Crítica | Marguerite (2015)

estrelas 4,5

É fácil prever quando uma obra tem a possibilidade de se tornar um clássico, baseando-se pelo único fator que, em tese, a torna um clássico. Tal fator é, tão somente, o seguinte: a obra deve falar para além de seu tempo, deve permanecer atual mesmo com o passar de décadas e mesmo de séculos.

Existe, contudo, um segundo fator, inerente e implícito a qualquer obra. Um fator que, ainda assim, é tão óbvio que sequer tem de ser anunciado, mas está lá; antes de tudo, seja em que tempo for: para se tornar clássica, uma obra tem de ganhar visibilidade, do contrário, um livro atemporal jamais terá a possibilidade de ser reconhecido como tal se permanecer fechado, ignorado, por anos a fio ou para sempre, esquecido em uma prateleira empoeirada, soterrado por títulos com capas mais atraentes.

Este filme de Xavier Giannoli, Marguerite (2015), talvez venha, um dia, a ser reconhecido como um clássico, mas, talvez, nunca o seja, apesar de contar a história de um personagem que, mesmo por um breve tempo, recebeu a atenção que o próprio longa, possivelmente, nunca receberá, mesmo com o andar dos anos.

A trama se passa, principalmente, em meio à elite francesa dos anos 1920. O personagem em questão é a rica baronesa Marguerite Dumont (Catherine Frot) que, amante da música — destaque para clássicos de ópera –, não só promove concertos privados para a burguesia como também faz questão de cantar, de vez em quando, ela própria, ao seu círculo de conhecidos. O problema é que, a bem da verdade, ninguém suporta o desafinar da mulher. Não demora, porém, para que o espectador compreenda que, nessa história baseada na vida da cantora Florence Foster Jenkins — e quantos casos de ditos artistas contemporâneos não poderiam inspirar uma história semelhante –, a verdade é o que menos importa.

Desde o começo do longa, canções e performances atestadamente profissionais, dentro e fora do âmbito ficcional, desfilam pela tela e por nossos ouvidos – daí provém as belas trilha sonora e ambientações artísticas que o filme apresenta. Para os membros do círculo de Marguerite, contudo, o que vale é garantir o convite para o concerto seguinte e não arriscar, de modo algum, ofender a anfitriã dedicada a eventos beneficentes para órfãos de guerra. Tal preocupação, no entanto, não inclui os demais artistas, cujos defeitos, mesmo que aos cochichos, são frequentemente apontados segundo opiniões individuais – no caso de Marguerite, o contido desconforto é, claramente, coletivo.

Do fingimento à mentira é dado um único passo e, pelo pé de quem o dá, torna-se verdade. Um jornalista, presente a um dos eventos, escreve um artigo declarando que Marguerite evoca originalidade, assim garantindo bajulação e ganhos financeiros da ricaça. Pronto, já existe quem possa buscar por beleza no que, a princípio, julgava ser a pior coisa do mundo. É interessante reparar, aliás, como a direção das intragáveis apresentações de Marguerite é sempre conduzida de modo que ela até acerte uma nota ou outra, como que provocando o público a constatar uma certa beleza aqui e ali, só para, no instante seguinte, pôr tudo a perder com um desafinar tenebroso — claro, sempre com uma progressão muito verossímil.

Como se espera, ao menos por parte do espectador que enxergar a veia crítica da produção — sutil, mas sempre lá, e que norteia todo o desenrolar da trama, com múltiplas camadas de significado –, a coisa só piora. Marguerite decide se apresentar para um grande público, em um teatro de verdade. Contrata um professor para ajudá-la a ensaiar e, aqui, tem-se um exato ótimo exemplo das referidas constantes múltiplas camadas de significado inseridas na narrativa; considerando que a contratação tanto pode ser interpretada como preocupação genuína por parte de Marguerite, quanto como mera formalidade em prol da boa imagem de uma falsa humildade.

Nesse caso, é claro, tal dubiedade apenas se sustenta porque o mistério acerca do que realmente se passa na cabeça de Marguerite é constante — aplausos, nesse sentido, para as atuações de Frot e elenco de apoio, todos claramente engajados na produção. Não se sabe se ela acredita, de fato, possuir talento para a música, ou qual é sua motivação para agir como age. Ela afirma fazer tudo em homenagem ao marido, mas isso é tão somente o que ela diz e, ao menos na maior parte do longa, a mulher é tão pouco eficaz em tal objetivo, insistindo, no mínimo, em uma das maiores fontes do desprezo que o homem sente pela esposa — oculto em palavras, mas claro em sua indiferença –, que a baronesa pode estar apenas brincando com ele, como que prisioneira da influência a ela conferida sobre os demais por sua posição social. O próprio marido, diga-se de passagem, põe em dúvida a justificativa de Marguerite, ao manifestar, pouco antes da fatídica grande apresentação da esposa, sua dúvida quanto a ela realmente o amar.

Dividido em capítulos — 5, ao todo –, o filme é, em sua maior parte, leve, na medida em que suas críticas são inseridas com o humor e sutileza, associados a produções europeias. Tendo como único ponto fraco sua ligeira queda de ritmo no quarto capítulo, entretanto, a verdadeira natureza do longa é revelada em seu último capítulo, a começar pelo derradeiro e inteligente esforço que que Marguerite parece fazer, por alguns meros segundos, para cantar tal como uma soprano, antes que o inevitável aconteça.

Já sobre a conclusão, é de toda simbólica e pode não ser bem recebida por espectadores que talvez fiquem com a sensação de um final genérico. Trata-se, porém, de um término brilhante, fechando com perfeição o círculo argumentativo construído até então. Espera-se que, com o tempo, o valor da mensagem aqui seja devidamente reconhecido, como o clássico que pode ser, em redenção às capas belas, mas ocas, que o foram e ainda o são, mesmo que por um breve momento, tão vítimas de si próprias quanto do sistema que as expôs por cima de outras e de quem as leva a sério.

Marguerite (idem), França, República Tcheca, Bélgica – 2015
Direção: Xavier Giannoli
Roteiro: Xavier Giannoli, Marcia Romano
Elenco: Catherine Frot, André Marcon, Michel Fau, Christa Théret, Denis Mpunga, Sylvain Dieuaide, Aubert Fenoy, Sophia Leboutte, Théo Cholbi, Astrid Whettnall
Duração: 129 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.