Crítica | Mar Aberto

O cartaz de divulgação ilude. Quem pensa que Mar Aberto é um filme recheado de mortes sangrentas e trilha sonora repleta de ferrões musicais a nos assustar por minuto, engana-se. Ao seguir na contramão dos filmes com tubarões, em sua maioria, carregada de mortes bizarras e criaturas descomunais, a narrativa é um sopro de criatividade dentro de um subgênero desgastado há tempos.

Inspirado num acontecimento real ocorrido na Austrália em 1998, o filme nos mostra o sofrimento de um casal que durante férias no Caribe, é esquecido no mar. Mas se as expedições são tão organizadas, o que pode ter acontecido para tal tragédia? Segundo informações, os dois eram razoavelmente apáticos e distantes dos outros viajantes. Durante um erro de contagem, um dos responsáveis pela navegação contou dois itens de mergulho a mais na chamada de retorno, o que ocasionou o esquecimento e, por sua vez, o abandono que deu fim ao casal tido como desaparecido.

Há rumores de que naquela região, durante uma caçada, alguns pescadores encontraram roupas de mergulho e outros acessórios no estômago de um enorme tubarão, o que alimenta a teoria de que o casal teria sido devorado pelas feras marinhas. Para interpretar com dignidade esta história, o cineasta Chris Kentis elaborou o projeto de seu filme, assinando roteiro e direção. Os atores Daniel Travis e Blanchard Ryan interpretam a dupla que se dá conta do abandono apenas depois que retornam à superfície, tendo que enfrentar sede, fome, frio e os enormes tubarões que circulavam em torno de seus corpos e emitiam o sinal de perigo constante.

Para criar a identificação com os personagens, o texto faz questão de utilizar os elementos clássicos dos manuais de dramaturgia: a empatia para a catarse, a saída do casal que clamava por férias diante da rotina estressante, a briga na noite anterior, por conta de uma rodada de sexo que não funcionou, entre outras coisinhas típicas de casais cheios de intimidade. A relação com o filme de Spielberg está apenas na seara do imaginário, pois como aprendemos a lidar, toda vez que alguém se perde num mar repleto de tubarões, sabemos que o destino não é muito grato. A crítica também tentou rotular a aventura de Chris Kentis como um crossover de Tubarão com A Bruxa de Blair, mas ai é uma dessas facilitações que a crítica ligeira adora criar por ter preguiça e falta de tempo de pensar determinados filmes adequadamente. A comparação é coerente, mas prender-se demais a este simplório detalhe é deixar de lado outras nuances de um filme tão inovador. Por fim, Mar Aberto relaciona-se com o clássico de 1974 por fazer parte do mesmo subgênero, os filmes do jawsplotation.

Diferente dos filmes habituais do subgênero, Mar Aberto segue o estilo de A Bruxa de Blair: câmeras balançando, registros estilo documentário, encenações que buscam modelar o time dramatúrgico para o estilo de registro audiovisual proposto, ausência de trilha sonora excessiva, num jogo psicológico que mexe com o espectador ao expor uma barbatana ameaçadora de um tubarão que se aproxima, na escuridão da cena noturna que traz consigo uma tempestade, além do uso constante do ponto de vista pelos personagens. Cada vez que eles colocam o rosto na água e verificam o que possivelmente está por debaixo dos seus pés, tanto os personagens quanto nós, espectadores, entramos em um clima de pavor que poucos filmes são capazes de transmitir.

Para fazer parte do jogo proposto por Mar Aberto será preciso alteridade por parte do público, pois não é um filme para muitos. A ausência de determinado ritmo, a qualidade das imagens, o silêncio que às vezes impera, no entanto, incomoda mais que diálogos frenéticos não faz parte da cartilha industrial que somos submetidos cotidianamente, o que pode incomodar alguns.

Particularmente, acredito no potencial do filme, é uma maneira de utilizar o subgênero “filme de tubarões” sob um prisma diferente, mas o balanço das imagens e o marasmo de determinados trechos não são estratégias narrativas convidativas para assisti-lo mais de uma vez. Cansa. Estressa. Enjoa os de estômago mais fraco. Talvez tenha sido esta a proposta, afinal, quando o assunto é arte e experimentação, vale tudo, não é mesmo, caro leitor?

Com orçamento de U$130 mil, Mar Aberto também inova pelas escolhas do cineasta em suas filmagens, ao colocar os personagens para nadar com tubarões de verdade, numa tentativa de extrair realismo até neste quesito. Com duas sequências desconectadas desta primeira incursão, numa estratégia publicitária oportunista, mas coerente, haja vista o nome Mar Aberto ser bastante genérico e ter a possibilidade de abrir uma franquia com centenas de filmes, o filme é uma aventura dramática de horror com potencial. Aos que esperam tubarões turbinados e sangue colorindo o mar, sinto muito, esta não é bem a franquia adequada.

Mar Aberto (Open Water) — EUA, 2003.
Direção: Chris Kentis
Roteiro: Chris Kentis
Elenco: Blanchard Ryan, Daniel Travis, Saul Stein, Estelle Lau, Michael E. Williamson, Cristina Zenarro, Jon Charles
Duração: 80 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.