Crítica | Marvel 1602: Os Quatro do Fantásticko

estrelas 2,5

Em 2003, Neil Gaiman escreveu a minissérie 1602 para a Marvel, imaginando um universo em que os heróis da editora tivessem surgido  no começo do século XVII. Com desenhos de Andy Kubert, as oitos edições originais fizeram sucesso e geraram uma continuação direta, 1602: Novo Mundo, além de edições solo do Homem-Aranha e do Quarteto Fantástico. Era criado, assim, um novo universo Marvel, o chamado Terra-311.

Apesar de o Quarteto Fantástico – na verdade, Os Quatro do Fantásticko – ter sido apresentado logo na primeira minissérie, ela tratava de uma ameaça maior, de conjunto. O objeto da presente crítica, portanto, é apenas da publicação solo com os heróis, publicada posteriormente à sua apresentação em 1602.

marvel apresenta 32 os quatro do fantasticko capaNela, Os Quatro do Fantásticko (Fantásticko é o nome do navio de Richard Reed, o Reed Richards desse universo, claro) estão separados. Reed mora com a voluptuosa (sim, esse é um detalhe importante, que a diferencia da Sue Storm que conhecemos) Susan Storm que está grávida, John Storm corre atrás de mulheres, especialmente Doris Evans (no Universo Marvel comum, o Terra-616, ela foi uma das primeiras namoradas do Tocha Human) e, por fim, Ben Grimm juntou-se à trupe teatral de ninguém menos do que um certo William Shakespeare.

O desfigurado Otto von Doom, em sua armadura metálica, juntamente com a versão do século XVII do Quarteto Terrível (Mago, Madame Medusa, Ardiloso e Homem-Areia) e de um exército de homens carecas alados (versões do Abutre), sequestra William Shakespeare e parte em uma expedição para o “fim do mundo”, onde, aparentemente, uma lendária cidade altamente tecnológica existe. Doom quer curar-se de sua desfiguração e a presença de Shakespeare – forçada, admito – se dá unicamente porque Doom quer ter suas aventuras escritas pelo bardo, ao mesmo tempo que o sequestro atrai a atenção dos membros do quarteto.

E é justamente a presença de Shakespeare na trama que a tira do que poderia ser apenas mais uma história lugar-comum. Afinal, mesmo com a ação transplantada para 1602, com navios voadores no lugar de naves e roupas de época no lugar de uniformes espalhafatosos, há um inusitado baixo grau de originalidade e ousadia na recriação dos personagens. Não fosse a já citada Sue Storm em sua forma, digamos, mais recheada e pelo fato de as roupas de Reed não se esticarem quando ele estica, criando um efeito curioso e grotesco ao mesmo tempo e um Homem-Areia cujo poder, como seu nome de duplo significado em inglês indica – Sandman (o João Pestana do folclore português ou o Sandmann do alemão) – é o de fazer as pessoas dormirem, os demais elementos são por demais comuns e pouco inspirados.

Shakespeare, que nunca é o foco da narrativa, mas sempre está presente, é mostrado como um escritor de peças que se deixa influenciar pelos monarcas e suas ideias “absurdas” como colocar três bruxas em Macbeth e um fantasma em Hamlet. Ao ser levado por Doom, Shakespeare passa a ser um observador e nós, leitores, somos brindados com os personagens da história – especialmente Doris Evans – inadvertidamente dando ideias ao escritor, com diversos diálogos sendo retirados diretamente de peças famosas dele, mas que ele ainda escreveria.

Sem dúvida alguma, Peter David acertou em cheio ao trazer esse elemento literário para a aventura dessa versão do Quarteto Fantástico. Mesmo que por vezes o diálogo possa parecer forçado justamente para que ele se encaixe nos textos shakespearianos, é uma missão divertida detectar as peças citadas no meio da pancadaria.

E a pancadaria realmente acontece, ainda que sem grande entusiasmo, com traições e trocas de lados constantes, como em uma grande peça de, sim, você adivinhou: Shakespeare. Há uma meta-história aí, uma piscadela para os leitores que, se encararem Os Quatro do Fantásticko apenas pelo seu valor de face, não encontrarão muito para apreciar. Na verdade, mesmo o artifício de inserir Shakespeare na narrativa não retira a minissérie da mediocridade, ainda que uma mediocridade benigna.

E grande parte do problema está no trabalho de Pascal Alixe com os quadros. Não há fluidez no que ele desenha, com momentos de ação confusos e poucos satisfatórios. Sua arte em si é interessante, pois consegue efetivamente passar a impressão da época em que a história se passa, mas muitas vezes ele erra na proporção corporal, especialmente desenhando Numenor, Imperador de Bensalyum (a versão 1602 de Namor).

Lógico que Alixe tinha pouco com que trabalhar, já que o destaque maior fica mesmo com os diálogos espertos de David que, porém, não ajudam a construir personagens, apenas a criar situações para usar as obras de Shakespeare em contexto super-heroístico. Funcionaria se ele não tentasse dar uma amplitude épica à narrativa, com flashbacks e inúmeros epílogos que não acrescentam muito mais do que pontas soltas forçadas para uma possível continuação.

No final das contas, todos os Quatro do Fantásticko são abafados pelos chistes shakespearianos em uma história que pouco acrescenta à mitologia estabelecida originalmente por Neil Gaiman.

Marvel 1602: Os Quatro do Fantásticko (Marvel 1602: Fantastick Four, EUA – 2006/7)
Contendo: Marvel 1602: Fantastick Four #1 a 4
Roteiro: Peter David
Arte: Pascal Alixe (#1 a #5), Khoi Pham (#3)
Arte-final: Livesay
Cores: Rob Schwager (#1 e #2) Tom Chu (#2 a #5)
Letras: Todd Klein
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2006 a março de 2007
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: outubro de 2007 (em Marvel Apresenta #32)
Páginas: 112

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.