Crítica | Marty

estrelas 4

O cinema hollywoodiano é conhecido pela injusta crítica metonímica que enquadra as produções dentro da seara do escapismo e dos roteiros intelectualmente questionáveis. Sabemos que há muitas produções descartáveis ao longo da história do cinema “americano”, entretanto, um feixe de filmes brilhantes surge para tirar essa impressão do espectador leigo. Marty, premiado clássico lançado em 1955, assim como o ótimo A Malvada, é um desses casos: personagens aparentemente simplórias revelam-se complexos em tramas edificadas com diálogos estridentes e grandiosos.

Dirigido por Delbert Mann, tendo como guia o roteiro escrito por Paddy Chayefsky, a produção nos apresenta Marty (Ernest Borgnine) é um açougueiro italiano de 34 anos, bondoso e solitário. Cotidianamente a sua mãe pega no seu pé, ao insistir que ele arranje alguém para casar. Com baixa autoestima, ele acredita que nenhuma mulher vá se interessar por sua personalidade aparentemente simplória e banal.

O cenário se modifica quando certa noite, após muita insistência da sua mãe, Marty sai para uma festa onde há dança e conhece uma professora com características similares. A moça sente-se rejeitada e deslocada daquele espaço. Ao se aproximarem mutuamente, ambos desenvolve uma relação que tende a se transformar em algo que eles esperavam há tempos, entretanto, a insegurança e baixa autoestima da via de mão dupla deste encontro promete criar obstáculos que talvez prejudiquem o que há para ser revelado nesta aproximação.

Diante deste enredo, o filme faz uma radiografia bastante funcional da tradição da família para a sociedade da época, traço que foi se transformando com o tempo. A valorização da família italiana, traço bastante retratado no cinema, é apresentada durante o filme. O personagem central é o tempo todo apontado por todos. Ele é bondoso, atencioso, carinhoso, bom filho, bom amigo, mas constantemente é repreendido por ainda não ter cumprido a missão do matrimônio.

A produção é uma referência para a história do cinema de forma geral. O tempo da narrativa e o desenvolvimento do personagem protagonista são algumas destas referências. Começaremos, então, pelo personagem. Desajustado, banal, prosaico, ao passo que a narrativa evolui, Marty demonstra-se transgressor e complexo, em suma, um personagem esférico. Diante de um panorama de narrativas convencionais, lineares e engessadas da época, Marty surge como um diferencial dentro desse painel de histórias.

Outro ponto interessante a ser observado é o tempo da narrativa. Há algumas elipses discretas, mas parece que estamos assistindo aos acontecimentos em tempo real. O filme se passa em pouco mais de 24 horas na vida do personagem, o que nos mostra que o diretor e montador atuaram juntos para promover uma espécie de mágica fílmica que funcionou muito bem. Ainda no âmbito dos aspectos diferenciais do filme, há o roteiro que evita mastigar informações para o público ao deixar algumas cenas falarem por si. Em suma, um primor narrativo.

À guisa de curiosidade, Marty foi o primeiro filme em algumas categorias: exibido em Moscou em 1959, foi a primeira produção estadunidense a ser exibida na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, dentro da programação do Programa de Trocas. Ganhador da Palma de Ouro de Cannes, foi a primeira realização cinematográfica estadunidense a ganhar o prêmio. Na cerimônia do Oscar, levou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Ator, além de ter concorrido em categorias similares nas cerimônias do Globo de Ouro e do BAFTA.

Marty (Marty) – EUA, 1955.
Direção:  Delbert Mann.
Roteiro: Paddy Chayefsky.
Elenco: Ernest Borgnine, Allan Wells, Betsy Blair, Charles Cane, Augusta Ciolli, Doris Kemper, Frank Sutton, Jerry Paris, James Bell, Karen Steele, John Milford, Glenn Strange.
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.