Crítica | Mar Sangrento – Assassino das Profundezas

Mar Sangrento é mais uma das numerosas tentativas fracassadas da indústria em tentar fazer um filme com tubarões que tenha o mínimo de credibilidade.  As cenas são horrorosas, as tentativas de criar tensão não funcionam, a história no geral não empolga e o desejo é fatal: você clama para que todos sejam devorados pelo tubarão fajuto e que a história acabe o mais rápido possível. Produzido na Alemanha, o filme oferta ao espectador 104 minutos de uma narrativa que você provavelmente vai tentar esquecer o mais rápido possível.

Dirigido por Jorgo Papavassiliou, também responsável pelo roteiro, juntamente com Roland Heep, Mar Sangrento é uma história situada num local paradisíaco, repleto de ilhas próximas e muita beleza, recanto ideal para curtir as férias. É o ambiente que representa a metonímia do verão europeu. Os jovens querem curtir, fazer sexo, beber e usar drogas sem intervenção de ninguém. O ponto de partida para a jornada é a trajetória de sempre. Um homem indo de encontro ao sistema e ainda de quebra tendo que enfrentar um tubarão. Desta vez, no entanto, o coitado do herói precisa ser mais forte do que nunca, pois não está lidando com feras do quilate do tubarão branco ou tubarão-touro: o conflito gravita em torno do lendário megalodon, uma espécie que todos acreditavam extinta, mas que ainda assusta as águas da região repleta de turistas, isto é, personagens mais planos que uma folha de isopor, empacotados por encomenda pelo roteiro para se tornar carne moída em seus poucos instantes em cena.

Mas, afinal, quem é o grande herói da narrativa? Diante das digressões, o protagonista não foi devidamente apresentado. Trata-se de Sven Hansen (Ralf Moeller), um antigo membro da marinha que tem no seu passado um encontro trágico com o terrível megalodon, situação que ceifou a vida de sua esposa. Ele tem certeza que as embarcações e banhistas sumidos nas últimas semanas estejam indo de encontro ao mesmo destino: a enorme boca repleta de dentes bastante serrilhados do pré-histórico tubarão.

Para resolução do problema, Sven precisa contar com a ajuda da bióloga Julia Bennet (Julia Skinshoff), respeitada pesquisadora convidada para atuar num laboratório local. Diferente dos tubarões pré-históricos que surgem por conta das perfurações indevidas de poços de petróleo ou fissuras causadas por derretimento de calotas polares, o tubarão responsável pelos ataques é parte dos negócios de um cientista inescrupuloso. O esquema final o espectador pode prever fácil: ele vai lutar contra o sistema e enfrentar todas as adversidades possíveis até o fatídico encontro com o tubarão, num dos piores trabalhos com efeitos especiais, bem abaixo das bizarras produções ao estilo Planeta dos Tubarões, Tubarão Atômico e outras aberrações do cinema assumidamente trash. Curioso observar que os personagens e o roteiro de Mar Sangrento se embasam na falsa impressão de que a história tem o mínimo de dignidade. Mas não tem e falta bom senso dos realizadores para perceber isso.

Há uma única cena talvez divertida, o momento em que uma das pesquisadoras charlatãs do laboratório conta para a funcionária novata que um dos tubarões do reservatório de pesquisa foi batizado de “Hannibal”. Era pra ser uma piada? Uma homenagem? Independente das intenções, a cena foi um dos poucos momentos não sonolentos deste que talvez seja um dos piores filmes do subgênero, tamanha a falta de habilidade dos realizadores em criar um enredo instigante, com personagens carismáticos e história minimamente curiosa. Nada, leitor, creia na palavra, nada se salva neste filme que é uma verdadeira aberração.

Mar Sangrento – Assassino das Profundezas — (Hai-Alarm auf Mallorca) Alemanha, 2004.
Direção: Jorgo Papavassiliou
Roteiro: Jorgo Papavassiliou, Roland Heep
Elenco: Ralf Moeller, Julia Stinshoff, Gregor Bloéb, Patriq Pinheiro, Vanessa Hilger, Dayan Kodua, Stephan Korves, Jasin Challah
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.