Crítica | Marseille – 1ª Temporada

estrelas 1

Marseille é a primeira produção original francesa do Netflix, que vem tratando de diversificar sua oferta tremendamente. Infelizmente, porém, a série é, para ser curto e grosso, um desapontamento colossal.

Sendo – ou tentando ser – um thriller político, a primeira coisa que inevitavelmente vem à mente é uma comparação com House of Cards. No entanto, apesar de ter realmente me esforçado, não consigo traçar paralelos entre as duas séries que não seja genericamente sua “classificação” como uma série que lida sobre o jogo político sujo (tem algum outro tipo?), desta feita na sucessão da prefeitura de Marselha, a segunda maior cidade da França. As semelhanças com as maquinações de Frank e Claire Underwood param por aí, pois seguir em frente seria uma afronta ao sensacional trabalho de Beau Willimon à frente de uma das melhores séries políticas já produzidas.

O maior problema de Marseille é que seu criador e showrunner, Dan Franck, parte da premissa que o público adora torcer por vilões, quaisquer vilões e, portanto, não se esforça em criar algo minimamente relacionável, seja por vilania pura, seja por algum tipo de empatia com os personagens. Mesmo com apenas oito episódios, é um suplício laborar pelas feições aborrecidas de Gérard Depardieu como Robert Taro, o prefeito da cidade há 20 anos e pelas caras e bocas absolutamente ridículas de Benoît Magimel, o vice-prefeito Lucas Barrès, protegido de Taro e seu sucessor nas eleições seguintes que trai seu mentor em razão de um “segredo”, colocando-os em polos opostos da corrida por votos. É também complicado relevar roteiros repletos de sub-tramas que não vão a lugar nenhum e que contêm diálogos retirados diretamente do Manual Cinematográfico dos Chavões e Clichês sem qualquer tipo de tratamento ou maturação que os costure adequadamente.

E, coroando a inabilidade de Dan Franck em capitanear sua criação, há, ainda, o tom épico e grave que ele tenta imprimir em todas as sequências, com os diretores Thomas Gilou e Florent-Emilio Siri descontrolados no uso de patéticas tomadas de transição com panoramas da cidade com a tenebrosa trilha do normalmente ótimo Alexandre Desplat ao fundo, como se fosse um tapa na cara do espectador que porventura estivesse dormindo no momento (algo que não é muito difícil de acontecer). Há, também, câmeras lentas inexplicáveis, que tornam ainda mais problemática a narrativa que às vezes parece até filme B de terror. Não ajuda em nada que Marselha em si – de certa forma refletindo a realidade, devo confessar – não é atraente esteticamente e a fotografia acaba realçando os problemas sem, porém, que tal realce tenha função narrativa dentro da trama fora o óbvio contraste entre a população rica, em (não tão)belas casas e a pobre em conjuntos habitacionais para as massas.

Gérard Depardieu, que um dia, há muito tempo, conseguiu alguns papéis interessantes aqui e ali, realmente está no fim de sua carreira. Atuando no automático e praticamente sendo ele mesmo a todo momento, o ator não consegue dar gravidade a seu personagem, que precisa repetir pelo menos cinco vezes por episódio que ama Marselha mais do que qualquer outra coisa para que lembremos que ele é um homem que dedicou 20 anos de sua vida à sua paixão mediterrânea. Acontece que o papel é tão mal escrito que sua paixão pela cidade, que teria feito com que ele largasse de lado a família, simplesmente não decorre naturalmente da relação dele com a esposa Rachel (Géraldine Pailhas) e com a filha Julia (Stéphane Caillard). Muito ao contrário, sua relação com as duas parece amorosa e dedicada e só é quebrada por momentos expositivos que usam diálogos pavorosos para basicamente contradizer o que está nas telinhas. É a arte da auto-sabotagem ou simplesmente da mais completa incapacidade de se escrever roteiros para a TV…

Aliás, Rachel e Julia ganham suas próprias sub-tramas. A de Rachel lida com o diagnóstico de uma doença degenerativa em suas mãos que a impedirá de tocar violoncelo, sua paixão. A metáfora entre sua tragédia e as escolhas de Taro sobre concorrer ou não mais uma vez à prefeitura para impedir que seu ex-protegido lhe dê uma rasteira, até poderia funcionar, não fosse a mão pesada dos diretores e do roteirista em abordar esse aspecto. Não há sutileza, não há meias palavras. Tudo é jogado bem mastigadinho no colo do espectador que só pode revirar os olhos em desespero. Além disso, a personalidade de Rachel oscila tremendamente, com inexplicáveis arroubos de raiva e de ciúmes em questão de horas e dias apenas pela conveniência narrativa de um roteiro perdido.

Julia, por sua vez, é uma repórter que quer escrever sem usar seu sobrenome famoso para o jornal local e que se envolve com Selim (Nassim Si Ahmed), rapaz muçulmano humilde, que vive na parte menos privilegiada da cidade. Isso desperta a ira de Eric (Guillaume Arnault) com quem Julia já teve um caso, mas que, hoje, o considera como um irmão. As consequências desse triângulo são dramaticamente desastrosas, ainda que estejam mais bem amarradas com a corrida pela prefeitura. É uma pena que o roteiro decida caminhar pela estrada mais viajada e lide com o conflito de maneira simplória e óbvia, ostensivamente abrindo espaço para Julia ao final fazer o que precisa fazer para amarrar as pontas soltas da história.

Mas a proverbial cereja no bolo é mesmo Lucas Barrès. O personagem, criado para ser alguém asqueroso e repugnante, parece muito mais um pastiche de ser humano. Com cabelo loiro pintado e ensebado, uma boca que parece fazer bico o tempo todo e um “olhar 43” constante de fazer rir, o personagem é uma caricatura do amante promíscuo, do político corrupto e do homem vingativo. Os movimentos empolados de Benoît Magimel o fazem ficar parecido com um galo vigiando seu terreiro e protegendo suas galinhas, tornando-o permanentemente artificial e conseguindo até mesmo fazer com que Depardieu pareça um bom ator quando os dois dividem a tela.

O desfile de problemas continua com uma presença mafiosa que não se encaixa verdadeiramente na trama e um segredo sobre o passado de Taro e de Barrès que é tão mal disfarçado e tão cheio de reviravoltas estapafúrdias, que faz a série parecer um filme de Alfred Hitchcock escrito e dirigido por Uwe Boll.

Marseille é vinagre que acha que é vinho, novela mexicana que acha que é série de TV. O empreendimento francês do Netflix infelizmente não mostra a que veio e naufraga magnificamente no Mediterrâneo.

Marseille – 1ª Temporada (França, 05 de maio de 2016)
Criador e showrunner: Dan Franck
Direção: Thomas Gilou, Florent-Emilio Siri
Roteiro: Dan Franck
Elenco: Gérard Depardieu, Benoît Magimel, Géraldine Pailhas, Nadia Farès, Stéphane Caillard, Hippolyte Girardot, Éric Savin, Pascal Elso, Lionel Erdogan, Nassim Si Ahmed, Guillaume Arnault, Hedi Bouchenafa
Duração:

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.