Crítica | Maré – Nossa História de Amor

estrelas 3,5

Abelardo e Heloísa. Tristão e Isolda. Dé e Nina. Ah, e Romeu e Julieta, uma das peças teatrais mais famosas de um dos maiores dramaturgos da história, segundo o crítico literário Harold Bloom e os seguidores do cânone literário ocidental. Entre 2007 e 2008, a história de amor entre famílias rivais e amores “impossíveis”, ganhou duas traduções intersemióticas (termo adequado para adaptação, tendo em vista que dentro do campo semiótico, a história sai de um suporte e se apresenta em outro). Era Uma Vez e MaréNossa História de Amor.

A primeira, um drama urbano situado entre a favela e a elite do Rio de Janeiro trouxe elos mais distantes com a peça em questão, mas não deixou de ser assumidamente uma releitura. No caso da história situada na favela Maré, local que há décadas começou como palafitas e passou por um processo de urbanização que aumentou vertiginosamente a sua população, e por sua vez, as tensões sociais, a pobreza e o tráfico de drogas, a presença de Shakespeare é mais notável, pois é citado em algumas passagens e possui um roteiro mais debruçado na tragédia renascentista.

Dirigido por Lúcia Murat, profissional que também assina o roteiro, em coautoria com Paulo Lins, Maré – Nossa História de Amor nos traz a história de amor entre Analídia e Jonatha. Eles desejam ser dançarinos e é numa ONG que ensina dança para pessoas carentes que eles se encontram. Ambos sabem os perigos de assumirem um relacionamento. Ela é uma garota de 16 anos, cheia de sonhos, prima do chefe do tráfico de um dos lados da favela. Ele, morados do outro lado, é um representante cultural do espaço, atua como MC e ainda é estudante de dança, o que desagrada o seu irmão, uma das pessoas que não o apoia. O rapaz ainda tem o sonho de gravar um CD. Amigo de infância de Dudu (Babu Santana), chefe do tráfico de um dos lados da favela.

Nessa história temos a intermediária entre a favela e o “outro” lado da cidade. É Fernanda (Mariah Orth em ótimo desempenho), bailarina no passado que aceita trabalhar com os jovens, mesmo que sem muito interesse inicialmente, mas ao passo que seu personagens evolui, ela se integra aos jovens e consegue dar corpo aos seus projetos no local, sempre no fogo cruzado entre os lados rivais, na tentativa de conseguir realizar algo diante de uma realidade tão desoladora.

Os traficantes responsáveis por estabelecer os conflitos na trama são Bê (Jefchander) e Dudu, o já citado Santana, um dos melhores desempenhos dramatúrgicos do filme. No auge da sua juventude, Bê tem 20 anos e disputa o lado esquerdo, enquanto Dudu, líder do lado direito, é conhecido por seu comportamento destemperado e violento, o que ocasionalmente causa medo em algumas pessoas, exceto em Jonatha, rapaz que ele trata com carinho e esmero.

Alguns comentaram que os números musicais que comentam o que a cena em si já nos faz experimentar surge como um ruído narrativo. Prefiro discordar e ver como uma espécie de metáfora para o coro da tragédia, elemento cheio de significação e que não incomoda em nada. Ao passo que os 104 minutos avançam, você se afeiçoa pelo lado dos vermelhos (Analídia) e dos azuis (Jonatha), mergulha num caldeirão de representações culturais com direito a hip-hop, grafite, dança de rua e o prólogo do texto clássico recitado por rappers em um trecho, organizado dentro da montagem tão eficiente quanto a direção de arte.

Romeu e Julieta pode ser considerado um daqueles textos que parece ser adaptável para qualquer contexto, talvez por isso, seja tratado como “universal”, termo visto com desdém pelos estudos literários oriundos de correntes teóricas mais contemporâneas, mas o fato é que só no cinema brasileiro, a história de amor já apareceu diversas vezes. Em 1935, no Rio de Janeiro, a sua primeira versão foi levada aos cinemas, num formato curto com película preto e branco e 35mm. Como muitos registros do começo de nossa história cinematográfica, este é mais um de que só se tem notícias por documentos e críticas.

Em 1961, O Candango da Belacap, um dos ícones da chanchada, também se entregou ao texto de Shakespeare e trouxe a famosa cena da sacada, num tom paródico. Outras iniciativas já emularam a obra, tal como a comédia O Casamento de Romeu e Julieta e alguns programas televisivos, mas poucos tiveram a faceta crítica do romance musical ao estilo Amor Sublime Amor. Lúcia Murat, cineasta corajosa e militante no que diz respeito ao cinema autoral no Brasil, fez muito bem o seu trabalho.

O filme estreou comercialmente em abril de 2008, mas em 2007 passeou por alguns festivais, por sinal, muito premiado. Um crítico escreveu na época que se tratava de uma história de balas e beijos. A paródia com a música popular é interessante e certeira, pois o filme tem bastante disso. Entre beijos acalorados e desejo de mudança, há uma crítica social que descortina os males da política, da cultura e da educação no Brasil. Há o traficante “gente boa” que ajuda com dinheiro, mas no fundo os seus interesses territoriais falam mais alto. A fuga de Analídia e Jonatha não é apenas explosão dos hormônios da juventude, mas na verdade, representa uma vida longe daquela realidade, algo que nem sempre os jovens tem a oportunidade de escapar. Triste favela!

Maré, Nossa História de Amor — Brasil, 2007
Direção: Lúcia Murat
Roteiro: Lúcia Murat, Paulo Lins
Elenco: Anjo Lopes, Babu Santana, Cristina Lago, Elisa Lucinda, Flavio Bauraqui, Jefchander Lucas, Malu Galli, Marisa Orth, Vinícius D´Black
Duração: 118 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.