somente para cair na mesma vala comum dos demais lá pelo final. Ou talvez a inocente e pura seja mesmo Agatha, mas isso fica para o espectador decidir.

Sem dúvida alguma, Cronenberg se apropria do conceito do roteiro para exagerar seus aspectos satíricos com um design de produção que mantém as linhas puras, limpas, sempre perfeitas. Cada cenário é deslumbrante, com casas envidraçadas atochadas de móveis bem desenhados, mas todas assépticas e sem personalidade, além de um figurino que escarnece as personalidades. Cada diálogo é preciso em ser vazio, ofensivo mesmo, mostrando o que o diretor e Wagner entendem desse mundinho tenebroso que tentam desvelar.

No entanto, mesmo não sendo um filme particularmente longo, Mapas para as Estrelas é monocórdio. Seu tema é refletido nas personalidades de absolutamente todos os envolvidos, em maior ou menor grau. Há, assim, uma certa repetição que ancora a progressão da trama desnecessariamente, tornando evidente que o filme teria se beneficiado de uma montagem um pouco mais econômica e a exclusão de algumas sequências que, em última análise, são redundantes, como os dois confrontamentos de Agatha com seu passado e a sequência do cachorro.

De toda forma, esse olhar crítico, arrebatador e, diria, até leniente com o mundo hollywoodiano é extremamente bem vindo. Cronenberg mostra que, no alto de seus 71 anos, ainda tem muito veneno para destilar.

Mapas para as Estrelas (Maps to the Stars, Canadá/EUA/Alemanha/França – 2014)
Direção: David Cronenberg
Roteiro: Bruce Wagner
Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, John Cusack, Sarah Gadon, Carrie Fisher, Olivia Williams, Niamh Wilson, Emilia McCarthy, Evan Bird, Amanda Brugel, Jayne Heitmeyer
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.