Crítica | Máquina Mortífera

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estrelas 4

O gênero policial é um dos mais vastos e diversos do cinema americano. Dentro de seu infinito leque de possibilidades, encontramos a categoria do buddy cop, que foi marcada por séries clássicas como Miami Vice, Starsky & HutchCHiPs, Agente 86, Hawaii Five-O e tantas outras. É sempre uma dinâmica interessante acompanhar as diferenças constratantes de seus protagonistas, algo que o roteirista iniciante Shane Black definitivamente entendeu com seu projeto de estreia: Máquina Mortífera. E o buddy cop no cinema nunca mais seria o mesmo…

Black parte do desejo de realizar algo próximo de um “western urbano”, nos colocando na ensolarada Los Angeles dos anos 80 e ao lado do policial veterano Roger Murtaugh (Danny Glover), cuja longa carreira vai dando sinais de desgaste em decorrência de sua idade cada vez mais avançada. Tudo muda quando o policial Martin Riggs (Mel Gibson) é transferido da Divisão de Narcóticos para tornar-se seu novo parceiro em um caso que tem início com um misterioso suicídio que pode estar conectado ao tráfico de drogas na cidade.

A história aqui é um mero pretexto para que possamos analisar e nos entreter com a divertidíssima relação dos personagens. Glover encarna com maestria e conforto o policial mais velho que acredita em uma abordagem mais segura e tradicional para a investigação, enquanto Gibson simplesmente explode em cena na figura memorável de Riggs, um sujeito que, para sintetizar bastante as coisas, é surtado. A morte de sua esposa em um acidente de carro o transformou em um suicida descontrolado, característica que Black utiliza muito bem em seu roteiro e que rende momentos de puro brilhantismo vindo da performance de Gibson, cuja fúria atinge níveis até divertidos quando enfrenta alguns dos criminosos aqui. Ver a química de Glover e Gibson se desenrolando através de piadas, conflitos e até pancadaria é simplesmente maravilhoso.

Vale notar, também, como essa relação peculiar é excepcionalmente temperada pela trilha sonora que conta com a colaboração entre Michael Kamen e o guitarrista Eric Clapton. É uma música sensual e evocativa, cuja mistura de um saxofone pesado digno de um Sidney Bechet e a guitarra vibrante de Clapton trazem uma perfeita sintonia com a história e seus personagens: o encontro entre o novo e o velho, o clássico e o radical, ao mesmo tempo em que as notas emulam com eficiência o clima de um noir que cai bem nessa Los Angeles perigosa.

E o elemento final para o sucesso está na figura do diretor Richard Donner. Tendo acabado de sair do sucesso de Os Goonies, Donner empresta seu talento para composição e ação para dar vida ao texto de Black. Os planos bem abertos e coreografias simples para as cenas de briga garantem um ritmo ágil e divertido, e Donner é inteligente ao, por exemplo, conduzir de forma muito cuidadosa a sequência onde Riggs lida com um suicida no centro da cidade, onde vemos como a limitação de enquadramento foi essencial para ocultar um elemento importantíssimo que garante uma das melhores surpresas da cena.

Máquina Mortífera é um clássico absoluto do gênero, contando com ótimo roteiro e direção. Mas é mesmo a presença explosiva de Danny Glover e Mel Gibson que mudou para sempre o buddy cop e que transforma o filme em algo verdadeiramente inesquecível.

Máquina Mortífera (Lethal Weapon) — EUA – 1987
Direção: Richard Donner
Roteiro: Shane Black
Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Gary Busey, Tom Atkins, Mitchell Ryan, Tracie Wolfe, Darlene Love,  Jackie Swanson,  Damon Hines, Ebonie Smith
Duração: 110 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.