Crítica | Marcas do Destino

Marcas do Destino é um filme sobre a diferença. Mas, afinal, o que é ser diferente? A discussão é tão constante na contemporaneidade, parte da agenda de setores diversos da vida cotidiana. Falamos disso no âmbito da Literatura, do Cinema, da Psicologia, da Educação, da Política e de tantos outros “ambientes” que a lista completa apresentaria numerosos caracteres. A diferença, entretanto, delineada ao longo dos 120 minutos do filme em questão trata da narração de uma trajetória bastante peculiar: a saga de uma mãe que precisa lidar com o preconceito e a ignorância diante das pessoas que não entendem a “diferença” do seu filho, um jovem que possui uma doença rara e por isso, é motivo de chacota, descrença e outros problemas que compõem o painel de celeumas da vida em sociedade.

Dirigido por Peter Bogdanovich, Marcas do Destino teve roteiro assinado por Anna Hamilton Phelan e conta a história de Roy (Eric Stoltz). O enredo se desenvolve na Califórnia e retrata os problemas oriundos da Displasia Craniodiafisária, acúmulo de cálcio no crânio que faz Roy parecer que usa uma estranha máscara no rosto. A doença faz os ossos crescerem demais, algo raríssimo e que geralmente não permite que o indivíduo passe do período da infância, tendo como marca a vida curta.

O ponto de partida é numa fase já avançada da vida do garoto. Ele é muito inteligente e perspicaz, mas o diretor da escola em que estuda se nega a matriculá-lo normalmente, alegando que ele deveria ser ajustado numa turma de educação especial. Florence Dennis (Cher) é o seu equilíbrio. Dedicada, ela consegue a matrícula na escola pública, mas sofre os preconceitos já esperados por uma mãe que tem um filho com “deficiência” ou qualquer apresentação que esteja fora dos padrões fixados pela sociedade. Essa é apenas uma das brigas de sua mãe, uma mulher obstinada a enfrentar qualquer peça do sistema para conseguir dar dignidade a cada minuto de vida do filho. As previsões do diretor não condizem com o trajeto, pois o jovem consegue terminar o colegial e arruma o seu primeiro emprego, um cargo de monitor de um acampamento, local responsável por promover a única paixão de sua vida, a bela Diana (Laura Dern), uma garota cega que também se apaixona pela singularidade de Roy, um jovem extremamente delicado e inteligente.

Diante da situação exposta, acompanhamos o cotidiano sofrido de Roy, jovem que mesmo diante das dores de cabeça insuportáveis, demonstra seu bom desempenho estudantil e a sua força para viver intensamente o pouco tempo que parece ter. Ele é cheio de vida, catalisador de energia para as pessoas que gravitam em torno da sua existência, o que o torna um ser brilhante e mais bem resolvido com sua questão do que muita gente que convive diariamente. Ao seu lado estão, constantemente, Gar (Sam Elliot) e Ben (Lawrence Monoson), dois dos principais amigos que Roy mantém em sua trajetória. Assim, o jovem atravessa a sua jornada e inspira amigos, família, professores e demais pessoas que passam por sua vida em algum momento, numa trama que aborda a questão das aparências e a fragilidade desse paradigma.

A cinebiografia é de Roy, mas Florence Dennis ganha bastante destaque, principalmente por conta do roteiro que foge de esquematismos. Ela é uma mãe imperfeita, pelo menos diante dos padrões que a sociedade impõe. Viciada em drogas, não consegue se controlar em muitos momentos, mas ainda assim, exerce de maneira competente o seu “papel” de mãe, ao fornecer o devido apoio ao filho sempre que necessário. O vício, entretanto, não impede que ela seja responsável com as questões ligadas ao filho. Dentro do esquema maternal ela é até muito compenetrada. Ela nos remete ao que o especialista Paniagua traz, em A Família de Crianças com Necessidades Educativas Especiais, quando afirma que os padrões de força, eficácia, beleza e perfeição são valorizados na sociedade, o que faz com que as pessoas esperam que seus filhos sejam eficientes e tenha saúde. Casos como o de Roy fazem os pais revisarem os seus projetos, interrompidos pelos obstáculos oriundos das “imperfeições” e dos limites trazidos pela deficiência. Em suma, mães como Florence Dennis vivem experiências de adaptação complexa, algo que pode ser doloroso e longo.

Narrado por meio de uma estrutura que é um pouco lenta, o que beira levemente ao monótono em alguns trechos, Marcas do Destino é eficiente nos aspectos visuais que compõem a história. A direção de arte de Norman Newberry consegue dar ao quarto de Roy o clima tipicamente adolescente, a casa do garoto e a escola são ambientes adequadamente contemplados pelo trabalho cenográfico de Richard J. DeCinces, elementos captados pela burocrática direção de fotografia de Lászlo Kovács. A música de Dennis Ricotta, sem a intrusão esperada neste tipo de narrativa, funciona bem dentro do básico, sem grandes surpresas.

Lançado em 1985, Marcas do Destino é um drama que edificante que foge das emoções vulgares, comuns aos filmes desse estilo. A história não entra em outros detalhes, mas a história de Roy é muito conhecida fora da ambientação fílmica, pois o seu caso raro mexeu com a comunidade médica e levantou debates que extrapolam a ficção. Desenganado ainda quando tinha dois anos, sob a promessa que não passaria dos quatro anos de idade, o jovem Roy lutou o quanto pode e viveu até os dezesseis anos.

A sua mãe, um exemplar perfeito de um ser humano comum, sem heroísmos fajutos, e por isso, repleta de erros e acertos em suas escolhas, sem a composição essencialista maternal típica hollywoodiana, é um modelo adequado para a composição de um equilibrado desenvolvimento de perfil e necessidade dramática de um personagem. Cher, em uma das suas atuações mais exemplares, consegue alavancar tais qualidades, ao entregar um excepcional desempenho dramático.

Marcas do Destino (Mask) — EUA, 1985
Direção: Peter Bogdanovich
Roteiro: Anna Hamilton Phelan
Elenco: Cher, Sam Elliott, Eric Stoltz, Estelle Getty, Richard Dysart, Laura Dern, Micole Mercurio, Harry Carey Jr., Dennis Burkley, Lawrence Monoson, Ben Piazza, L. Craig King, Alexandra Powers, Kelly Jo Minter, Joe Unger
Duração: 120 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.