Crítica | Marnie, Confissões de uma Ladra

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estrelas 3,5

Em 1960, Alfred Hitchcock lançou aquele que é considerada, pela maioria dos críticos e do público, sua obra-prima máxima, e logicamente, estou me referindo ao clássico Psicose, que assustou e assombrou platéias com a famosa cena do assassinato no chuveiro. Três anos depois, Hitchcock lançaria outra obra também muito respeitada em sua filmografia, Os Pássaros. E é uma afirmação quase unânime que a carreira de Hitchcock começou a deslanchar após este período de boa safra. Marnie, Confissões de Uma Ladra marca o início da descida de Hitch na qualidade de seus filmes, mas verdade seja dita: apesar de estar longe das grandes obras do diretor, ainda consegue ser um bom suspense, que carrega consigo muitas das marcas que fizeram de Hitch o Mestre do Suspense.

Marnie (Tippi Hedren) tem compulsão por roubar e mentir. O seu modus operandi é arranjar emprego em alguma firma, trabalhar exaustivamente por alguns meses e ganhar a confiança de seus patrões, para depois limpar os cofres do local e desaparecer. Só que, em uma dessas empresas, ela é desmascarada pelo seu chefe, Mark (Sean Connery). Apaixonado por ela, ele não quer denunciá-la às autoridades. Por isso, vai fazer de tudo para que ela se livre da sua compulsão, mesmo que para isso tenha que fazer a moça confrontar definitivamente a sua distante mãe (Louise Latham).

Muitos ainda se perguntam o que levou Hitchcock a cair na qualidade de seus filmes, perto do final de sua carreira. Seria a idade? Ou estaria o velho Hitch apenas perdendo a mão? Na verdade, nenhuma destas indagações importam, e o que realmente conta é analisar a qualidade das obras em si, sejam elas ruins ou não. Numa análise resumida, Marnie – Confissões de uma Ladra é um suspense divertido, com seu roteiro deixando pontas soltas ao longo da projeção, para preencher as lacunas ao final, e assim, manter a curiosidade do espectador durante suas duas horas. Ainda que o ritmo não seja tão atraente (existe um certo excesso no romance), é uma obra bastante funcional dentro da proposta de entretenimento, com alguns momentos curiosos e outros bastante tensos.

Marnie, aliás, se revela uma personagem, no mínimo intrigante. Além de sua compulsão em roubar (e que gera alguns momentos muito interessantes), suas reações a tempestades fortes e a cor vermelha consegue gerar intriga e curiosidade sobre o mal que assola a mente dessa mulher, e sobre a origem de tanto pânico. Bem interpretada pelo colírio que é Tippi Hedren, Marnie consegue a empatia do espectador, por mais impulsivas e impensáveis que sejam suas ações, afinal, é algo que ela inevitavelmente, não consegue controlar.

E o filme, vale reafirmar, apresenta muitas das características que marcaram outras obras de Hitchcock. E a cena que melhor representa esta afirmação é quando Marnie encontra-se sozinha no banco onde trabalha, onde aproveita a situação para roubar o dinheiro do cofre pessoal de Mark. Mas logo em seguida, percebemos que Marnie não está sozinha no local, e a maneira como Hitchcock constrói a cena é digna, onde todos os cortes, o posicionamento das personagens e a utilização do silêncio privilegiam a construção da tensão e do nervosismo, que tomam conta completamente da cena. E o desfecho deste mesmo momento é hilário, contando com um humor negro que faria as comédias de Joel e Ethan Coen sentir inveja.

A costumeira excelência técnica nos filmes de Hitch também se faz presente aqui. Além de um uso bastante peculiar de sua câmera, é de se admirar a qualidade dos figurinos, sempre sofisticados e elegantes (o que só acentua a estonteante beleza de Tippi Hedren). E a trilha sonora de Bernard Herrmann, apesar de não ser tão memorável, consegue contagiar e servir de grande apoio em certos momentos.

Entretanto, é possível enxergar a pouca ambição de Hitchcock para com este projeto, e que de alguma forma, se refletiu em seus trabalhos posteriores. Marnie – Confissões de uma Ladra não possui nem um terço da complexidade que Hitch tanto exibia em seus suspenses, soando convencional em certo momento. Isto pode ser atestado, principalmente, no ritmo da obra, que começa interessante, mas aos poucos vai perdendo o fôlego e o interesse. O que salva são os minutos finais, que trazem respostas (satisfatórias) para os mistérios construídos.

Mas diferente de Marnie, os outros personagens não se mostram tão interessantes. O pai de Mark, Sr. Rutland (Alan Napier), que surge como uma figura completamente descartável para a trama. Mark, aliás, é um protagonista raso, cheio de charme, mas sem nenhum tipo de conflito que o torne um bom personagem (e nem o carisma de Sean Connery conserta isso). Mas nada pior do que a personagem Lil (Diane Barker). Seu olhar furtivo e desconfiado chamam a atenção, mas o roteiro jamais define quem ela realmente é, se é algum tipo de vilã interessada na fortuna de Mark, ou se apenas está interessada em Mark, e despreza Marnie por isso? Levando em consideração a atenção recebida pela personagem, era esperado que uma resposta para isso viesse. Não veio.

Apesar de seus poréns, Marnie – Confissões de uma Ladra consegue ser um bom programa, um suspense divertido e que consegue manter a atenção. Não é nada memorável, mas também não merece passar despercebido no meio do vasto currículo de Hitchcock.

Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie, EUA, 1964)
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Jay Presson Allen, baseado em livro de Winston Graham
Elenco: Tippi Hedren, Sean Connery, Diane Baker, Martin Gabel, Louise Latham, Bob Sweeney, Milton Selzer, Alan Napier
Duração: 130 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.