Crítica | Marcas da Violência

David Cronenberg há muito demonstrou sua capacidade de chocar, incomodar o espectador através de sua construção imagética. Suas narrativas evocam a curiosidade da audiência, ao mesmo tempo que geram receio acerca do que veremos a seguir, de tal forma que mergulhamos cautelosamente em seus filmes, em geral, sabendo que não veremos uma simples fonte de entretenimento. Baseado na graphic novel de 1997 de John Wagner e Vince Locke, publicada pela Paradox Press e, depois, pela Vertigo ComicsMarcas da Violência, não é exceção, nos mostrando um retrato insólito de vidas despedaçadas, revelando a dificuldade de deixar o passado violento para trás.

A trama nos apresenta Tom Stall (Viggo Mortensen), pai de família que vive em uma pequena cidade no interior. Após impedir um assalto em sua lanchonete, matando os dois criminosos responsáveis no processo, ele é reconhecido como herói na cidadezinha, tanto pelos outros cidadãos quanto pela mídia. Isso, contudo, acaba atraindo um grupo de mafiosos, liderados por Carl Fogarty (Ed Harris), que insistem que Stall, na realidade, é Joey Cusack e que estivera envolvido com essas pessoas há anos. De uma hora para a outra a vida de Tom e sua família é colocada em xeque, enquanto seu passado volta para assombrá-lo.

Iniciado com uma sequência de assalto, o roteiro de Josh Olson já nos deixa preparados para o que está por vir, revelando, desde cedo, que não iremos ver um simples retrato da vida comum. O texto, no entanto, não segue pelo óbvio e elabora constantes contrastes entre Tom e Joey, as duas personas do protagonista – uma é um homem pacífico, já a outra é uma pessoa extremamente violenta, capaz de matar qualquer um em seu caminho. Essa contraposição se estende para a sua vida em família antes e depois do incidente na lanchonete, aspecto bem pontuado pelas duas cenas de sexo do filme – uma apaixonada e a outra mais violenta, refletindo perfeitamente a metamorfose do personagem central.

Visivelmente a trama segue por caminhos bastante previsíveis, não criando reviravoltas efetivamente inesperadas. Marcas da Violência, porém, não é um filme sobre sua história e sim sobre seus personagens, que recebem toda a devida atenção, a tal ponto que sentimos, de fato, como se fossem pessoas reais. Mortensen, recém saído da trilogia O Senhor dos Anéis, não cansa de surpreender, nos entregando um retrato crível de um homem que tenta deixar o passado de lado. Sua linguagem corporal, muitas vezes hesitante, revela o cuidado que ele tem ao agir – tudo é natural ao extremo, o que permite que, imediatamente, nos identifiquemos com o protagonista, entendendo suas motivações e receios.

Cronenberg, claro, não deixa barato para nós, espectadores, criando sequências verdadeiramente angustiantes, que não escondem a violência que dá título à obra. Tudo é visceral ao máximo, tanto as cenas de sexo, quanto as de assassinato, algumas das quais assumem uma brutalidade raramente vista em filmes mainstream. O diretor não permite que simplesmente encostemos na cadeira e aproveitemos tal narrativa, ele problematiza toda a violência e tece críticas pungentes à maneira como ela é banalizada, fazendo desse um conto sobre a sobrevivência dos mais aptos. Com a trilha de Howard Shore sabendo muito bem transitar entre a tranquilidade e a ruptura desta, sempre mantendo a tensão no espectador.

Dessa forma, Marcas da Violência prova ser um verdadeiro estudo de personagens, fazendo uso do contraste entre paz e violência para demonstrar como esta pode desestabilizar a vida tranquila em uma pequena cidade do interior. Cronenberg acerta em cheio com esse retrato visceral, contando, de quebra, com um ótimo elenco e excelentes composições de Howard Shore. Não por acaso o diretor continuaria abordando temáticas similares em seu seguinte filme, Senhores do Crime.

Marcas da Violência (A History of Violence) — EUA/ Alemanha/ Canadá, 2005
Direção: 
David Cronenberg
Roteiro: Josh Olson (baseado na graphic novel de John Wagner, Vince Locke)
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill, Stephen McHattie
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.