Crítica | Mar de Sangue, de Arnaud Mattoso

Engraçado observar como Mar de Sangue é um romance oportunista. O autor é um dos maiores defensores das causas dos tubarões em Recife, aponta constantemente o filme de Spielberg como culpado pelo imaginário de sanguinolência destas criaturas, no entanto, utiliza o tema como material narrativo para uma versão romanceada sobre os ataques de tubarões que tornaram a região um dos lugares mais perigosos para curtir a praia. O romance não chega a ser horroroso. O problema é o didatismo que não combina com o tipo de narrativa.

Há outras maneiras de advertir sem ser tão explícito ou atrapalhar o desenvolvimento da história. Sabe aquele tipo de livro que interrompe a ação bruscamente para inserir um dado social “forçado”? Pronto, se você já leu algo assim, saberá mais ou menos a sensação que é desfrutar o texto literário de Arnaud Mattoso, material que, repito, não é demasiadamente ruim, mas perde impacto por dois motivos: o primeiro, já citado, é a interrupção pedagógica, já o segundo, menos problemático, mora na proximidade da história com as narrativas policiais hollywoodianas. Lembra muito quando o cinema brasileiro adentra na seara investigativa. Já percebeu? Os profissionais são estereotipados, não há muita proximidade com o tempo e o espaço narrativo, elementos que ganham aceitação por conta da mundialização da cultura que bebe frequentemente nos formatos estadunidenses.

O romance começa em 2016, ano eleitoral em Recife. Desde 2013 não há registros de ataques, mas infelizmente, a jovem Raquel, moradora da comunidade do Bode, é morta por um tubarão-tigre enquanto nadava tranquilamente na praia. Com o incidente, o festival de verão na Praia de Acaiaca pode ser cancelado. Quais os impactos disso tudo para o turismo e para a imagem de uma das capitais mais badaladas do nordeste brasileiro? Em um ano eleitoral, quais os desdobramentos diante de incidentes com tubarões na praia? Como lidar com a situação?

O inicio até promete. O autor traz trechos do romance Tubarão e a seguinte passagem de O Lobo do Mar, de Jack London, publicado em 1904: “encarei aqueles olhos cinzentos e cruéis que poderiam muito bem ser de granito, pois não continha a luz e o calor da alma humana, afinal, a alma humana se agita nos olhos de alguns homens, mas os deles eram desoladores, frios e cinzentos como o próprio mar”. Citação melhor não há, concorda? O clima da abertura com epígrafes tão bem escolhidas se perde um pouco adiante.

A primeira vítima é morta no mesmo clima do filme de 1975. Raquel caminha pela praia num dia de sexta-feira e ao adentrar na água, é arrastada por uma corrente de retorno e se vê diante do “monstro” que está ali por conta das obras no Porto de Suape, dos navios que trazem lixo orgânico e atraem os tubarões para as zonas costeiras, etc. “Os dentes primeiro serraram a carne e causaram uma hemorragia na veia do braço que expulsou o líquido viscoso”, cita o narrador, num interessante e aterrorizante relato de horror que nos prende e impressiona peremptoriamente. O problema é que logo depois fica explicita a tentativa de ilustrar a história com dados da cultura Discovery Channel, isto é, que o desequilíbrio ambiental, a poluição, o aterro dos manguezais e da foz dos rios, bem como o crescimento imobiliário frenético em Recife, dentre outras causas, podem ser os principais vilões desta história de desarmonia ambiental. Nenhum problema em discutir os problemas que são os responsáveis pela fermentação narrativa da história, o problema é que o autor perde a mão e se esquece de colocar cada coisa no seu devido lugar. Por que não utilizar bem o subtexto?

Depois do ataque somos apresentados aos principais personagens. Carlos Pena é o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, um homem preocupado com o assunto, com diploma de uma universidade na Flórida e participação em congressos mundiais. Ele é o equivalente ao delegado do romance de Benchley e do filme de Spielberg, com exceção da hidrofobia. Florides é a mãe de Raquel, uma mulher aparentemente humilde que é informada da morte da filha pelo rádio. Demétrius Souza é o Secretário de Defesa Social, um homem às vezes asqueroso que trabalha constantemente com José Caravaggio, o presidente do Instituto Banho Seguro, e Bruna, a sensual assessora de uma instituição importante para a história. Juntos, os personagens precisam discutir se é válido ou não o cancelamento do evento diante dos possíveis incidentes com tubarões.

Um dos acontecimentos mais esperados do verão, no entanto, acontecerá independente dos riscos. Basta trocar o nacionalista 04 de julho hollywoodiano pelas comemorações do dia 07 de setembro brasileiro. Essa é a adaptação cultural do romance Mar de Sangue, obra que foi lançada na esteira de um dos mais famosos incidentes com tubarões em Recife nos últimos anos, isto é, o caso Bruna Golbi, de 18 anos, jovem que estava de férias na cidade e curtia a praia de Boa Viagem quando ocorreu o ataque. Era um dia relativamente chuvoso, o calendário previa lua cheia e a água estava bastante turva, todos os elementos indicativos do aviso “não entrar na água” ou “tenha bastante cuidado”, complementados pelas diversas placas enormes, óbvias e bilíngues presentes por todo o litoral. Bruna ainda foi socorrida com vida, mas morreu por conta da perda de sangue excessiva e das paradas cardíacas. O caso ganhou comoção nacional e ferveu as discussões sobre os incidentes em Recife, assunto bastante notório desde os anos 1990.

Mar de Sangue é um romance que peca bastante no quesito editorial. A diagramação é básica, mas a composição geral de Ricardo Heleno e a qualidade do papel consegue ser pior que as publicações de romances clássicos de domínio público vendidos em feiras populares de livro pelos quatro cantos do país. O leitor pode se perguntar se isso chega a ser um problema. Garanto que sim. Qualquer gota de lágrima diante de uma situação catártica (inexistente no livro) ou pequeno descuido danificará facilmente a publicação. O que dizer da capa? Uma vergonha para um livro com tamanho apelo comercial, haja vista o interesse social pelo assunto.

Em suma, Mar de Sangue é o extremo oposto de Mitos e Verdades Sobre os Ataques de Tubarões no Recife, livro que delineia o talento de Arnaud Mattoso no mercado editorial, isto é, um escritor investigativo, criativo e direto, mas com intimidade com o texto jornalístico. É como crítico de cinema que sabe construir um filme em sua concepção mental, mas na prática não consegue dar cabo da missão. Mar de Sangue é fraco, sem pulso, morre na praia, tal como muitas vítimas dos ataques de tubarões ao redor dos litorais no planeta.

Mar de Sangue (Brasil, 2014)
Autor: Arnaud Mattoso
Editora: Chiado Brasil
Páginas: 134

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.