Crítica | Martyrs (2015)

estrelas 1

Quão leviano fui ao pensar que força da onda dos remakes hollywoodianos tinha diminuído ante a obsessão tresloucada por adaptações de livros survival game, reboots e inúmeros filmes de super-heróis. Estranhamente, o terror é um dos gêneros que mais sofrem desses verdadeiros atentados bizarros à sétima arte. Tantas novas porcarias que recriavam clássicos americanos como A Profecia ou O Sacrifício remake de O Homem de Palha, assim como novos filmes estrangeiros que saiam da típica zona de conforto provando elementos novos e corajosos para o gênero como REC, Água Negra, O Chamadou O Grito. Porém, infelizmente, visando dinheiro fácil, ganhamos uma bela porcaria de remake do excelente Mártires de 2008, filme franco-canadense que fez muito sucesso na época ganhando uma ampla base de fãs e discussões boca a boca.

De modo curto e grosso, essa adaptação é uma porcaria. Se torna uma idiotice ainda maior se levarmos em conta a qualidade do filme original então, bom, azar do remake. A história segue exatamente a mesma linha do primeiro. Acompanhamos a fuga de Lucie, uma garotinha sequestrada que era torturada regularmente. Salva de seus agressores, é encaminhada para um orfanato católico onde conhece Anna que virará sua melhor amiga. A vida de Lucie não é fácil, diversos traumas a perseguem e a assombram. Porém, em sua pequenina mente conturbada, planos de vingança surgem.

Algo que nunca fiz antes e que farei agora é o seguinte, esqueça o remake e procure o original. É um filme ótimo, cheio de cinismo que conta com diferentes abordagens para a violência gráfica além de trazer uma história originalíssima. Feito isso, podemos falar dessa adaptação, pois há reviravoltas aqui que certamente vão prejudicar a sua surpresa quando for conferir ao original já que algumas coisas foram importadas integralmente. Novamente, é um amante do terror? Se poupe e procure o original.

Como havia dito na crítica de O Regresso aquela colaboração de Mark L. Smith era de fato muito duvidosa, pois seu fracasso em tornar a versão americana de Martyrs em algo equivalente ou superior à canadense é retumbante. A começar, ele responde uma questão que não precisava ser respondida: como Lucie fugiu de seus sequestradores. Depois, o roteirista parece não compreender muito bem a função da aparição fantasmagórica da mulher maligna que entra em contato direto com Lucie desde a infância – algo imbuído de sentimento poético vital para o desenvolvimento da protagonista no filme original. Aqui é abordado apenas como uma esquizofrenia, por mais que haja pontas soltas sugerindo uma presença efetiva do fantasma. Além disso, acaba caindo em um clichê típico do gênero da personagem “perseguida” que é desacreditada por todos quando revela sua maldição. Além da clássica representação visual através de desenhos mal feitos por criancinhas.

Outro ponto mal justificado é a motivação de Anna em apoiar Lucie, mesmo quando ela passa a iniciar sua sanguinolenta vingança. Como Smith nos mostra que Anna tem dúvidas da sanidade de Lucie, essas cenas dedicadas ao segundo ato perdem sentido. Outras besteiras permeiam o segundo ato inteiro como a súbita interrupção dos trabalhos de “jardinagem” de Anna e Lucie quando esta última decide dormir. Smith também bola um bizarro flashback que contrasta as meninas “santinhas” do passado com as “diabinhas” do presente. É canastrão, é tosco.

Também há problemas no desenvolvimento da protagonista por conta de escolhas dúbias do roteirista. Fora as atuações preguiçosas de Troian Bellisario e Bailey Noble, não há muito para o espectador se afeiçoar pela personagem já que ela é inconstante o tempo inteiro. O filme não dá uma pausa para estabelecer de modo competente o seu trauma de infância, além de trabalhar a amizade entre as duas com mais afinco – tirando o primeiro ato, nada é explorado.

Onde Smith acerta em seu texto é onde ele não encosta um dedo. Ou seja, o que há de melhor é o que foi importado do longa anterior. A situação de dor psicológica é evidente preterindo a dor física das torturas – algo já definido desde o início do longa ao contrário do desenvolvimento do original. As reviravoltas ainda chocam, principalmente a que marca o início do segundo ato. E só. Depois ele volta à atentar contra o próprio trabalho. Não há uma explicação satisfatória dessa mitologia que o filme propõe – mais irritante ainda, é notar que os roteiristas do filme original estabeleciam a “seita” de modo muito mais orgânico, nada esdruxulo. As soluções são rasteiras jogando a sutilidade no lixo, pois tudo é resolvido na bala e na bomba. Nem mesmo a boa revelação clichê clássico de “as aparências enganam” consegue despertar maior interesse. Pior ainda é o timing horroroso de Smith para responder as diversas questões que ele joga durante o filme. São duas sessões de “respostas”. Uma responde um monte de coisas no meio do filme e depois, no fim, ele fecha boa parte das questões.

Para dirigir esse caminhão do horror, se fazem presentes os desconhecidos irmãos Goetz, Michael e Kevin. Na técnica há que se admitir que os diretores não fazem feio, apenas conduzem o filme da forma mais preguiçosa possível. É só comparar toda a atmosfera doentia que Pascal Laugier figurou no original com essa representação tão simplória e comportada de seu trabalho.

A decupagem é boa, os enquadramentos são bons e a movimentação de câmera também é razoável. Tudo medíocre, no mínimo. Ambos sabem bem como criar alguma atmosfera de suspense, algo fácil para dizer a verdade quando se conta com o auxílio intenso da trilha musical sugestiva: basta ter lugares mal iluminados e encenação lenta. Pronto. A apreensão existiria caso nós nos importássemos com o destino das personagens, algo que não é o caso. Os poucos sustos que existem tratam-se dos famigerados jumpscares bocejantes.

No primeiro ato, há até mesmo uma boa cópia da encenação com personagens se escondendo em lençóis vista em Não Tenha Medo do Escuro. A única coisa que conseguem criar de inspirado é um bom momento que contrasta um establishing shot pacífico para então apresentarem uma cena da violência que ocorre dentro da casa que se passa o filme.

Os diretores falham mesmo em uma sequência de perseguição muito bizarra nos bosques que ficam no quintal da casa. Uma cena digna dos piores seriados de terror B que existem no mercado. Depois disso, é só ladeira abaixo. A encenação segue o padrão maçante de sempre, o filme perde muito do seu fôlego e o espectador perde o interesse para o que se passa em tela. Até mesmo a violência gráfica tem o teor abrangido. É gorefest muito mais light do que o visto no anterior. A maquiagem também não ajuda, além dos efeitos sonoros péssimos para o fantasma violento.

Porém é imperdoável como eles mudam o teor da reviravolta final, revelando, enfim, o propósito dos mártires. Algo que era cheio de poesia, cinismo e egoísmo, se torna em algo negativo e assustador quando não era para ser. Nisso, entra em confronto diretamente com a bela cena que vem após esse twist. É o único momento bom do filme, mas não é apenas porque ele acaba, mas sim por enfim conferir um tom emocional na amizade das duas protagonistas. É algo realmente bem pensado que agrega ao filme original. Uma pena vir depois de um momento tão estúpido.

O remake de Mártires, assim como tantos outros, não fazem jus à sua existência. Não adiciona nada para quem viu ao ótimo filme original, além de possuir menos características interessantes. Bizarramente, esse filme consegue falhar em ocasiões que o original não falhou. Nunca tinha visto isso em um remake. É como se a obra quisesse ser original, mas nem se dá ao trabalho de solucionar os próprios problemas que cria. O conselho é válido, simplesmente não vale a pena. Para quem gosta de um terror bem construído aliado à uma excelente história – algo cada vez mais raro atualmente, é melhor se ater ao longa de 2008, pois ninguém merecia um filme novo que proporcionasse uma experiência tão torpe, abjeta e estéril como essa concebida por Smith e o irmãos Goetz. Quer queira quer não, esse remake nasceu fadado ao fracasso.

Martyrs (Martyrs, EUA, 2015)
Direção: Kevin Goetz, Michael Goetz
Roteiro: Mark L. Smith inspirado na obra de Pascal Laugier
Elenco: Troian Bellisario, Bailey Noble, Kate Burton, Caitlin Carmichael, Melissa Tracy, Romy Rosemont, Toby Huss, Elyse Cole
Duração: 86 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.