Crítica | Maré Negra (2012)

O cineasta John Stockwell é um cara sem sorte. Praticamente todos os seus filmes são ruins ou irregulares. A Onda dos Sonhos é uma bobagem dramática sobre superação de obstáculos que contribui muito pouco para o gênero aventura, tal como Mergulho Radical, filmes produzidos em relação ao mar, pois parece que o realizador adora aventuras viscerais em água salgada. O que acontece é que as suas tramas só tem de interessante apenas os títulos. Turistas é um fracasso retumbante, não porque focou em famigerados estereótipos sobre os brasileiros, mas por conta da maneira como abordou a tortura e a violência, longe do grafismo e da perturbação psicológica dos ótimos Jogos Mortais e O Albergue, filmes que provavelmente o influenciaram.

Em Maré Negra, ele consegue fazer um trabalho muito pior que os antecessores citados. Quando um cineasta dirige uma boa atriz como Halle Berry e consegue fazê-la entregar um dos piores desempenhos de sua carreira, é sinal de que há algo errado em sua concepção artística. Em 2012, quando o primeiro trailer do filme saiu, as expectativas eram baixas, pois o gênero ganharia força novamente apenas em 2016, com os ótimos Nas Profundezas e Águas Rasas.  O material promocional era vago e nos mostrou exatamente o que seria o filme: um dos desastres mais tenebrosos do subgênero jawsplotation.

Muitos filmes com o tema tubarões assassinos tinham sido feitos. A maioria inferior ao filme ponto filme de 1974, considerado o ponto de partida. Como surpreender? Para isso, John Stockwell decidiu filmar o roteiro de Amy Sorlie e Ronnie Christensen, uma trama cheia de linhas narrativas paralelas que em nada ajudam e tornam o filme mais enfadonho e chato do que possamos imaginar: medo de mergulho, um episódio trágico que envolve um tubarão e o relacionamento amoroso conturbado da protagonista são os temas deste derivado pouco convincente do filme de Spielberg.

Kate Mathieson (Halle Barry) é uma mergulhadora que possui experiência com mergulho profissional e foi destaque de competições ao nadar com grandes tubarões brancos, realizados sem o auxílio de jaulas ou equipamentos de respiração.  Um de seus trabalhos mais instigantes é o documentário que realizava com o namorado, o cinegrafista Jeff (Martinez). O problema é que durante as filmagens, o seu mentor, interpretado por Ralph Brown, é morto ao ser atacado por um tubarão, o que traz uma avalanche de dores de cabeça para a protagonista, principalmente o sentimento de culpa que culmina com o medo de entrar na água (seria uma referência ao protagonista de Tubarão?).

Repleta de problemas pessoais algum tempo depois deste desastre, Kate encontra-se afundada em dívidas, tendo que lidar com um barco concorrente que também realiza passeios turísticos pela região, algo que ela adotou como atividade para suprir as necessidades financeiras.  Eis que surge um empresário que lhe propõe mergulhar novamente com tubarões, o que pode mudar a sua vida financeira e o seu atual estado psicológico.

Até então o espectador assiste ao filme esperando, ao menos, cenas de suspense, a presença dos ameaçadores tubarões, mas o que se tem é um conjunto de cenas desconexas, tomadas marinhas longas e excessivas, com a passagem de um tubarão aqui e ali. A trilha sonora de Mark Sayfritz não diz muita coisa, o diretor de fotografia Jean-François Hensgens faz o que pode com as competentes tomadas submersas, mas o caminho para o desfecho anticlimático e monótono, bem como a pouca relevância do filme para o subgênero nos reforçaram o quanto os tubarões estavam agonizantes no bojo da indústria cinematográfica.

Se o leitor quer uma história de sobrevivência, mais catártico ler a história de sobrevivência de Caitlyn Taylor, nadadora da Flórida que foi atacada num torneio e livrou-se do animal com socos. Durante o seu ataquem alguém gritou que havia um golfinho na água, mas foi apenas depois do ataque da fera que prendeu as suas pernas que ela sacou a situação delicada que lhe envolvia. Com 130 pontos na perna, a sobrevivente retornou logo depois da recuperação para os eventos olímpicos, tornando-se um caso de sucesso dentro do painel de tragédias envolvendo ataques de tubarões que lemos e assistimos por ai, seja na realidade ou no mundo da ficção.

Maré Negra (Dark Tide) — EUA, 2012
Direção: John Stockwell
Roteiro: Ronnie Christensen, Amy Sorlie
Elenco: Halle Berry, Olivier Martinez, Ralph Brown, Mark Elderkin, Luke Tyler, Thoko Ntshinga, Sizwe Msutu
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.