Crítica | Marguerite & Julien: Um Amor Proibido

estrelas 2,5

A temática do incesto não é novidade no cinema, Os Sonhadores está aí para provar isso, e já foi trabalhada de inúmeras formas, algumas de maneira sensual e erótica, outras problematizando a questão, ou apenas utilizando tal fator a fim de construir o instável psicológico de personagens, como é o caso de Game of ThronesMarguerite & Julien aborda um desses cenários, adaptando o roteiro que Jean Gruault havia originalmente escrito para François Truffaut. Temos aqui uma história aos moldes de Romeu e Julieta, porém com esse grande agravante. Infelizmente, sem saber dinamizar a narrativa, o filme acaba se tornando um melodrama no qual nada acontece.

A história nos é contada em um orfanato por um grupo de meninas e gira em torno de Marguerite (Anaïs Demoustier) e Julien de Ravalet (Jérémie Elkaïm), dois irmãos, do início do século XX, que desde cedo passavam o tempo inteiro juntos, proclamando o amor um pelo outro constantemente. Enxergando o nascimento de um possível problema não só para eles próprios como para toda a família, os pais do casal enviam Julien para estudar fora, na esperança de que essa chama se apagasse. Ao voltar, anos depois, contudo, ambos continuam se amando e, sem conseguirem resistir começam a trilhar o caminho de uma perigosa relação proibida.

O problema de Marguerite & Julien está longe de ser seu argumento – esse consegue esboçar uma narrativa engajante, que dispensa julgamentos sobre a relação de Julien e sua irmã. A obra peca na forma como volta sempre para o mesmo ponto repetidas vezes, nos fazendo sentir como se estivéssemos diante dos exatos mesmos acontecimentos com uma roupagem diferente. De início já sabemos do amor que um nutre pelo outro e custa mais da metade do filme para que eles saiam da situação que os encontramos no início da projeção – em outras palavras, até aí praticamente nada de relevante ocorre, apenas uma infindável repetição de eventos extremamente similares.

O que nos salva são os esforços de Anaïs Demoustier e Jérémie Elkaïm, que verdadeiramente se dedicam a seus papéis. Há uma química irresistível entre os dois, a tal ponto que não é preciso uma palavra sequer para definir o que se passa entre eles, uma simples troca de olhares mais do que resume essa paixão proibida. Chega a ser desconfortante como, em vários momentos ao longo da projeção, acabamos esquecendo que estamos diante de dois irmãos. O roteiro deixa o questionamento dessas ações para o espectador tirar suas próprias conclusões, se despindo de julgamentos morais, chegando ao ponto de nos fazer torcer pelo casal.

A direção de Valérie Donzelli, infelizmente, não faz jus ao trabalho de seu elenco, optando por algumas escolhas que simplesmente não se encaixam com o que se passa no texto. Em mais de um momento todos os atores ficam estáticos, paralisados, enquanto a câmera se movimenta, um recurso que claramente busca trazer uma bela construção imagética, mas que é vazia, é a arte pela arte, sem nos trazer nenhuma informação, nem mesmo metafórica. Curiosamente, conseguimos enxergar claramente o benefício que essa escolha artística traria para outros planos da obra. Mas nem tudo é tragédia no trabalho de Donzelli, que consegue fisgar perfeitamente as faíscas do amor dos dois jovens através de seus planos mais curtos marcados por closes. A fotografia dialoga com a narração das meninas no orfanato, utilizando filtros envelhecidos a fim de nos passar a ideia de que estamos no passado.

N0 fim, Marguerite & Julien acaba sendo mais definido pelos seus deslizes que acertos – tenta nos contar a história de um amor proibido, mas acaba sendo vítima de uma gigantesca repetitividade, que não permite o desenrolar da trama. Não demora para que nos vejamos entediados pela história contada, desperdiçando todo o ótimo trabalho dos atores principais, que realmente se entregaram ao papel. De repente, nas mãos de Truffaut, teríamos um filme melhor.

 Marguerite & Julien: Um Amor Proibido (Marguerite et Julien) — França, 2015
Direção:
 Valérie Donzelli
Roteiro: Valérie Donzelli, Jérémie Elkaïm
Elenco: Anaïs Demoustier, Jérémie Elkaïm, Frédéric Pierrot, Aurélia Petit, Catherine Mouchet, Raoul Fernandez
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.